Um belo dia de verão na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. "Dia agradável, após passear pela Feira do Livro da cidade, queria um autógrafo da Martha Medeiros, a fila estava enorme, desisti e resolvi caminhar naquele sol lindo. Não me arrependo :)"

Conheço a Daiane (ou Dai, como uso chamá-la) há já um par de anos e nos esbarramos pela primeira vez nos corredores da faculdade de Publicidade e Propaganda, onde o primeiro evento de nosso encontro se perde pelos porões de minha memória. Aquariana com ascendente em libra e lua em touro, ela não acreditava em astrologia até descobrir que não é o horóscopo que vale, mas sim o mapa astral (acho isso bem verdade!). Gremista, esquerda liberal, publicitária, apaixonada pelas letras, ela acredita que filosofar é o que nos move e divide alguns de seus pensamentos no cantinho Filosofa Comigo.
Nessa entrevista, Dai divide conosco suas percepções de mundo falando um pouquinho sobre política, questões de gênero, mercado profissional e outras tags cotidianas.


w  Dai, atualmente, quais as suas maiores inquietudes (perspectivas, medos, desafios)...

- Enquanto mulher 
Ainda ter que provar que homens não são melhores que eu no mercado de trabalho, que posso fazer melhor e ter que provar isso constantemente, pois sem nem sequer conhecerem meu trabalho, já me descartam por ter sido executado por uma mulher ou pagam valores mais altos para um homem que realizou o mesmo serviço, com a mesma qualidade, às vezes até inferior, é uma grande inquietude. Algo que me deixa possessa e desacreditada, muitas vezes. 
Andar sozinha na rua, especialmente de noite, também é um grande desafio para qualquer mulher - na verdade com a falta de segurança que temos, para qualquer pessoa - mas o que mais pesa é saber que alguém pode violentar e atacar, deixando uma marca que certamente ficará para o resto da vida.
Possuo perspectivas de que algum dia não exista mais diferenciação de valor entre homens e mulheres. Sinto o quão arcaico é alguém ainda pensar dessa forma. Somos todos iguais, diferentes biologicamente, nas formas de pensar e agir, mas merecermos direitos iguais de sermos livres e ir para onde quisermos, sem proteções especiais, mas também sem obstáculos.

- Enquanto cidadã brasileira 
Estou preocupada. Nossa moeda não vale mais nada, o desemprego aumenta e não temos representantes nos quais possamos confiar. Acredito que apenas uma reforma política clamada pelas massas e originada por elas ao lado do que ainda resta de bom nas bancadas políticas possa mudar a situação em que estamos. Lá no fundo ainda acredito no Brasil e tenho orgulho pelas coisas boas que ainda vejo nele, apesar de estarem esquecidas pela maioria dos brasileiros.

- Enquanto jovem  
Tenho 28 anos, e quando tinha 15, me imaginava com a idade que tenho agora e não idealizava que estaria assim. Pensava que já teria conquistado muito mais coisas e estaria estabilizada em um emprego, já com uma carreira percorrida, enfim. Me sinto muito na casca ainda, mal começando uma carreira e um pouco engatinhando, com medo inclusive de seguir nela. Ser publicitária não é algo que traga estabilidade e os obstáculos são diversos, porém tenho aberto a mente para muitas outras possibilidades e pensado em abrir meu próprio negócio.
Acredito que nós jovens estamos cada vez mais desacreditados das grandes corporações e já não almejamos mais fazer parte delas. Não queremos mais trabalhar 12 horas por dia quem loucos, até porque o muito trabalho não tem mais garantido, como na geração anterior, um salário que valha a pena. Perdemos nossa vida e não temos ganhado nem dinheiro com isso, estamos ajudando algumas pessoas a enriquecerem, pessoas que não se importam com a sua força de trabalho nem levam em consideração a sua importância para a empresa delas. E as empresas estão muito preocupadas com si mesmas, não com questões sociais, em melhorar o mundo ou em fazer algo realmente significativo.
Acredito que a maior insatisfação da minha geração é consegui fazer coisas significativas ou não criar mecanismos para isso. O mundo está escasso de soluções e repleto de problemas e problemas grandes. Precisamos pensar diferente, trabalhar diferente e em lugares diferentes.

w O que te incomoda/ surpreende em nosso sistema de valores contemporâneo?
A desvalorização do ser humano e a falta de tempo. Não conseguimos nem sequer manter nossos relacionamentos. Quando algo incomoda, não conversamos, não resolvemos, apenas cortamos os laços. Hoje acredito que tenha encontrado relações saudáveis, mas já vivi essa modernidade líquida em que nada se aprofunda, como diria Zygmunt Bauman. Penso que temos informação demais sobre tudo e não nos aprofundamos em nada, não estudamos nem conhecemos nada profundamente e metemos o dedo em tudo como se fôssemos conhecedores de todas as causas, inclusive julgando as pessoas. Então me incomoda essa pressa, esse "é complicado, joga fora", essa descartabilidade - não sei se existe essa palavra, mas isso, essa superficialidade de tudo, que traz a desvalorização das pessoas e nos compara a coisas, a bens de consumo.

w Se pudesse voltar 8 anos atrás, que conselho você daria àquela Daiane?
Diria para ela ser mais calma e para não insistir em manter laços com quem não move uma palha para estar com ela. Se valorizar mais e não ter medo de firmar o pé naquilo que acredita.

w Mudaria algo no seu passado/ história?
Penso que qualquer um diria que sim, eu diria que sim, mas refletindo um pouco melhor, não mudaria. Afinal as razões que tenho para querer ter feito diferente foram resultado de ter feito errado, de ter sofrido e de saber que aquilo já não seria mais assim hoje. Tudo faz parte de uma construção e estamos exatamente onde deveríamos estar. Tudo é aprendizado. Não podemos nos arrepender, pois no momento presente fazemos sempre aquilo que achamos correto. As consequências das escolhas é que mostrarão se estávamos certos ou errados. A vida é feita de escolhas.

w Como você imagina o Brasil em 10 anos (em todas as áreas: política, econômica, social).
Pergunta difícil. Penso que em 10 anos podemos evoluir muito como regredir. Se nossos representantes cultivarem um pensamento e uma atitude voltada para a justiça social, penso que vamos evoluir. Se ocorrer uma reforma política, uma reforma tributária, previdenciária e penitenciária, as coisas podem ter rumos diferentes no que compete à saúde, educação e transporte coletivo. Nossa administração é falha, não só a pública, como a privada. Precisamos nos organizar e pensar mais de forma coletiva, precisamos de uma consciência coletiva, do contrário, vamos piorar. Precisamos plantar mais árvores, reciclar mais coisas, reutilizar, consumir menos - ou consumir melhor, e pensar no próximo. Precisamos nos livrar do egoísmo e eliminar o pensamento corrupto. Enquanto algumas pessoas passam fome, outras não podem nadar em notas de dólar.

w E como você se imagina vivendo nesse Brasil de 2026?
Dez anos é muito tempo. Quando lembro de 2006, muita coisa mudou. Assim como provavelmente mudará nos próximos 10 - ou não, já que na transição de 18 para 28 anos a gente tem muitas novas descobertas, talvez mais do que dos 28 aos 38, mas espero ter tantas quanto ou até mais - então eu me pergunto se ainda estarei aqui no Brasil, se estarei em outra cidade dele, em outro estado quem sabe. Mas tudo que imagino é um sonho e um desejo de mudar e evoluir, de estar melhor do que agora e uma esperança, de se ainda estiver no Brasil, que ele seja um bom lugar para viver. A gente sempre espera que as coisas melhorem.

w Fale livremente sobre algo (Qualquer assunto, qualquer ponto de vista, memória, experiência ou ideia).
 Gosto muito de falar sobre o comportamento humano. Às vezes penso que deveria ter cursado Psicologia ao invés de Publicidade e Propaganda, e focado nisso, acredito que poderia ajudar muitas pessoas, gosto de ouvir, ajudar, entender comportamentos e buscar saídas. O mundo de hoje precisa muito disso porque estamos em um sistema opressor sob muitos aspectos e é preciso ser muito forte psicologicamente para não cair nas armadilhas dele. Quem sabe um dia ainda opte por estudar mais isso. Para falar com os diversos públicos para os quais destino meus textos publicitários, todos os dias, preciso me colocar no lugar de muitas pessoas, me ver ouvindo e lendo aquilo que escrevo, e nisso, acredito que aprendo sempre a pensar pelo olhar do outro, o que me faz perceber que não podemos julgar ninguém e precisamos exercitar mais isso, a empatia. Acredito que poderia escrever um livro inteiro só sobre esse assunto, quem sabe um dia escreva um livro afinal.

w Quer me fazer alguma pergunta? (de qualquer natureza).
Por ser muito parecida comigo, gostar das letras e de filosofar, penso que também tenha o desejo de escrever um livro algum dia. Já pensastes nisso? 
(Após a quinta entrevista, reunirei as perguntas que me fizerem e vou publicar uma entrevista comigo :D
Mas, adianto, tenho história pra contar sobre escrever livros, sim, rs).

 Rapidinha:
Última vez que chorou: No falecimento da minha última vó viva, há 1 mês atrás.
- Último filme que viu no cinema: O jovem Messias - meu pai adora filmes bíblicos, fui acompanhá-lo.
- Último “Eu te amo” que ouviu: Hoje de manhã, do Cristian.
- Último “Eu te amo” que falou: Hoje de manhã, para o Cristian.
- Última decisão que tomou: Estudar para concursos - só nesse ano já fiz quatro e farei mais um em breve, por perceber ser uma forma de conquistar alguma estabilidade, que a minha área não permite (ao menos não encontrei isso ainda). E decidi tentar essa alternativa por me preocupar com o meu futuro.
- Último café da manhã: Bergamota e sanduíche.
- Última receita que testou: Ervilha partida com temperos.
- Último recado na geladeira: Número de tele-entrega de uma farmácia, que deixaram na minha caixinha de correio.

Compartilho de diversas coisas que a Dai comentou nessa entrevista. Fico feliz e grata por ter uma amiga tão lúcida e agradeço imenso a oportunidade que ela me deu de entrevistá-la. Obrigada, Dai! ;)




Entrevista recebida em 30/06/2016.