O que acho bonito mesmo é um casal velhinho de mãos dadas. É quando um amigo meu com quase 30 anos me apresenta seus pais que ainda são casados – muito bem casados. As tais “famílias estruturadas”. Que com certeza tiveram também muitos percalços pela união, mas lutaram, consertaram, tentaram, ajeitaram, e não simplesmente descartaram os anos de convivência e comunhão. Sei também que as aparências escondem muitos incidentes. O que critico, entretanto, é essa nossa cultura da “autenticidade” contemporânea, que não suporta a ideia do esforço, do “ser infeliz”, das causas comunitárias ao invés das individualistas. Qualquer coisinha troca, joga fora. Namoros não passam de um negócio com prazo de validade: por um ou dois anos você me dá, a gente faz coisas juntos e é companheiro, depois é a vez da coleguinha. Aliás, até a assunção de um simples namoro se tornou algo surreal, impossível, com as pessoas sendo vistas como pratos cheirosinhos em um imenso buffet e assumir um namoro seria escolher só um, quando se quer comer um pouco de todos.
Como eu mesma sou dessa geração, fica difícil ter saído muito longe disso, mas pouco me reconheço nesse troca-troca moderninho. Pois, do que estou tratando aqui é de valorar a construção, o conjunto, a bagagem. De a solidez de algo ser maior que a tentação da desestrutura – não falo de convenção social. Não são as bodas ou a festa que importam num casamento, mas todas aquelas conversas consoladoras que se teve ao longo dos anos. O cuidado compartilhado na febre dos filhos, a mão pousada sobre a outra na doçura de uma manhã fria, o agrado de preparar o mel na torrada dela como sabe que gosta e saber que existe ao menos resistência em trocar isso por uma bunda mais jovem que passa. Hoje em dia é tão mais simples se divorciar do que tentar disciplinar os próprios instintos, educar os próprios defeitos, melhorar como ser humano. Para mim, parece que estamos em meio a uma regressão tão grande no que se trata de relacionamentos. Não porque eu alie amor a exclusividade, mas porque esse nomadismo tira a responsabilização pelo que se cativa no outro, e também pela própria educação sentimental. Amar melhor não é amar mais gente. Já pensou poder ir a uma concessionária e experimentar vários carros, de diferentes tamanhos, modelos, e depois não ficar com nenhum? Causar danos irreversíveis em alguns deles e não ter que se responsabilizar por isso? Pois é, e aparentemente, deveríamos valer mais do que carros.

Eu não acredito no amor romântico. Ele é careta, antiquado e demodè, que nem eu. Mas estou perdendo o que resta da minha fé na humanidade. E isso é algo que torna a vida mais triste, mais pesada. Acho meio que nasci no tempo errado. Pensava que era sempre tempo de amar, mas aí inventei de nascer nesse tempo...