Desde que cheguei em Florianópolis queria ir à praia à noite, deitar na areia e ficar olhando as estrelas. Mas, como mulheres não têm as mesmas liberdades que homens – sim, enquanto houver cultura do estupro, sou a única responsável pela minha própria segurança – não pude ainda realizar esse desejo tão simples. Porém, realizei outro, de ir à praia quase de madrugada, ouvir o mar, caminhar sem pressa na areia e sentir o vento levantar meu vestido – e pude fazer isso porque estava acompanhada. Sozinha, talvez nunca o faça.

E como é calmo o mar noturno... Calmo, mas ainda assim forte, sonoro. Adormecer e acordar com o barulho da maresia é a melhor trilha sonora para embalar qualquer sono. E promove uma rara sensação de paz. Foi uma ocasião que me fez refletir o quanto estava vivendo dias todos iguais, assim, desbotados. Que às vezes precisamos aceitar convites inusitados de nos lançar ao mar da vida. Pois ela nos dá tantos recursos simples, mas extraordinários para suprir nossas carências mais profundas. E são esses pequenos resgates que podem nos salvar de um punhado de dias iguais.