Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz 
com que nos vemos. 

(Mia Couto, no livro “Idades Cidades Divindades")

Esqueça todas as mentiras que te contaram. Você não vai acordar feliz e realizadx numa bela manhã de sol, não terá o carro de um milhão de dólares e não estará satisfeitx aos 30. Você não vai aprender nada dos relacionamentos que terminaram (ou nem começaram), das pessoas que te feriram e destroçaram; de quem fudeu com a sua vida e não fez nenhum sentido. Tudo vai continuar sem sentido. Algumas pessoas são apenas filhas da puta mesmo.
Idade não vai definir você, mas a sociedade vai. A cada ano, fazer aniversário se parecerá mais com aquele evento social o qual você foi convidado mas não faz muita questão de ir. Acaba indo mesmo assim.
Fazer aniversário, depois de um tempo, também é parecido com aquela passagem de Marcel Proust onde ele diz que insinuava em si duas suspeitas terrivelmente dolorosas... “A primeira era de que a minha vida tinha já começado (quando todos os dias me considerava como que no limiar da minha vida ainda intacta, e que só começaria no dia seguinte de manhã), mais ainda, que o que se ia seguir não seria muito diferente do antecedente.” E a segunda, meu filho, sim, estamos todos sujeitos ao tempo! O envelhecimento vai chegar de qualquer jeito, a não ser que passe dessa pra melhor um pouco antes. Talvez se pensasse bem sobre isso, trocaria a prótese de silicone por um passeio em Paris ou outro lugar menos pop. Talvez se pensasse nisso, parasse também de fingir que é garotão aos 38. Sessões de botox só vão adiar o inevitável (e te deixar com uma aparência estranha, moça). Jogar vídeo game e ver séries não vão te fazer mais novo. (Só talvez mais inútil, moço).
Depois de um tempo você vai contar o seu aniversário em conta-gotas, de 5 em 5 anos. Medi-lo em conquistas e fracassos, títulos e filhos, sonhos novos e antigos que se repetem; zeros na conta bancária (em alguns casos, com outro algarismo na frente, oba!). Vai dar menos bola para a idade que as estatísticas – estas estarão sempre a classificá-lx, esquadrinhá-lx, encaixá-lx. E dentro de você sempre viverá umx menininhx – dependerá do seu grau de evolução ou retardo contê-lx psicologicamente.

O mundo vai se tornar um lugar estranho quando você perceber que tudo que sempre te falaram sobre ser adulto é mentira, e da feia. Como a idade que eu tenho hoje – minha verdade menos óbvia.



Foto: Arquivo Pessoal