É preciso tempo. Tempo para nos firmarmos no que somos ou deixamos de ser; tempo para nos despirmos das vestes do que já não serve mais; tempo para olhar a folha em branco e pulsar algo diferente. É preciso tempo para voltar a saber o que dizer.
É possível que esse texto não fique agradável, não seja coeso, não fique “direitinho”. É que eu também já deixei de ser essas coisas e um ano de silêncios serviu para me encher de mais e mais interrogações. Vou precisar de uns rascunhos até acertar a mão de novo – as mesmas mãos, mas tantos silêncios depois! Foi um ano inteiro sem intimidade com as letras. Parecia uma certa crueldade comigo, e na verdade, era. Mas, era preciso. E foi um ano cruel mesmo, de mim comigo, pois quando os textos vinham aos borbotões no cérebro, fazia questão de deixá-los fluir, mas não os escrevia. E houve mesmo vezes que quis escrever, mas aí eram os recursos que me faltavam: simples papel e caneta ou, ultimamente, meu gravador. Eu também me achava sádica; tinha dias que pensava: “Como pôde não ter escrito isso...?” Pois sabia se tratar de uma pérola, um achado, uma sacada. Mas, segurei um a um esses pensamentos na minha cabeça. Teriam virado belos sonetos, reflexões ou poemas, mas havia uma Kelly em mim que já não se contentava em transpor sensações em palavras e queria se provar sem ter de se expor em belos escritos. E foi uma experiência sádica, sim, mas sadia. Para mim, por mim, quase lúdica. Pois aprendi a brincar muito mais com as palavras, segurando-as comigo, em mim. Se me pertenciam, para que reparti-las?
Porém, eu sabia que chegaria o dia de voltar e também estou feliz em poder me materializar palavras novamente. Muita gente me pediu do blog nesse tempo (ainda o antigo), e eu também voltei por vocês, mas preciso confessar que é para mim mesma que escrevo. Sempre foi. Quem escreve sabe: a gente escreve pra si mesmo. Esse é o escoar saudável de nossa loucura e o compartilhamento insano de nossa pouca lucidez – o limiar possível para continuar a viver.

Bem-vindos de volta ao meu pequeno mundo de palavras. Bem-vindos às minhas inquietudes!

Foto: Eliezer Moura