É quase irônica a minha tentativa iniciativa de fazer esse blog agora, pois sua chegada coincide com um momento em que não tenho muita vontade de falar/escrever. Um momento muito meu, muito fechado. Em que estou totalmente pra dentro. Saio a caminhar nas ruas ainda desconhecidas desta minha cidade e elas me devolvem certa cumplicidade, aceitando meus silêncios. Um milhão de pensamentos e nenhuma palavra – sem som, nos conversamos. E sento-me no lugar que dá – um banco de praça, um hall de shopping, na estação de ônibus ou um píer envelhecido na BeiraMar Norte, lançando mão de papel e caneta (ou gravador) e registrando parte do que me vem à mente. Parte apenas, pois a outra metade se perde sozinha, emudeço, sem que consiga transcrever os anseios que instantes antes me inquietavam. E são essas ruas desconhecidas a me amparar nos dias – ensolarados ou de chuva – que simplesmente não quero voltar pra casa. Elas me acolhem com o mesmo afeto de um abraço conhecido, que já não tenho, e me convencem de que não há nenhum problema em querer chorar. São nesses dias em que só quero ver o mar, sentir o sol na pele ou o vento nos cabelos que não me sinto assim tão só, estranhamente. Nesses dias em mim, aqui,  “pra dentro”, só, profunda, assim. Tão comigo. Tenho tanto esses instantes: trancar a porta da alma por dentro e não abrir para ninguém. Dependurar “Não perturbe” e me perder em meus labirintos.
Só que dessa vez é tão intenso esse processo que já não sei se estou mais superficial ou muito mais profunda. Se meus textos, natimortos, ou pérolas de ostras-cismos.
Só que assim me entranho em mim.


Foto: Eliezer Moura