Um dia em que tudo, aparentemente, dá errado, pode nos descortinar a reflexões que resignificam as coisas. Pretendia ir à praia, mas pelo correr dos fatos vim parar no shopping sem planejar – e nem preciso mais disso para constatar como estou cansada desses antros de consumo. Cada vez que olho as escadas rolantes intermináveis, além da insegurança que eu vejo nelas e ninguém mais vê, vejo também todas aquelas pessoas como as salsichas lançadas da fábrica no clipe do Pink Floyd. Mais um tijolinho no muro do capitalismo. Cada vez que olho uma vitrine e uma peça de roupa que acho “a minha cara” me acena a sua etiqueta escandalosa, eu volto a pensar nessa rede de cifrões a qual estamos todos interligados, querendo ou sentindo que precisamos provar tantas coisas todos os dias para nós mesmos e para ninguém – socialmente, toda a construção de nossa identidade perpassa essas pequenas matizes que vão desde a marca do sapato até a bandeira do cartão de crédito. Pagar $7 para ver Almodóvar ou $18 por uma produção romântica-clichê baseada em um best seller? Depende do cinema que eu vou, da autonomia que eu tenho (vou sozinha ou recebi um convite?) e da minha educação financeira (e cultural). Não gosto de gastar dinheiro com cultura ou arte que não me acrescenta. Mas acabo sempre gastando mais com meus livros que com minhas botinhas (já me consola).
Estou esgotada de escrever o óbvio. Cansei de ver o que poucos veem. E que estranho deve parecer uma moça, ainda, aparentemente burguesa, sentada no hall do shopping mall a escrever em suas folhas de papel rascunho – ainda que todos que passeiem à volta (me) ignorem (e) que também sejam alvo dessa escrita ou, no mínimo, de minha observação: estão ocupados demais olhando as lojas, sonhando com as grifes que só podem pagar em parcelamentos vitalícios e olhando as telas de seus celulares.
Quem sabe eu seja menos óbvia um dia. (Quem sabe eu seja menos ébria um dia). Me surpreenda menos com a formatação de vida que me cerca por toda parte e em cada poro, me impregnando com um sistema o qual não posso escapar. O qual minhas amadas botinhas (e meus livros) também fazem parte. Até lá, seguirei escrevendo. Seguirei escrevendo? O óbvio. Não sei. É que cansei de escrever o óbvio (pra mim). Mas... Seguirei escrevendo, sim. I`ll try.