Lembro que eu me apaixonei desde a sua primeira linha.
Mas eu não podia contar para mim mesma.
Amava uma personagem.
E amava apenas por ser tão parecido comigo
numa época em que estava perdida e só precisava me encontrar.
Ele pensava aquelas coisas tão certas
apesar da sua pouca idade.
E sabia dizê-las.
Eu quis muito uma imagem sua
um retrato real
que me ajudasse a conviver menos
com o garoto da minha imaginação.
Um retrato que fosse além do seu chapéu vermelho
das suas fugas (do mundo e de si mesmo)
e da sua estranha maturidade.
Mas hoje, tanto tempo depois
tudo o que sobrou de você em mim foi essa singela descrição
e uma lembrança muito antiga
de uma identificação que, aparentemente, existiu, mas eu nem sei se existiu mesmo.
Holden Caufield vive apenas em minha memória
que talvez nem seja tão fiel assim a ele.