Conheço a Karol há mais de 10 anos. Bem, na verdade, conheço, mas nunca nos vimos pessoalmente, nem nos abraçamos, a não ser por esse meio virtual... Passamos por muita coisa juntas, nos afastamos, crescemos, amadurecemos e hoje, quando voltamos a manter contato, admiro essa mulher linda e forte que ela se tornou. Espero que um dia nos encontremos e possamos olhar no olho, dar um abraço. Enquanto esse dia não chega, mantemos conversas maravilhosas por aqui. Segue a entrevista que realizei com ela.

Karol, fale um pouco de você.
Karoline, 23 anos, filha única e leonina. Natural de Piracicaba, mas Ribeirão Pretana de coração há 06 anos. Formada em Biomedicina, sou ansiosa, inquieta, perfeccionista, intensa. Troquei de emprego num momento de insatisfação e, mesmo sabendo do risco que corria ao assinar um contrato de 06 meses, fui em frente e hoje vejo que, apesar dos pesares do dia a dia, valeu a pena o risco e trabalho em um hospital referência em cirurgia cardíaca, bariátrica e ortopédica. Sou apaixonada pela minha família e pelos poucos amigos que mantenho, e faço de tudo por eles. Como vi na internet esses dias: gosto da razão, mas ouço o coração!

w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes?
Ter que abrir mão da minha independência por um momento e voltar para a casa da minha mãe, para correr atrás de um objetivo.

w O que te levou a querer trabalhar na área da saúde? A prática diária é semelhante ao que você imaginava enquanto estudava/planejava trabalhar com isso?
Nunca soube direito o que me levou para essa área. Desde novinha sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, sempre respondia com uma profissão ligada a essa área (odontologia, medicina, fisioterapia, farmácia).
Hoje trabalho dentro de um hospital que é referência, mas não exerço a profissão em que me formei (Biomedicina). Sim, eu não exerço. A profissão é muito bonita, mas sempre tive comigo que só fazemos algo bem feito quando gostamos do que fazemos, e a biomedicina não é a minha grande paixão. Mesmo exercendo outra profissão, vejo que a rotina de um hospital é bem diferente do que imaginamos como pacientes.

 w A prática em um ambiente hospitalar também reserva surpresas fortes. Você pode dividir com a gente alguma (s) história (s) que te marcou?
Trabalho dentro de uma UTI. Ou seja, os pacientes que estão ali, normalmente, estão em situações que necessitam de cuidados especiais. Ali dentro, eu aprendi a valorizar mais ainda cada momento da minha vida. Não somos nada dentro de um hospital. Não que somos maltratados e tal. Mas ali, vejo que não há diploma, nem status que te faça melhor e que mereça mais atenção que os outros pacientes que estão ali.. Vi mães chorando ao lado do filho entubado, dizendo que iria ficar tudo bem, que a “mamãe” estava ali e que ele iria embora pra casa logo e mal sabia essa mãe, que esse filho, quase não tinha mais resposta cerebral. Vi uma noiva gritar por dias no leito que iria morrer. Ela havia internado para uma cirurgia bariátrica que não queria fazer, mas fez por estímulo da família. O casamento seria em três meses. Quinze dias pós cirurgia, chegando para mais um plantão, vi o médico que a operou saindo do hospital no dia 01 de janeiro às 07h da manhã. Cheguei no setor e ela tinha falecido. Vi médico dos mais espetaculares da cidade, que falava 07 línguas, cantava em espanhol, tratava todos com o mesmo respeito, sabendo todos os procedimentos que estavam sendo feitos e porque estavam sendo feitos. Vi um pai que esperou os filhos irem visitá-lo na madrugada a pedido dos médicos, para falecer. Vi irmãs chorarem horrores na recepção porque o irmão de 38 anos faleceu, vítima de HIV. Vi mãezinhas internarem seus bebês para procedimentos relativamente comuns para a patologia que apresentam (normalmente cardíacos, já que o hospital é referência) e saírem de lá, com eles dentro de uma caixinha...
Quem trabalha em hospital, são pessoas que gostam do que fazem. Ou se trabalha com amor, ou não aguentam o baque que é.

w Mudar de cidade teve um impacto muito grande na sua vida? Hoje em dia, como imagina que poderia ter sido sua história se não tivesse passado por essa mudança?
Sim. Apesar de ser bem independente desde nova, mudar de cidade me fez aprender a me virar sozinha sem o auxílio imediato da minha mãe. Aprendi a valorizar cada momento que passo, sendo eles bons ou ruins. De algum modo, sei que isso é necessário para crescermos como indivíduos. Não tenho ideia de como seria minha história se não tivesse mudado. A Karol que eu era em Piracicaba e quem eu sou hoje têm opiniões bem diferentes em alguns aspectos.

w Conta da sua experiência em morar sozinha: desafios, manias que adquiriu, o que mais odeia na rotina, o que não falta na sua despensa...
Saí da casa da minha mãe aos 17 anos. Inicialmente, mais pelo fato de querer sair da minha cidade. Morei 02 anos em um pensionato com 06 meninas, 02 anos em um apartamento com mais 02 meninas e atualmente, moro sozinha. Morar com outras pessoas é bem difícil. Ao mesmo tempo em que se cria um vínculo, as diferenças de criação/culturas são bem complicadas e apesar de ter conhecido boas meninas, também tive más experiências e muita dor de cabeça, o que me levou à decisão de morar sozinha.
Acabei criando alguns hábitos, como não andar de sapato dentro de casa. Deixo a maioria na porta da cozinha (um amigo me ensinou que a energia que carregamos da rua, devemos deixar na porta de casa); trancar a porta do banheiro (o que provoca muita briga na casa da minha mãe, já que ela sempre teve a liberdade de entrar a hora que quisesse no banheiro, enquanto eu estava tomando banho). Descobri que detesto mesmo cozinhar e isso eu tenho que fazer de vez em quando, rs. Em casa, não falta iogurte, milho e macarrão.

w Morando sozinha a gente passa a se relacionar muito mais com a gente mesma. Se conhece melhor, se respeita mais e se mima um tantão. Tanto por esse viés (de morar sozinha) quanto por outros, como é o seu relacionamento consigo mesma? O que você considera amor próprio?
Me desafio todos os dias a me conhecer melhor, pensar no que é melhor para mim e que, se hoje abro mão de algumas coisas, é para lá na frente aproveitar melhor. Pelo fato de querer sempre abraçar todos que me pedem colo, acabo me entregando demais nas relações e sendo um pouco tonta de pessoas que nem sempre me querem bem. Amor próprio é valorizar mais as coisas que aprendeu e viveu em vez de insistir em algo que está claro que não dará certo.

w Falando nisso, qual a sua opinião sobre a forma como as pessoas levam os relacionamentos atualmente? É possível ser profundo no superficial?
Acredito em casos e casos. Vejo muitas pessoas com medo de ficarem sozinhas e que entram em relacionamentos por conveniência (seja afetuosa ou financeira) e também vejo casos de pessoas que vivem uma história profunda em tão pouco tempo. Vai muito da maturidade das pessoas que vivem a história e da importância que dão aos seus relacionamentos.

w Atualmente, qual o maior orgulho da sua vida?
Como pessoa, ver que nada é extremamente tão difícil quanto pensamos. Passei por situações que achei que não aguentaria e hoje, vejo o tanto que fui forte e superei.

Rapidinha:
- Última vez que chorou: Coração mole, choro por tudo!
- Último filme que viu no cinema: Como eu era antes de você.
- Última conversa no Whatsapp: Job extra do final de semana – Tauane.
- Última música que ouviu (ou está ouvindo agora): E aí - Thaeme & Thiago (Devido ao momento)
- Último café da manhã: Pão de queijo recheado só com queijo, coca e biscoito de nata com goiabada (Ps.: Eu não tenho costume de tomar café logo cedo. Então, só como por volta de 09h30/10h.)
- Última receita que testou: Eu detesto cozinhar, então, sem tentativas! rs.
- Último livro que leu: A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón. (Indicação minha!!)







Entrevista recebida em 14/07/2016.