O Robson é aquele amigo cultural: geralmente trocamos muitas referências cinematográficas, literárias, musicais. Dividimos poetas favoritos, trechos de livros, conversas ao estilo de canções. Tudo sempre regado àquele tom quase sacro que guardamos para a arte que cultuamos...

wRobson, fale um pouco de você.
Nasci em 1984, no município de São Borja, na fronteira Oeste do estado do Rio Grande do Sul. Sou filho de funcionário público com uma dona de casa. Meu pai, além de bancário, também é escritor e poeta; lançou vários livros e chegou a ser patrono da feira do Livro de São Borja. Por conta desse trabalho, foi transferido para o município de Mostardas, no litoral gaúcho, onde moramos por um ano. Depois, como já tínhamos um apartamento em Santa Maria, viemos embora para cá em 1997 e é aqui que resido atualmente. Curso Publicidade & Propaganda na Unifra (Centro Universitário Franciscano) e gosto da corrente filosófica do Existencialismo. Amo Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Devo ser um dos poucos existencialistas que ainda sobraram no mundo, gostaria de saber: onde estão os outros?
(Boa pergunta! Não me considero uma existencialista, mas não discordo do que é tratado, em grande parte, no existencialismo).

wAtualmente, quais as suas maiores inquietudes...

- Enquanto homem
Tenho medo de perder a minha saúde, tenho visto exemplos de pessoas que a perderam e as dificuldades que isso traz para vida de qualquer indivíduo. Também queria escrever um livro, tenho algumas ideias na gaveta, mas tenho sofrido por um bloqueio criativo nos últimos anos; tem algo errado no ar que me impede de me concentrar e começar a escrever. Não sei dizer o que é exatamente. 

- Enquanto cidadão brasileiro
É difícil dizer. Sempre me vi como cidadão do mundo; sempre quis viajar por diversos países, conhecer gente e culturas diversas. E até mesmo morar fora. Eu sempre me vejo como um estrangeiro, até mesmo dentro do meu próprio país.  Uma análise rápida: continuamos tendo os mesmos problemas que existiam quando eu era criança.

wQual a principal coisa que tira você da cama todas as manhãs?
A ansiedade. Sofro disso, acho que acontece com todos; você não dorme bem, se revira na cama, fica pensando na sua vida pela manhã, passado, presente, futuro. Viaja, vai além: humanidade, o mundo, o universo. Como essa entrevista é por e-mail eu posso citar esse trecho do artista Edvard Munch, que descreveu o seu quadro famoso "O Grito" e que traduz perfeitamente o que eu sinto:

“Passeava com dois amigos ao pôr do sol quando
o céu ficou de súbito vermelho-sangue.
Eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a vedação.
Havia sangue e línguas de fogo
sobre o azul-escuro do fiorde e sobre a cidade.
Os meus amigos continuaram,
mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade
e senti o grito infinito da Natureza”.

wO que te entristece na humanidade? E o que te traz alento?
O que me traz alento é a arte: pintura, cinema, teatro, dança, literatura poesia e, principalmente, a música. A arte vai ser sempre a resposta para tudo. E o que me entristece é esse mundo cada vez mais comercial, controlador, que cada vez mais nos sufoca e tira nossa liberdade. Eu lembro que no começo do gênero cyberpunk falava-se sobre um futuro caótico controlado pelas grandes corporações. Acho que, de uma certa forma, eles acertaram; se não estamos vivendo a gênese dessa realidade, estamos caminhando para isso.

wDivida com a gente uma memória sua e o que isso te ensinou?
Meu pai me levando à feira do livro quando criança, comprei um livro "A gargalhada do Jacaré". Acho que, de alguma forma, me senti parte daquele universo, ou me foi mostrada a importância da literatura e de ler. Vendedores de livros iam na minha casa quando criança pois sabiam que meu pai era escritor. Tiravam todo o estoque deles na sala, era uma bagunça, e eu estava sempre presente e ganhava uma coleção! 

wPara você, qual a pior decepção: com um amigo ou com um amor?
É difícil falar sobre isso, acho que a vida sempre vai te decepcionar de alguma forma, sou pessimista nato. Nossas escolhas, às vezes, não são as melhores, e a vida nos prega peças. O importante é ficar em paz consigo mesmo. O budismo diz que o sofrimento está ligado ao desejo, se soubermos lidar com esse sentimento do "desejar" alguma coisa, algo, alguém, imaginando que isso seja obrigatório para nosso bem; e se não conseguirmos, vem a frustração e passamos a sofrer por isso, a nos colocar numa situação de sofrimento. Desapegar, ter controle sobre o desejo é difícil, exige aprendizado e tempo. Mas, é um caminho a ser trilhado.

wQuando você costuma ler? Fala de um livro que chorou de verdade.
Eu costumo ler durante a madrugada, no breu, quando há silêncio na cidade, com a luz da luminária e uma xícara de café sem açúcar. Livros, revistas, Graphic Novels, jornais novos e antigos (tenho uma pilha de jornais ensacados no meu quarto que costumo guardar dos mais diversos assuntos). Não consigo mais chorar hoje, mas lembro que na adolescência, depois que acabei de ler "O Apanhador no Campo de Centeio", do J.D. Salinger, tive um sentimento que eu não estava só no mundo. Me identifiquei com o Holden Caulfield, personagem principal do livro. E quando terminei de ler "On The Road”, de Jack Kerouac, tive um sentimento próximo, um misto de melancolia com tristeza, pois a gente se envolve tanto com os personagens Sal Paradise e Dean Moriarty, fica tão íntimo daquela viagem pela América do começo dos anos 50, que quando acaba e você se despede deles, ao fechar o livro, chega a dar um aperto no coração. As poesias de Rimbaud e T.S. Eliot me emocionam também, as peças de Shakespeare; são tantas coisas.
(Esse sentimento com o Holden Caufield eu experimentei fielmente. Lembro que fiquei retardando para terminar o livro...).

wFale livremente sobre algo.
Costumo ter um sonho repetidas vezes, em que me encontro numa praia e vejo um navio no mar que vai lentamente desaparecendo no horizonte. Eu tento gritar alguma coisa, mas não sai som da minha boca. Eu imagino que o navio é a representação da minha vida que vai deixando o absurdo da existência a cada dia que passa. A cada manhã, a cada minuto.

wComo era o menino Robson? A criança que você foi teria orgulho do adulto que é hoje?
Eu fui uma criança cheia de sonhos e imaginação, gostava de ler de tudo e brincar. Dificilmente saía do meu quarto. Nas aulas, era introspectivo, meus professores gostavam dos meus textos. À medida que vamos crescendo, a realidade se torna um monstro e vai devorando aos poucos nossos sonhos de infância, então eu acho que sim, a criança não ia gostar nada de saber que eu virei um acadêmico de publicidade.
(Maldade sua com os acadêmicos de publicidade! Fomos todos iludidos! #segueomeuprotesto)

wAlguma notícia do Vivaldi?
Vivaldi é o nome que você deu a um pássaro "bem-te-vi" que cantava forte todas as manhãs na minha sacada e roubava a água dos beija-flores. Parece que ele resolveu bater asas e voar para outros lares, talvez tenha construído uma família em algum lugar, mas ele desapareceu da mesma forma que apareceu do nada. Tenho saudades dele.
(Estou resignada...).

wQuer me fazer alguma pergunta?
Eu gostaria de saber se você tem planos para escrever um livro no futuro e sobre que assunto?
(Sorrisinho). Responderei as perguntas dos entrevistados mais adiante, em uma entrevista própria ;)

 Rapidinha:
- Gostaria que existisse um dia mundial de...
Existe o "Bloomsday", em 16 de junho, onde os amantes da literatura de James Joyce se reúnem pra celebrar a obra "Ulisses". Quem sabe existisse um dia semelhante no mundo para comemorar "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, que eu adoro?
- Poucas pessoas sabem que eu...
Gosto e acompanho os mais diversos esportes. Mas, poucas pessoas sabem que eu amo e acompanho baseball, é o meu segundo esporte preferido (futebol é o primeiro). Gosto da mística e da história do esporte e sou torcedor do Boston Red Sox.
Tem outro fato curioso, toda vez que perambulo pela cidade à noite, não importa a parte da cidade que eu esteja, sempre sou "perseguido" por um gato preto. Não sou supersticioso, longe disso, mas acho no mínimo curioso. 
- Confesse agora algo engasgado, mas que você nunca teve coragem.
Eu gostaria de segurar a vida e dizer no seu ouvido "Você é uma causa perdida."
(rs... Já eu, acho que não seria tão gentil com ela).