Muitas pessoas apregoam não se arrepender do que fizeram, só do que não fizeram. Outras, quando vão falar de seus arrependimentos – principalmente se estes envolvem terceiros, tais como um casamento ou ter filhos – o fazem sempre com um resquício de culpa [in]consciente, como se se arrepender fosse algo errado ou proibido. Porém, eu lanço a pergunta: como arrepender-se do que não se fez? Como poderia ter a certeza de que o resultado seria mesmo aquele que imagina? Sinceramente, eu não sei se me arrependo do que não fiz. Quer dizer, até arrependo-me, na medida em que penso que as consequências teriam sido exatamente as que eu esperava, porém esquecendo que, caso não fossem (muito provável), o arrependimento daquela escolha poderia ser até maior do que o de não tê-la feito. Mas, das coisas que fiz, posso afirmar com certeza: me arrependo, sim, de ter feito algumas delas. Me parece que não se arrepender do que foi feito em outra época soa meio como um atestado de não evolução. “Sei que era errado, mas não me arrependo”; “Não faria de novo, mas não me arrependo”. Evoluiu o quê, então? Ou está a confundir “não se arrepender” com reconhecer que aquilo lhe constituiu, de alguma forma? Porque uma coisa não encerra a outra.
Eu me arrependo do que fiz justamente porque hoje reconheço que já não agiria da mesma forma nas circunstâncias do que me arrependo. Aconteceu, porém não aprovo mais aquela ação em mim. Não recebo da mesma forma. Adquiri experiência ou conhecimento para agir de modo melhor. Isso não anula a validade da experiência como aprendizado ou o fato de que ela foi parte do que me trouxe aqui, a ser tal qual sou hoje. Todavia, se tivesse a chance de escolher de novo, com a cabeça que tenho agora, agiria de outra forma; lamento ter que ter aprendido daquele jeito, mas era como me era permitido na época com tudo o que eu tinha e com tudo o que eu era. Para mim, arrependimento é apenas isso: a decisão de uma ação com a maturidade que me era própria naquela etapa, mas que a adulta que sou hoje vê como inexperiência. Aceita, reconhece, mas já lidaria diferente. E o fato de falar dessa forma não quer dizer que eu não me arrependa, por exemplo, também de algo que aconteceu no ano passado. A evolução se dá continuamente e, mesmo numa decisão que compreende curto período de tempo, pode ser que eu já não seja a mesma pessoa.
Mas o arrependimento costuma trazer com ele uma carga muito pesada, que é a culpa e, por isso mesmo, exige muita autocompreensão para se perdoar – e o autoperdão é uma necessidade. Pois autoperdão é, realmente, um dos perdões mais difíceis e demanda compreender que aquela pessoa (você, em outra época) que agiu de forma a se prejudicar – não errada, não incorreta ou inadequada, apenas a forma que ela podia – deu tudo de si naquela escolha, naquele momento, naquele pedaço de sua vida. E eu me arrependo justamente porque agora posso ver o que a cegueira de antes não autorizava, contudo não me condeno (muito), nem acho que poderia ter agido de outra forma com os recursos e possibilidades que dispunha no ato.
Digo que me arrependo, sim, do que fiz, porque busco acreditar em um lado positivo para o arrependimento. Significa um crescimento no modo de olhar a questão em si; significa que o que eu penso e observo acerca do que me arrependi mudou; significa que vivi mais a ponto de enxergar vivências significativas, e outras nem tanto. Talvez muitos digam e reforcem que não se arrependem de nada como uma forma de pegar leve consigo mesmos ou uma tentativa de autoaceitação – já é bem difícil, por vezes, nos aceitarmos sem os nossos erros, que dirá, com eles. Talvez arrepender-se do que fez trouxesse uma carga emocional muito grande de culpas e questões mal resolvidas com a qual o sujeito não se sentisse apto para lidar. Entretanto, quanto a mim, prefiro manter a integridade de minha consciência, ser honesta comigo mesma. Me arrependo, mas não creio que tivesse condições de ser outra pessoa na tal ocasião e afirmo que, ainda que tenha sido enganada ou ingênua ou decepcionada, de minha parte dei o melhor do meu ser em cada situação e fui frustrada devido às minhas expectativas – e eu tinha e tenho, sempre, o direito de errar. Tanto que ainda estou nessa jornada e é possível que eu venha a me arrepender de muita coisa, então! Só estamos aqui porque somos, todos, muito imperfeitos. Me arrependo tanto de coisas importantes, e outras banais, mas já não me castigo com isso e, ao menos, com o ato de arrepender-se vem a garantia de que não farei de novo. Não do mesmo jeito. Virão outros erros, até parecidos, mas não iguais. E isso é evoluir, isso é crescer – esse é o papel pedagógico que o arrependimento traz. Talvez seu único papel, afinal, em nossas vidas, já que se arrepender não pode mudar o passado, mas pode ser que mude, um pouquinho, o futuro.