Cada vez que eu vou, é difícil. Cada vez que eu volto, é difícil. É assim que tenho me sentido agora que tenho duas cidades. As despedidas não são menos duras por serem mais frequentes. E a reflexão sobre onde posso passar o resto da minha vida parece, então, pontuada de novas incertezas.
Mudar de cidade – e estado – era uma dessas coisas que eu achava que nunca iria acontecer na minha vida. Não por falta de oportunidade, mas por um medo ferrenho de perdas – minhas raízes sempre foram profundas e tem questões na vida em que o apego é capaz de falar mais alto. No meu caso, o apego à família já havia me impedido de tentar outras mudanças (por exemplo, alguns anos atrás, fui muito bem em um processo seletivo para trabalhar em um cruzeiro, mas receei aceitar). Quando se muda de cidade, de certa forma, se muda também de vida. Parte-se com o desejo de que tudo prospere, mas sem saber ao certo o que vai encontrar. Serão novos amigos, novas histórias, novas esquinas. Coisas batidas se tornam sôfregas, como encontrar uma boa padaria perto de casa. E, muitas vezes, com a mudança de local vêm outras transformações, como sair da casa dos pais, um novo grau de estudos ou outra situação para a carreira (ou as três juntas!). Lidar com tudo isso pode ser um processo intenso que leva da depressão ao autoconhecimento (ou do autoconhecimento à depressão, conforme o caso). Entretanto, hoje vejo tudo como uma grande oportunidade.
Conhecendo outras pessoas na mesma situação, percebo a dificuldade em sair do controle que, vez ou outra, todos nós somos forçados a nos deparar, até porque, na verdade, não se trata de sair e sim, reconhecer que esse tal controle não existe. As coisas acontecem independente de nós, a vida segue com ou sem a nossa presença. Atribuir-se tanta importância em um meio (o familiar, no caso) pode denotar tanto essa necessidade de controle quanto falta de fé na vida. Só mesmo a distância prova que é possível haver confiança e que não, não depende de nós a segurança, o bem-estar e a alegria constante de nossos afetos. Nossa presença pode ser conciliadora, mas a vida de cada um seguirá o curso que tiver de tomar.
Trata também de conseguir ver as relações de uma nova nuance, que para mim era ainda inédita: o quanto os laços muitas vezes são nós que nos prendem da maneira errada ao lado das pessoas que dizemos amar. Quantas obrigações e funções desempenhamos em um papel no seio familiar, que somente estando sós e podendo desfrutar de toda a nossa potencialidade, nos libertamos um pouco e conseguimos viver o anseio do nosso indivíduo! Ficar longe traz constatações novas, impossíveis de se ter quando perto, pois é como querer ver um quadro estando dentro da moldura. E é dessas experiências que enriquecem e que nem todos se permitem o desprendimento necessário para viver.
Mudar de cidade é, também, um primeiro passo para mudar de país. Após um passo novo, descortina-se todo um horizonte de possibilidades, antes inexploráveis, pelo medo do desconhecido e a insegurança. Acredito que mudar diretamente para uma cultura estranha, outra língua, outro povo, além de uma atitude encorajada seja também uma decisão um tanto louca. Reservada aos amplamente desprovidos dos laços (às vezes, “nós”) que mencionei anteriormente; ainda assim, não acredito que façam isso totalmente isentos de dor. Sair da zona de conforto arde, sangra, chora. Abala todas as estruturas e faz pensar em desistir mil vezes! Mas dá também uma surpreendente força para continuar. Movimento pendular.
Ademais, creio que mudar de cidade na fase em que estou tem algumas vantagens se comparado à mesma mudança caso tivesse acontecido alguns anos antes (no meu caso, em particular). Hoje em dia estou mais firme, mais certa do que quero e mais capaz de absorver emoções, que antes seriam tão sofríveis, com maturidade e equilíbrio.  Reconheço, obviamente, que mudar de lugar não é algo que venha sem medos, sem dúvidas ou sem saudades, mas posso ver também que passar um tempo consigo é algo que, por vezes, só se consegue saindo pelo mundo afora, sem dar muita satisfação, dando uma circulada no mapa. Por isso, hoje consigo ver a importância de sair logo do ninho e construir a própria autonomia – e tem coisas que só dá pra fazer quando a gente é solteirx, sem filhos. Se mesmo assim já pensamos tanto nas pessoas em nosso caminho, imagine se tivesse uma vida que dependesse totalmente de você. Não dá.
Por fim, eu sinceramente não sei para onde vou ou o que vou fazer depois do doutorado (é que ouço muito essa pergunta). Sei que o tempo passa voando e talvez eu já devesse estar pensando nas possibilidades, porém, assim como vim parar aqui em um doce apanhado de sorte (sorte? Nem sei se acredito!), vou deixar que os ventos me conduzam ternamente para onde eu tiver que aportar. Sair de Floripa dói, pois eu amava esse lugar antes mesmo de ter vindo, mas também me emociona a forma como me recebe Caxias em seu aspecto mais bucólico. Suas ruas preenchidas de um silêncio meio triste já se entranharam em mim de forma que nenhum outro lugar será capaz de fazer (acho. Ainda tem muito mapa pela frente!). Por outro lado, Florianópolis possui uma estranha alegria no ar, como se aqui os céus estivessem sempre sorrindo, e mesmo quando estou melancólica, saio, sento nas pedras e olho o mar – são tantas possibilidades de interação com a natureza que cada pequena expressão já supre, marejando aos meus olhos cada vez que chego; é como se o céu fosse mais azul e o vento tivesse muito mais a me contar. Mas quando é em Caxias que recebo os abraços e beijos mais esperados, a única conclusão que me permito chegar, por agora, é a de que resta-me aguardar a qual destino me reserva – o que o destino me reserva. Afinal, o mundo é tão pequeno e eu sou tão grandiosa! Tem muito mapa pela frente ainda.