Uma manhã ensolarada e comum, você separa as roupas que precisa lavar para aproveitar o tempo bom e se depara com a vizinha nova. Foi assim que eu conheci a Mi. Recém chegada da Alemanha, diz ela que já estava sentindo falta desse calor humano brasileiro, e no encontro na lavanderia tratei de fazer a minha parte J
Embora nos conheçamos há pouco tempo, já a admiro muito e temos bastante coisa em comum. Segue a entrevista que ela deu ao Inquietudes!

Fale um pouco de você.
Falar da gente é sempre difícil. Mas, para começar eu sou a Mi, prefiro que me chamem assim.
Sou Engenheira de Alimentos, Mestre e estou no último ano do meu doutorado na mesma área. Mas sou muito mais do que isso, porque além dos números, da docência e da pesquisa, eu também amo todas as manifestações da arte, línguas, e espiritualidade. É, pode ser meio controverso, mas quem disse que uma pessoa tem que ser uma coisa só? Podemos ser de exatas com especialização em humanas.
Amo encontrar e conversar com pessoas, gosto de filosofar e de festar. Dou risada PRA VALER, risada de verdade, sabe. Acho que sou extremamente sincera e espontânea. Tento ser correta e justa em minhas ações (herança de meus pais), na tentativa de evoluir e de fazer alguma diferença em um mundo tão confuso.

w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes (perspectivas, medos, desafios)
* Enquanto mulher
Eu diria que como mulher as minhas maiores inquietudes estão relacionadas à segurança e ao preconceito. E ambos estão enraizados em uma sociedade machista. Não me sinto segura enquanto mulher para andar livremente pelas ruas em determinados locais e horários, por exemplo. E, em pleno século XXI, ainda temos que conviver com alto preconceito de gênero, em diferentes setores da sociedade, seja familiar ou profissional.
* Enquanto futura doutora
Enquanto futura doutora as inquietudes também são grandes. Existe a pressão de escrever (e DEFENDER!) uma boa tese que sumarize os 4 longos anos de pesquisa e estudos, mas também há a inquietação de saber que, quando da tese defendida, você passa a ser um profissional altamente qualificado à procura de emprego em um país em que um profissional altamente qualificado não é valorizado como deveria. O quadro piora quando se está em meio a uma crise.
Há ainda a inquietude de, quando empregado, ser capaz de agregar conhecimento científico na sua área de atuação, de contribuir para o desenvolvimento acadêmico e crescimento profissional de outras pessoas e, por que não, da educação superior do Brasil.
* Enquanto cidadã brasileira
Enquanto cidadã brasileira, acredito que faço parte de um consenso. Todos os brasileiros estamos fartos de tanta corrupção, desonestidade, falta de oportunidades, falta de valorização, falta de educação e de respeito, péssimos serviços públicos, violência, preconceitos, valores invertidos, má vontade, etc., etc., etc., ihh, a lista de inquietudes é extensa, hein?!
Ninguém mais aguenta “apanhar” tanto na vida. O brasileiro de bem trabalha e estuda sempre dando murro em ponta de faca. E o cenário atual é muito desolador. Mas como boa sagitariana, sou otimista, e acredito que seja uma fase ruim, afinal um país não consegue crescer ininterruptamente. O problema é quanto tempo esta fase vai durar. Eu sei que os problemas são históricos e enraizados, e que mudanças profundas são lentas, mas a esperança é a última que morre, não é mesmo? (Pois é... E brasileiro precisa mesmo mantê-la viva...) :/


w Certas idades são consideradas um marco na vida. Como você convive com todas as suas próprias expectativas e frustrações, além das cobranças da sociedade, na fase atual de sua vida?
Bom, posso afirmar com certeza que não sou muita boa em lidar com minhas próprias frustações. Eu sofro demasiado. Ainda estou no processo de aprendizado, já que não somos perfeitos e estamos aqui para evoluir, amadurecer, e a vida na maioria das vezes não é maravilhosa, fácil e plena como gostaríamos. Com relação ao que os outros esperam de mim, também ainda estou no processo de desapego, afinal quem vive a minha vida sou eu, e quem sabe dela, das dificuldades, dos sentimentos, das alegrias e tristezas, sou eu e mais ninguém.
Como gostaria que as pessoas não me julgassem e cobrassem, estou amadurecendo o meu lado como “expectadora” ou “julgadora” também. Estou aprendendo que quando se espera das pessoas, inevitavelmente teremos frustações e decepções. Não se pode esperar no outro. A vida está me ensinando que cada um dá o que tem ou o que pode dar, e é melhor nos surpreendermos do que nos decepcionarmos. Assim, não colocar expectativa nas pessoas pode nos trazer gratas surpresas e menos decepções.

w Em uma conversa, você me disse que no Brasil a tendência é se casar muito cedo em comparação a outras culturas ocidentais. Como você avalia as vantagens e desvantagens do casamento "precoce"? É possível comparar essas culturas?
Essa tendência eu vivenciei ao morar um ano em Berlin e conviver com pessoas de diversos países europeus (além, é claro, da Alemanha). Na Europa ocidental é mais comum que as pessoas estudem, tenham um bom emprego e se tornem independentes antes de constituírem sua própria família. Esse comportamento também está relacionado à maturidade, já que algumas pessoas relataram que queriam “ter certeza do que queriam para a vida delas” antes de eleger o(a) companheiro(a) de vida. Também percebi que pessoas com menor nível de escolaridade se casam mais jovens.
No Brasil (e parece que em outros países sul americanos, segundo relatos) o número de pessoas que se casa jovem é consideravelmente maior. Percebo que aqui muitas pessoas se casam com o(a) primeiro(a) namorado(a) da adolescência. Falar dos prós e contras é complicado demais, mas eu diria que em ambos os casos o ideal seria considerar o seu próprio objetivo de vida e seus sentimentos, acima de tudo.
Em minha opinião, relacionamentos de europeus são mais “racionais” e de sul americanos mais “passionais”, de maneira geral. Eu particularmente acho que o ideal é um meio termo entre ambos os comportamentos.

w O que você recomenda para quem, como você fez, pensa em passar uma temporada fora do país (ou fazer um doutorado sanduíche)?
Recomendo basicamente três coisas:
(1) foco no inglês e no idioma local. O inglês será sua base e sua primeira língua lá fora, mas o idioma local (quando não é o inglês, claro) vai evitar muitas complicações (digo isso por experiência: aprenda-o!);
(2) leia, assista a vídeos, converse com nativos do país que você está indo ANTES de viajar. Isso te ajudará a “acelerar” o processo de adaptação à nova cultura e, acredite, ainda assim será um processo lento;
(3) CORAGEM, porque vale muito a pena!

wComo consumidora, eu penso que estamos cada vez mais reféns da indústria de alimentos. O que você pensa disso?
De fato, a indústria alimentícia é uma das mais importantes e poderosas indústrias do mundo, a meu ver, apenas superada pela farmacêutica. Penso que, assim como todas as indústrias, ela tem um grande poder de convencimento e manipulação do consumidor com a ajuda da mídia, afinal, todos precisamos nos alimentar. Mas o que vejo são consumidores cada vez mais cientes e exigentes, até pela facilidade de acesso à informação - o que desafia as indústrias a produzirem alimentos de melhor qualidade nutricional e sensorial, além de seguros. Com isso, há uma crescente no surgimento de pequenas e médias indústrias especializadas em suprir a demanda por uma determinada classe de alimentos que grandes multinacionais não conseguem englobar, visto que seu foco é produção em larga escala em curto tempo. Pequenas e médias indústrias podem se manter no mercado se souberem trabalhar para o consumidor alvo. É o consumidor, a rigor, quem define que alimento será produzido e a qual preço será vendido, pois quando ele escolhe um alimento em detrimento de outro ele está aprovando este alimento, e concordando com o valor de venda praticado. Nossas escolhas como consumidores determinam se seremos reféns da indústria ou não.

w Pergunta de leiga: Com a evolução da tecnologia, é possível que no futuro nossa alimentação seja totalmente diferente do que estamos acostumados hoje? A Engenharia de Alimentos trabalha algo nesse sentido?
Com certeza! Nossa alimentação hoje é bastante diferente da alimentação de 50 anos atrás. Daqui a 50 anos nossa alimentação será diferente da que temos hoje. A pesquisa é grande aliada da indústria alimentícia. E ela não está apenas em universidades e centros de pesquisa, mas as grandes multinacionais de alimentos possuem centros de pesquisa internos muito bem equipados e com profissionais muito qualificados pesquisando e desenvolvendo novos produtos a todo momento. E a tendência crescente é para a elaboração de alimentos com maior valor nutricional, acrescidos de compostos bioativos, como antioxidantes por exemplo, e a presença cada vez menor de compostos nocivos à saúde, como agrotóxicos, açúcares, lipídios, sal, alergênicos, etc.. A tecnologia está, portanto, a serviço da indústria de alimentos.

w  O Ciência sem Fronteiras é um programa que beneficia alunos da área de exatas, tanto da graduação quanto da pós graduação. Penso que o dinheiro gasto com um aluno de graduação, que muitas vezes nem está certo se vai, de fato, seguir na área, e sem a exigência de um termo de compromisso de retorno à sociedade, é um dinheiro que poderia ser melhor investido com mais alunos da pós, que já estão mais maduros em suas pesquisas, ou mesmo engenheiros recém formados, como uma forma de aperfeiçoar a formação já recebida. Qual a sua posição sobre esse investimento em alunos da graduação?*
Concordo com você. A maioria dos alunos de graduação que tenho algum contato se beneficia da experiência de ter estado no exterior e aprendido um idioma, mas dificilmente agregam conhecimento específico ao curso de graduação. A maioria nem sequer consegue validar no Brasil as disciplinas cursadas na universidade estrangeira por incompatibilidade de ementas. Sem contar os muitos que veem este período no exterior como um período de férias estendidas. Mas aí a mudança tem que partir de cima, afinal, quem tinha maturidade e sabia o que queria da vida aos 20? Eu acho que o Ciência Sem Fronteiras deveria ser reestruturado de maneira a contemplar mais alunos de pós-graduação para doutorado sanduíche ou doutorado pleno e até mesmo para cursos de outras áreas e não somente de exatas. Não é um absurdo que cursos de Letras (línguas estrangeiras) não sejam contemplados no Programa? (Sim!! E há muitas áreas de humanas que se beneficiariam do Programa, mas preferi nem entrar no mérito do assunto).

w  Você possui uma relação de muita união com seus irmãos. Fale um pouco sobre isso e por que o laço fraterno parece tão raro de ser cultivado em nossa sociedade.
Sim. Meu relacionamento com meus irmãos é estreito e sou muito grata à vida, e a eles, por isso. Muito difícil falar de uma maneira geral sobre o tema, pois cada família é uma, mas no nosso caso acredito que o fato de termos crescido juntos, enfrentado muitas situações importantes juntos, entrado na adolescência juntos, fizeram com que nossa irmandade fosse fortalecida. Só os nossos pais nos conhecem melhor do que os nossos irmãos. O fato de eu ser a mais velha dos quatro também contribuiu muito nesta relação, pois ajudei nossa mãe a cuidar deles quando novinhos. No primeiro dia de aula deles era eu quem os levava até a sala e a professora. E eles foram meus primeiros alunos! Ensinava inglês básico quando eles ainda não tinham na escola. Não é incrível?!
São inúmeras lembranças e cumplicidade que mantemos até hoje. Eu espero do fundo do meu coração manter esta linda relação para sempre e gostaria que todos pudessem ter esse tipo de amor em suas vidas. Aliás, eu acho que minha vida seria muito triste se não tivesse os meus três lindões.

w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha própria entrevista).
Você iniciou Psicologia e não se identificou com o curso e então trocou sua graduação para Publicidade. Na Pós, você direcionou seus estudos para a Filosofia. Você poderia descrever o que mais te identifica em cada um destes cursos e como eles interagem entre si? (Adorei a pergunta!).

Rapidinha:
- A vida me ensinou que... ela voa, e portanto não devemos deixar nada para a semana que vem porque a semana que vem pode não chegar ;))  (Pitty feelings).
 - No café da manhã eu gosto... ou de um carboidrato (sanduíche de pão integral ou bolo) com chá de hortelã, ou cereal de milho com leite e achocolatado.
 - Eu tenho vontade de aprender...  alemão, nadar, dirigir.
- Não falta na minha despensa... chá de hortelã (e na geladeira: queijos).
- Sou muito boa em...  guardar memórias (acontecimentos, conversas, detalhes).
- Sou uma negação em... cozinhar ☹ Eu gostei do seu guacamole e do seu quentão ;)

* Essa pergunta foi elaborada antes do governo decretar o fim do Ciências semFronteiras para estudantes da graduação. Eu não tenho nada a ver, eu juro! =P


Entrevista recebida em 27/07/2016.