Quando criei a #tag Entrevista (quase assim, de inopinado) a ideia era dar às pessoas uma oportunidade de falarem um pouco de si mesmas. Tudo o que falamos/ mostramos de nós tem sido através de redes sociais, e estas, nem sempre mostram o nosso real – e nem o nosso absurdo. Como boa ouvinte, observo sempre que toda conversa tende a reproduzir partes importantes do outro para nós e de nós mesmos para ele: mesmo quando se pede um conselho, por exemplo, a resposta sempre refletirá a partir da experiência alheia.
Não podemos fugir da forma como nos acostumamos a atribuir valor à individualidade – e como nos sentimos reconhecidos com isso contemporaneamente! Não sei se em outros tempos era diferente, mas falar do que pensamos e sentimos se tornou algo como que essencial para as presentes gerações. Dessa forma, percebe-se também na forma da escrita quem é mais raso ou superficial, quem não vai além de si mesmo e quem já tem uma visão um pouco mais ampla; tudo isso eu procurei respeitar nas pautas de cada entrevistadx. E talvez seja isso também que demonstre porque alguns entrevistadxs tiveram dificuldades em me fazer perguntas. Apenas a solicitação de uma única pergunta em meio a um tantão que mandei a eles, e uma dificuldade imensa em fazê-la. Hoje em dia pautamos nossa vida com eixo em nós mesmos e, muitas vezes, falta interesse ou vontade de explorar um pouquinho do outro. De saber mais, de reconhecer nele também uma história interessante.
E como eu amo histórias – não podia ser diferente! – quis trazer algumas nuanças de outras pessoas para as minhas próprias inquietudes, mostrando um pouco de como elas pensam, sentem, vivem. E continuarei trazendo! Depois, a cada cinco ou seis entrevistas, pretendo deixar aqui um pedacinho de mim – por enquanto; não sei até quando conseguirei manter essa constância no blog, uma vez que estou cada dia mais atarefada...
Vamos à minha própria entrevista, realizada com as perguntas de meus entrevistados.

w Por ser muito parecida comigo, gostar das letras e de filosofar, penso que também tenha o desejo de escrever um livro algum dia. Já pensastes nisso? (Daiane).
Essa resposta vai surpreender alguns. Eu nunca pensei em escrever um livro... Eu simplesmente escrevi. O primeiro, aos 14 anos de idade. Foi sensação na escola, as professoras de humanas me gabando... A única popularidade de que gozei no Ensino Médio (risos). Hoje em dia nem consigo ler aquele primeiro material, mas devo reconhecer que para uma menina daquela idade, supera até alguns materiais já publicados por aí. O segundo livro veio aos 17 e causou um pouco mais de alvoroço. Eu estava decidida: queria ser escritora e para isso faria qualquer coisa. Mandei o original para editoras (na época era como a gente fazia) e, depois de alguns meses, recebi retorno de uma grande, a Ed. FTD. Foi a própria Maristela Petrilli quem me ligou. Imagina a sensação: a mulher que eu via sempre na ficha catalográfica dos meus infantos adorados entrando em contato comigo para saber sobre o meu livro! Lembro que foi uma emoção muito grande. A escritora Flávia Muniz também falou comigo (ao telefone) e ambas reafirmaram que eu escrevia muitíssimo bem. Me deixaram ciente que escritores jovens eram raros... E pouco aceitos no mercado editorial (que, na época, era um meio sério e não estava em crise. Não precisava publicar qualquer coisa por puro desespero). E creio que elas quiseram dizer também que ser escritor é como o vinho das profissões: você vai ficando melhor com o tempo. Claro que, então, meu ego adolescente não poderia concordar! Eu era mais inteligente que toda aquela gente burra da escola (rs). Na época, meu sonho era ser uma “estrelinha pop”. Que bom que o tempo passa e a gente amadurece, né? (Mais risos). A Editora FTD mandou, então, o escritor Luiz Camargo para a Feira do Livro de Caxias (do Sul) especialmente para falar comigo, além de me pedir para não parar de estudar nem de escrever e mandar a eles novos materiais, à medida que os fosse produzindo (a última parte, eu não cumpri...). Quando ele veio, em outubro (uns 3 meses depois do telefonema), tomamos café no Arco da Velha e conversamos. Eu devia estar lisonjeada que um escritor veio de tão longe falar com uma pirralha, rs, mas eu só queria saber quando eu seria, de fato, uma escritora conhecida, publicada... Ficava eufórica com essa ideia. Até os 19, 20 anos, minha trajetória foi pautada por muitos outros escritores que, se estavam na cidade, eu dava um jeitinho de ir conversar, bem oferecida, ainda que nem todos me levassem a sério. Hoje vejo que eu não os levava muito a sério também...
No total, tenho 5 livros na gaveta, e uns 3 inacabados. Hoje em dia não tenho mais esse afã de publicar – vejo que os leitores também não são tão seletos, e é publicado “aquilo que vende”. Acredito que minhas obras são menos comerciais do que clássicas – e atualmente, clássicos, só os que já existem mesmo. O mercado editorial quer qualquer blogueiro que fale qualquer coisa para qualquer pessoa que pense pouco por si mesma. Não sou essa pessoa (nem a primeira nem a segunda, aliás). Até em meus blogs, prefiro leitores que pensem autonomamente. Nesse caso, não me sinto confortável, ao menos por agora, em correr atrás de publicação. Alguns amigxs já me disseram: “Fico indignadx quando vejo uns bosta publicando livros, e você que tem tanto a dizer, não publica”. Mas, talvez o problema seja justamente esse: quando se perde o âmago da coisa, aqueles que a fazem com essência perdem um pouco da vontade de misturar seu trabalho. Vejo cada vez mais escreventes que escritores – qualquer um que sabe medianamente a língua acha que tem algo a dizer ao mundo e dá um jeito de publicar um livro. Uma vez meu sonho era sentir as folhas cheirosas de um livro com meu próprio nome, agora estou mais desiludida. Se eu publicar algo algum dia, será bem tardio. Não quero mais as honras de ser uma escritora jovem que logo depois cai no esquecimento. E quanto a SER uma escritora... Diferente da menina que ansiava em pôr livros com seu nome na estante, hoje eu sei que apenas sou. Não preciso publicar nada para provar isso. Não dá pra dizer diferente. (Assim como muitos que publicam por aí NÃO são escritores).

w Eu gostaria de saber se você tem planos para escrever um livro no futuro e sobre que assunto? (Robson)
Eu sempre tenho muitas ideias. E não descarto mesmo publicar um livro futuramente, mas como eu disse, tardio. Não sei mais se quero publicar o que já está pronto – eu mudei muito e tantas coisas que eu disse lá atrás já não me correspondem mais! No entanto, não mudaria o que está escrito, pois também seria um desrespeito com quem eu era naquela época, e como pensava. Pretendo seguir na linha de ficção – meus pensamentos desencontrados, poemas, reflexões, estão todos por aí, nesse blog, no antigo, em mensagens eletrônicas e cartas trocadas, e nos meus pensamentos. Quando voltar para a literatura será para fazer... Literatura. Nada de crônicas, nada de poesias, nada de filosofia. Amo histórias e me considero uma boa contadora delas. Hei de ter tempo para ainda fazer isso!

w Quando você vai me escutar e ver que não existem só jerks?
População mundial agora: 7.434.198.00 (05/07/2016) às 10:32h (Não pode ter só jerk nesse número)
By: http://www.worldometers.info/br/
Não adianta fazer beicinho com a minha pergunta =) (Jéssica)
Eu não fiz beicinho com a pergunta, rs. Mas, dei risada, é fato. Então, vou tentar ser sucinta, porque é um tema que de mim demanda...
Óbvio que existem caras legais. Assim como mulheres legais, crianças legais, cachorros legais, etc. Agora, pegando esse número ilustrado de mais de 7 bilhões no mundo (e quem estuda assuntos de natalidade sente dor com ele, sério!), vamos lá: quantos destes são do gênero, faixa etária, estado civil e grau intelectual-cultural a que estou disposta a conhecer? Quantos são interessantes, têm personalidade, fogem dos estereótipos, pensam por si mesmos, são sérios (e ao mesmo tempo têm bom humor) e outras coisas que EU ofereço? Pois quem estava pensando que eu estava sendo exigente talvez não tenha se dado conta de quanta coisa eu mesma ofereço e não estou disposta a aceitar menos do que isso, correto? E tirando esses fatores... Muitas pessoas chegam a um momento em que simplesmente cansam do jogo. E eu simplesmente cheguei à constatação de que homens não são assim lá tão necessários na vida. Praticamente tudo que eu podia obter de um deles, eu obtenho sozinha. Logo, a gente também aprende sobre relacionamentos observando os dos outros. E ao contrário de boa parte da mulherada, pra mim não serve mais qualquer coisa para ocupar “a vaga”. Pra mostrar que tem um cara. Me desprendi das pressões alheias, sociais, daquilo "que esperam". Me aperfeiçoo a cada dia como profissional, mulher, ser humano - estou cada vez me conhecendo melhor. E não preciso de um homem pra isso. E assim, também não acredito em “cara certo”, “hora certa”, pois já não tenho nem saco nem idade pra acreditar nessas bobagens. Eu só to muito bem comigo. Mas, minha vênus geminiana não deixa de olhar para os lados, não! :˜

w Você iniciou Psicologia e não se identificou com o curso e então trocou sua graduação para Publicidade. Na Pós, você direcionou seus estudos para a Filosofia. Você poderia descrever o que mais te identifica em cada um destes cursos e como eles interagem entre si? (Mirian)

Eu fui para a Psicologia como primeira opção porque eu queria me conhecer melhor. Queria uma forma de compreender meus próprios conflitos e saber como lidar com eles. Cheguei na faculdade de psico e tudo lá me frustrou. Escolas ultrapassadas, autores com ideias estranhas, experiências com animais... E isso que na época eu nem conhecia o feminismo, para avaliar ainda mais profundamente quantas barbaridades ainda são arrazoadas em pleno século XXI! A Publicidade já passava pela minha mente e foi um alívio quando consegui uma bolsa no curso. Estava entre PP e Jornalismo, mas preferi propaganda porque amava cinema e lá teria maior oportunidade de lidar com vídeos, roteiro, a coisa toda. Embora o curso também não tenha sido o esperado (aquela coisa de vender, de fazer marketing e servir ao capitalismo, que nunca foram a minha praia), ele me deu uma boa consolidação para entender o mundo em que vivemos e não ser escrava das mídias. Foi estudando Comunicação Social que eu aprendi que a própria cultura, da qual eu tanto me orgulhava, também serve, fatalmente, ao capital. Por fim, a Filosofia veio para ser o meu estepe, o meu porto seguro. Ela me oferece todas as perguntas para as minhas não-respostas e foi também nela que eu aprendi a me desconstruir de tanta coisa! Me encontrei na Filosofia, pois me perdi nela também, e sempre achei normal questionar, criticar, tentar entender e ver os outros pontos de vista, porém estas eram ferramentas que muito pouco eram estimuladas nos outros cursos que eu fiz. Eu tenho pra mim que a Filosofia veio para dar solidez a tudo aquilo que eu achava que sabia antes. Mas uma solidez flexível, que me permite sempre e sempre me abrir, de novo, ao novo. Aprender a desaprender. E ser professora universitária, nisso tudo, foi só uma percepção. Hoje sei que é o que eu estava destinada a ser. n

* Essa entrevista, excepcionalmente, corresponde à opinião do site.

Entrevista respondida em 06/08/2016.