"Foto tirada por um amigo nas pedras do entorno das piscinas naturais da Barra da Lagoa. Gosto dessa foto, adoro aquele lugar" 

Conheci a Raquel pelas aulas da pós graduação em Filosofia e desde as primeiras conversas, admirei sua sagacidade, a lucidez sobre muitos temas e também sua forma muito própria de contar histórias. Todavia, ela não gosta muito de falar de si, nem de se expor virtualmente, por isso sou extremamente grata por ela ter-me concedido essa entrevista mesmo assim. Apesar da reserva (que escondeu algo do potencial que ela tem nas respostas), ainda assim suas falas ficaram excelentes, demonstrando um pouco o fato de que ela adora estudar filosofia política e também falar sobre (e se preocupar com) a política brasileira.

w Raquel, atualmente, quais as suas maiores inquietudes (enquanto mulher, profissional e cidadã brasileira)?
No atual momento, não consigo separar um âmbito do outro. Minhas principais inquietudes e medos advém do atual momento de ruptura democrática que estamos vivendo e do projeto de país que está sendo implementado por estes golpistas e usurpadores que se instalaram no poder. O projeto que estão implementando (e que não foi o projeto escolhido pelas urnas) envolve aumentar tempo para aposentadoria, flexibilizar (leia-se, tirar) direitos dos trabalhadores (FGTS, décimo terceiro, adicional noturno, etc.), precarizar todos os serviços públicos (e assim, abrir as portas para a privatização), redução gigante dos programas sociais (como Bolsa-família, Minha Casa, Minha Vida, Programas relacionados ao fortalecimento da agricultura familiar, que é de onde vêm os alimentos que consumimos)  privatizar empresas nacionais, diminuir o alcance e eficácia do SUS e priorizar planos de saúde, etc., etc., etc.. Isso sem contar em todo o aparato policial que está sendo efetivado para reprimir a liberdade de expressão, de associação e de manifestação. Isso tudo me deixa muito angustiada enquanto cidadã, enquanto alguém que está fazendo a preparação para docência e enquanto mulher: trabalharemos por mais tempo (seja em qual profissão ou ocupação que tivermos), em condições mais precárias, com menos direitos, com custo de vida maior. Angustia-me de verdade ver ruir o caminho que o Brasil vinha trilhando de tentar reduzir um pouco a desigualdade social, de construir um país mais igual para mulheres, negros, LGBTs. Angustia-me esse ambiente de intolerância, de ódio ao diferente, de perseguição. Angustia-me a força que os golpistas deram ao Capital para invadir ainda mais a nossa vida e romper ainda mais os laços de sociabilidade. Eu não consigo dissociar, nesse momento, minha condição de mulher e de profissional da minha condição de cidadã. E nesse momento de crise, lembro de uma frase da Simone de Beauvoir:
“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” (Sim... "Bela, recatada e do lar" foi um recado...).

w A questão cultural do gênero acaba trazendo à mulher um papel pedagógico dentro de um relacionamento. Como você avalia essa questão?
Refletindo melhor a respeito, não sei se o termo ‘papel pedagógico’ (que eu mesma usei em uma conversa contigo) não é muito adequado. O fato é que temos que fazer reivindicações por igualdade e justificar, explicar porque determinado tratamento ou condição é injusta e, no meu caso, muitas vezes, explicar como então é que desejo ser tratada, como é o modo adequado de lidar com as situações.

w Certas idades são consideradas um marco na vida. Como você convive com todas as suas próprias expectativas e frustrações, além das cobranças da sociedade, na fase atual de sua vida?
Na fase atual da minha vida acho que consegui deixar de me importar com várias cobranças sociais com as quais antes eu me importava, isso é bem libertador. Como convivo com minhas próprias expectativas e frustrações? Num estado quase permanente de ansiedade generalizada.

w Em uma conversa, você me disse que a relação de homens mais velhos com meninas mais novas segue uma tendência e que faz parte, igualmente, da nossa sociedade machista. Você pode nos falar sobre isso?
Não posso falar a respeito de todas as relações, nem dizer que todas essas seguem o mesmo padrão, mas a impressão que tenho é de que homens mais velhos que procuram meninas adolescentes, jovenzinhas, são desleais, inseguros, dominadores. Sempre abordam as meninas elogiando-as pela sua maturidade (quem nunca ouviu, aos 15, 18 anos, de um cara mais velho: “nossa, mas você é bastante madura para a sua idade, muito mais madura do que as outras meninas”?). Ora, se ele estivesse mesmo interessado em um relacionamento com uma mulher madura, segura de si e responsável, sairia com uma mulher da idade dele, e não com uma adolescente insegura de suas capacidades, de sua beleza e seu corpo, de seu lugar no mundo. Ah, e quando fazem esse comparativo “você é melhor (mais madura, mais bonita, mais isso ou aquilo) do que as meninas da sua idade”, ele está estimulando a competição entre as garotas, competição essa que só nos enfraquece. Desculpa aí, tiozões, mas vocês são uns canalhas.

w Hoje em dia muitos homens se consideram desconstruídos. Mas, o que seria, de fato, essa “desconstrução” e qual a possibilidade de sua efetivação ser plena, na sua opinião?
Até hoje não encontrei um espécime desse….rsss
Tem muitos homens que reconhecem em abstrato que é injusto o tratamento desigual dado às mulheres, que é injusta a violência e opressão sistêmica pela qual passamos, reconhecem e acredito que quando se apresentam como descontruídos manifestam uma intenção e um desejo sincero de não reproduzir tais opressões. Concordam que estupro é um crime cruel, que a mulher tem direito a escolher o parceiro sexual/amoroso que quiser e quantos quiser, que mulher – em abstrato - tem capacidade para ocupar qualquer vaga no mercado de trabalho e na vida pública. Já acho que é um ganho normativo enorme terem essa percepção, pois há muita gente que defende que a mulher é inferior e tem que sofrer mesmo. No entanto, a prática ainda está distante do discurso, pois, de modo geral, os homens nas suas relações interpessoais, muitas vezes de modo sutil, continuam tratando as mulheres como inferiores, como menos capazes, menos merecedoras de suas conquistas e merecedoras de uma punição maior quando erram, sobretudo se as mulheres não cumprem com o papel de moça dócil que esperam. É fácil, muito fácil para um homem se dizer ‘feminista’, ou desconstruído, se ele não convive com mulheres, assim como é muito fácil para uma pessoa branca, no Brasil, dizer que não é racista se ela convive apenas com brancos.

w Você é casada com uma pessoa que também atua na área da Filosofia. Quais são as vantagens e desvantagens em manter uma relação com alguém tão próximo e parecido intelectualmente? Muda algo quando uma relação é muito rica também intelectualmente?
Parece até clichê o que vou dizer, mas o fato é que independente da área de interesse intelectual, profissional, cultural, etc., que o (a) companheiro (a) tenha, o que faz com que a relação seja boa é o respeito mútuo, a capacidade de dialogar, a liberdade e segurança para nos expormos de um modo que não nos exporíamos com mais ninguém; sentir-se livre para dizer não, para fazer reivindicações, confiar para fazer projeto de vida em conjunto. Pode ser que o fato de nós dois estudarmos Filosofia nos ajude em alguma medida, mas acho que isso não é regra. Já conheci casais em que um dos cônjuges era bem intelectualizado, mas usava isso como pretexto para humilhar e subjugar a parceira.

w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha próxima entrevista).
Com o que você se identifica no pensamento de Hannah Arendt (a autora que você estuda no doutorado)?

Rapidinha:
- A vida me ensinou que... ela continua no seu próprio ritmo, no seu próprio fluxo independente do meu querer, do meu ânimo, da minha existência.
 - No bar com os amigos, a conversa gira em torno de... política.
- Sou muito boa em... me autodepreciar.
- Sou uma negação em... reconhecer minhas conquistas.
 - Eu tenho vontade de aprender... nos últimos tempos tenho tido vontade de aprender a jogar/dançar capoeira.
- Sou de uma geração que... cresceu achando que era grande coisa, alguém muito especial, sem se dar conta que somos só mais um na multidão, um pedacinho de poeira de estrela perdido por aqui. (Gostei disso).



Entrevista recebida em 14/08/2016.