Estou cada vez mais convencida de que o termo “aproveitar o tempo” foi uma invenção do capitalismo. Um termo que Chaplin expressou tão bem em seu <<Tempos Modernos>>, com aquelas máquinas até para comer e ir ao banheiro. Vejo tanta gente que não convive bem com a ideia de ter um tempo só para si: parece que bate aquela culpa se não se está “fazendo alguma coisa” considerada produtiva. Parece que ficar no ócio sempre conduzirá ao tédio, ao sentimento de inutilidade ou mesmo de “perder tempo”. É preciso ocupar-se, fazer valer cada segundo – produzir, produzir, produzir – o máximo de tempo possível. O tempo todo, todo o tempo. E é tão irônico quando a liberdade mais se assemelha à falta de ditames sobre o que se tem de fazer, e quando. Essa indisciplina forjada é facilmente confundida com displicência.
Particularmente, nunca fechei com aquele ritmo frenético de empresa, em que não podia parar para coçar as costas e vinha alguém trazer novas funções, considerando que eu estava literalmente “coçando”. Acho que essa foi uma das maiores razões para que eu buscasse cair logo fora desse mundo corporativo, e não me arrependo nem por um instante. Quanto mais o tempo passa, mais tenho a consciência de que estou ficando madura – e não velha, como querem que eu acredite. Essa autopercepção é importante para saber lidar mais e mais com o aproveitamento verdadeiro do tempo, de acordo com princípios próprios, e não por regulações externas. Pois isso está muito longe da ideia de fazer com que cada minuto renda, ou que cada momento “valha a pena” (sob que parâmetros?), ou que seu tempo seja igual ao de toda a sociedade (idade certa para...), ou que cada pequena coisa tenha significado (e resultado). Ninguém consegue tudo isso e a frustração de acreditar nisso também é certa.
Não permitir-se parar, pausar o que está sendo feito, repensar até se é isso mesmo, sem sentir-se estranhamente inútil é, no mínimo, estranhamente doentio. Com certeza, esse é um dos paradoxos do nosso tempo: as pessoas querendo tanto desfrutar o tempo delas, mas quando o tem, não sabendo direito o que fazer com ele. É também mais um dos triunfos do capital: trabalhar e servi-lo tanto que já não se conhece nem a si mesmo, a ponto de poder passar algum tempo (sem culpas) consigo. Essa é a síndrome de que sofrem os meus tios nas férias: o ano inteiro eles esperam por elas, mas quando finalmente chegam só conseguem se sentir “à toa à toa”. Aí vão procurar “ocupação” em outros trabalhos, pois não sabem mais ficar “parados” e nem apreciar o lado contemplativo da vida (e nem compreender como os outros conseguem – tudo vadio, segundo eles).
Aproveitar o tempo, me parece, está mais ligado a usufruí-lo com aquilo que me importa do que intensificar cada minuto numa ação “produtiva”. Já me senti jogando tempo fora ao “fazer nada”, dormir ou simplesmente “ficando de boa”, mas aí constatei que, se para mim estava ok, ninguém deveria ter nada a dizer sobre isso. Gerir bem o tempo é uma arte e pode ser que o melhor artista nunca o consiga. Só que é apenas tentando que alguma responsabilidade e autodisciplina no aspecto poderá, então, ser fruída.
Por fim, se aproveitar o tempo é fazer 120%, 24hs por dia, 7 dias por semana (geralmente para obter 1 milhão antes dos 29 anos), gostaria de entender mais sobre essa manobra alucinante. Porque ainda mais do que o tempo, importa o todo da vida, que não vai parar de passar junto com cada instante “aproveitado”. E quanto é que se perde sobre ela quando nunca se experimentou um ritmo próprio, um tempo (realmente) livre? Que mesmo começando eufórico vai serenando até não mais se conviver com a culpa ao ver-se “sem nada pra fazer” em um lindo dia de sol, ou de chuva?!

Não sei se trocaria a maior parte dos meus dias por isso; por ter “aproveitado” ao máximo o meu tempo, segundo os ditames da produção. Porque quem é refém do tempo também será refém de outras coisas – algumas tão caras, para achar que está perdendo tempo com elas.