A solidão é o que nos resta. Depois que os filhos já estão criados e saíram de casa. Após as chamas das paixões efervescentes (e ainda que reste um sentimento sereno). Solidão logo após deixar o ninho; solidão do ninho vazio. A solidão é tão pouco confessa! Seja a solidão solitude, a solidão doída ou a solidão acompanhada... Solidão no meio de uma multidão. É aquele sentimento único de desamparo. De estar sem ninguém no mundo, nem que seja só por um momento. De estar cheio de pessoas no mundo, mas ainda assim parecer que falta alguém ou alguma coisa. E a solidão talvez seja o mal do século. Tão maquiada, disfarçada, atrevida. A solidão dos que se juntam para sentirem-se menos sós. E acreditam no próprio embuste! A solidão dos que viajam e produzem um milhão de registros. Mas não registram a riqueza de apenas estar lá. A solidão das famílias que só se encontram à noite – e não se conversam. Trocam grunhidos desencontrados como num idioma primitivo. Dos estranhos que moram na mesma casa. Dos amores desconhecidos. Trocam fluídos, mas não palavras. Seus olhos se encaram mas não se encontram. A solidão daqueles a quem só resta um pet. Uma planta. Ou um diário para desabafar. A solidão da voz da tevê de fundo, do cigarro com olhar perdido na varanda.
Solidão de dois corpos nus entrelaçados. Solidão de duas línguas lânguidas no fim do sábado. Solidão do apito ansioso do whatsapp, do chat do facebook. Solidão, apenas.

Confessar que se sente sozinhx é tão feio! Precisa-se dizer que está bem, que é bem resolvidx, que quer um tempo para si. Jamais demonstrar fraqueza! Mostrar que é apenas humano, às vezes pequeno – não, isso não fica bem, “eu não me sinto assim mesmo!” Solitário é aquele sujeito que escolheu morar sem companhia no bosque; a irmandade nos monastérios com sua devoção a Jesus; as tias solteironas que ninguém quis ou os solteirões que preferiram não se casar. Solitários são os esquisitões; os nerds com suas séries; os virgens com seu desespero; os mendigos com sua indigência. Solitários são os estereótipos, os clichês. Ninguém mais é sozinho. Ninguém cercado de gente é sozinho. Ninguém mais sente falta de alguém que acolha sua alma, todos têm alguém que entenda seu coração; logo, sentir solidão é algo bem marcado, pontual. Gente normal não sabe o que é isso.