Pelotas - RS. Dezembro de 2015. Foto batida pelo Italo, que já nem converso mais.

Manter a tag Entrevista tem me dado suas duas facetas: a dificuldade que é elaborar perguntas, obedecer prazos, catar amigxs queridxs dispostos a me darem a honra; e a compensação de ver o resultado pronto, a alegria dx entrevistadx quando a publicação vai ao ar, a minha própria superação. Tem semanas que eu acho mesmo que na semana seguinte não vai haver tag, pois não me mexo para convidar alguém e gostaria de ceder a essa preguiça. Mas, felizmente, até hoje, ainda não houve nenhuma falha, então, escrevi tudo isso mais para dizer que se em alguma quinta-feira houver... é devido ao esmorecimento típico que a obrigação proporciona para uma “breaker rulesJ
Essa entrevista que segue é a resposta às perguntas que minhas queridas Raquel, Nayara, Natália e Caroline e meu querido Bruno fizeram ao longo dos meses de agosto e setembro. Amei todas as perguntas e espero ter dado respostas à altura, uma vez que elas me investiram de alguma reflexão e contato com alguns sentimentos e pensamentos os quais tenho insistido em amainar. Me voilà!

w Com o que você se identifica no pensamento de Hannah Arendt (a autora que você estuda no doutorado)? (Raquel)
Pesquisar a Hannah Arendt não foi uma escolha minha – prefiro pensar que a autora me escolheu. Eu sempre ouvi falar sobre ela nas aulas do mestrado, mas não conseguia verter qualquer atenção pujante ao seu pensamento. Todavia, as águas do rio me conduziram a estudá-la e o que, no início, era apenas uma alternativa em um leque de possibilidades (o doutorado), se tornou real, e se tornou, também, importante pra mim. Hoje em dia a admiro.
O pensamento político de Hannah Arendt é muito criticado por muitos estudiosos (e outros, nem tão estudiosos, pois mostram clara incompreensão desse pensamento), por ser considerado um tanto quanto utópico. Para começar, ela separa os âmbitos político e social, destacando que não se deve trazer para o público decisões da vida privada. A política ficaria restrita a um senso compartilhado sobre a organização da vida da “polis”. Por exemplo, para ela, o que temos hoje, definitivamente, não é política, pois se funda na economia (oikos = casa), e centra-se na administração financeira dos Estados. Nisso, eu concordo plenamente, embora não possa assentir que o social deva estar separado integralmente da repartição pública. No fundo, eu não acho que a Arendt fosse ingênua, mas sim, que defender esse pensamento era uma forma de preservar o seu conceito de política da forma mais inviolável possível. Contemporaneamente, um tanto mais, mas creio que sempre, foi difícil fazer uma separação radical desses dois aspectos da vida em sociedade, ou seja, o social e o político. Arendt apoia-se na polis grega e sua forma de compartir tarefas, condicionadas a domínios bem divisados, mas mesmo naquela época o social não podia ser dito totalmente fora da estrutura política.
Concordo com ela em não se denominar filósofa, e sim, pensadora. Também não tenho a pretensão de me acreditar filósofa e, além da filosofia, penso em muitas outras coisas também (muitas “áreas”). Outra opinião comum parte do fato de que Arendt era uma crítica da Psicologia – e eu também o sou. Para ela, a psicologia nos induz a um conformismo que estatuta a aceitação do costume em viver em um “ambiente árido do deserto”, sem fazer nada para mudar isso. (Esse excerto crítico encontra-se no final da “Promessa da Política”). Em outras linhas, pode nos levar ao conformismo. Para mim, a psicologia sequer engatinha e não conhecemos 1% sobre a psique humana (ainda que eu reconheça que a engenharia da Psicologia Social saiba cumprir bem o seu papel). Do parco manancial que temos, ainda existe muita besteira, difundida e defendida arduamente por querermos (nós, humanos) sempre saber tudo. Quase não podemos admitir que não sabemos.
A base que erigiu minha tese é de que é possível viver sem pensar. Nós duas acreditamos que alguns seres humanos não pensam, baseado em que se vá além de uma forma de vida autômata. Divido com ela também alguns conceitos sobre educação, mas divirjo da defesa de um currículo estritamente clássico (para falar a verdade, eu sou mais o Ivan Illich com sua sociedade sem escolas). E, para fechar, concordo amplamente com uma fala do filme (HannahArendt, 2013) que não esqueço, que era algo mais ou menos sobre não se poder amar a um povo, mas a indivíduos – no caso, ela amava seus amigos. Eu não consigo amar a humanidade; sendo bem sincera, perdi o pouco de fé que me restava nela. Mas, sei bem que entre nós encontram-se bons homens e boas mulheres que contribuem, à sua medida, para um mundo melhor, e se não o fazem mais, é que em sua maioria são destituídos da vontade de poder, e isso também faz toda a diferença.

w O que você acha da sua vida no atual momento? Nos quesitos: financeiro, amoroso, profissional, pessoal, etc. Está dentro do que você imaginou no passado? Se você pudesse mudar algo em seu passado, o que seria? (Bruno)
Essa pergunta é uma daquelas que me obriga a observar as rachaduras na minha parede interna que, muitas vezes, eu não quero ver. Estou, francamente, em um dos momentos mais favoráveis da minha vida, seja no quesito pessoal ou profissional. Me sinto realizada intelectualmente; já desfruto de algumas conquistas materiais que, em outras épocas, quis muito e, apesar da instabilidade política e econômica, por enquanto, não posso me lançar a efusivas queixas. Porém, intimamente, atravesso uma das crises mais severas que já tive. Como você mesmo comentou em sua entrevista: ao mesmo tempo que este é um momento em que tudo converge para a resolução de coisas que, no passado, “nossa!”, talvez justamente por quase tudo estar tão bem, fico exposta a encarar as minhas fragilidades – minhas “infiltrações”, as feridas que não curaram, os cacos que varri para debaixo do tapete, mas que nunca saíram de lá. Estou torcendo para que seja apenas mais um efeito nefasto do meu ano pessoal 9 e que, bem loguinho, eu consiga ficar inteira de novo.
Gostei do tom da pergunta sobre O QUE eu mudaria no meu passado, e não “se” o faria. Pois, mudaria, obviamente. Se tivesse esse poder, certamente eu teria me esforçado para terminar a faculdade antes, e poderia, agora, já estar mais para o fim do doutorado (ou, talvez, já fosse doutora). Teria dado um jeitinho de sair de casa mais cedo também, pois morar sozinha é uma das conquistas mais bonitas que existe e acredito que todos (todos mesmo!) deveriam experimentar, ao invés de sair apenas para o casamento. Eu também teria tirado minha carta de motorista logo aos 18 ou 19 anos; teria dado oportunidade e namorado uns meninos que faziam tudo por mim e, consequentemente, jamais dado chance a outros, que não fizeram por merecer nada de bom que eu tinha, e lhes ofereci. Em aspectos que não caberiam a mim (como estrutura familiar, empregos que saí, situações impingidas por outras pessoas, violências, etc.), creio que não teria poder para interferir, de qualquer forma. Mesmo que algumas destas circunstâncias tenham me deixado marcas profundas, creio que se eu pudesse mudar o passado, essa mudança se estenderia somente ao âmbito das minhas próprias escolhas e atuação, e é o que me limitei a responder aqui. Mas, por outro lado, entendo que eu escolhi com o que tinha na época, da forma como podia. Nesse caso, o que resta é trabalhar diariamente o autoperdão sobre os resultados de algumas dessas (más) escolhas que ainda respingam no meu presente.

w Como você se imagina daqui 10 anos? (Nayara)
Esse exercício é mais um daqueles ao qual tenho me submetido muito pouco. Pois, todos os outros “10 anos” que eu andei a imaginar desandaram a não se concretizar, me enredando em ilusões. É como tentar desenhar no chão de terra enquanto se chove; inevitavelmente, essa chuva vai interferir no desenho, vai borrá-lo e destituí-lo (apesar do cheiro bom de terra molhada que isso traz). No entanto, em linhas gerais, me imagino bem-sucedida profissionalmente, já tendo alcançado alguns dos sonhos que ainda me restam (tal qual viajar pelo mundo, o maior deles, e exercer a docência). Não costumo me imaginar casada, e tampouco mãe, mas caso seja, será de um menino pequeno. Tenho medo quando penso que minha saúde pode já não ter o vigor de agora e, também, nas pessoas da minha família. Tenho medo das despedidas, das dores que o tempo traz, impiedosamente. Tenho medo dessas histórias escritas sem a devida consulta ao protagonista. Dos apanhados que o vento promove. Mas acho que já estarei mais madura, mais lúcida e espero, de verdade, ter um autoconceito condescendente; espero ser uma pessoa mais boa comigo, aceitar e acolher com mais carinho todas as escolhas malgradadas que, então, andara fazendo e que, já agora, me maltratam. Pois por hoje, isso é, ainda, muito difícil; essa permissão para me aceitar como apenas humana, que erra e vai errar, ainda, tantas vezes. Me cobro demais.
E eu espero que o tempo seja generoso comigo. Porque eu nunca tive medo dele, em si mesmo. Apenas, sempre fui muito insegura sobre as mudanças que ele faz, inexoravelmente. E para lidar com isso venho buscando a sua cumplicidade e sido, de minha parte, mais generosa e tranquila também. E eu espero viver dia por dia desses tais 10 anos... Pois, é uma coisa que nem sempre venho fazendo.
  
w Qual a sua opinião sobre a força que têm as pessoas que vão morar fora do país? (Natália)
Sinceramente, eu não sei se atribuo “força” a todo esse movimento. Hoje em dia, muitos casos se revestem mesmo da necessidade, como a que move essas massas de imigrações desesperadas pela falta de um Estado íntegro ou de uma cidadania. Acho que é uma mudança que exige profusa coragem e uma boa dose de “desapego” (ou desalento, em alguns casos). Mas, para casos menos densos, particularmente, apoio mais os semelhantes ao seu, em que a juventude, o estado civil e o momento de vida convergem autorizando. Eu não mudaria de país drasticamente se, por exemplo, houvesse constituído família, ou para atender a uma demanda capital por mão-de-obra servil que não pensa; nem me casaria ou pariria apenas para “pertencer” a outro país. E o mais radical de tudo, acredito, seja que tanto a cultura de um local quanto a de um imigrante sofrem inflexivelmente: um para receber, e o outro para ser recebido, constituindo uma circunstância nova em que ambos precisarão lidar da maneira que menos os violente. Fiz alguns estudos sobre hospitalidade e percebo que ainda estamos muito longe da letra de “Imagine”, do John Lennon – invariavelmente, um estrangeiro será sempre um estrangeiro, por melhores condições que lhe sejam dadas. E isso me instiga mais a fazer turismo que a constituir moradia J

w Quem é a Kelly? Diga o suficiente, aquilo que você puder falar. O que não puder, tá tudo certo. (Caroline)
Acho que a melhor forma de (tentar) responder a essa pergunta é atiçando pequenas variantes da minha personalidade, ou do que eu gostaria de passar ao mundo. Obviamente que essa resposta teria sido diferente ontem, e também o seria amanhã, mas a substância que procurarei transcrever, creio, manterá alguma essência (e não, não sou uma essencialista, rs...).
Quando eu estava na 6a série eu recebi um apelido nada convidativo: ET. Ele surgiu quando a professora de português – Anália – estava mencionando que não entendia as notas dos meus colegas na prova, visto que eu havia tirado 9,9 (o 0,1 foi porque errei algum acento). Era uma daquelas provas de conjugação de verbos com tempos quase extra físicos, e todas as crianças tiraram notas abaixo de 5.
-       Será que a Kelly é algum ET, por ter conseguido?
Pronto. O apelido estava cunhado. O engraçadinho da sala, Vinícius, tratou logo de começar a “inticar” e os outros colegas entraram na onda. Se ninguém podia entender ou obter os resultados da aluninha maravilhosa, a melhor saída era humilhá-la. Eu humilharei, tu humilhaste, ela humilhara. Na época, ouvi eles me chamando de ET por mais de um mês e isso me deixava muito consternada. Já, então, não me interessava pelas mesmas coisas que as outras crianças, e isso aliado a uma introversão sensível me fazia ter profundas dificuldades com amizades. Eu não tinha “culpa” de ter facilidades para o aprendizado. Nitidamente me destacava, mas não fazia (aliás, nunca fiz) nenhum esforço para isso. As pessoas pensam que vivo a me matar de estudar, mas a verdade é que ser inteligente me fez (sempre!) muito preguiçosa. Hoje em dia dou muita risada dessa história e penso que nunca um apelido encaixar-se-ia [sic!] tão bem comigo. Porque eu sou uma etzinha mesmo. Oras... Penso, sinto, vejo, percebo tudo de maneira tão incomum!
Gosto de passarinhos, do jeitinho de caminhar deles, passaria horas os observando. Gosto de mato, de silêncio, dessas coisas raras hoje em dia. Coisas simples. Mas, essa simplicidade não dispensa, estranhamente, um gosto estético bastante apurado, que mesmo que eu não saiba reproduzir (na minha arte, por exemplo), sei sempre reconhecer e apreciar. É como um apreço pelas coisas belas idôneas.
Coleciono botões – sim, esses de plástico, coloridos, de roupas. Junto todos que encontro na rua e já comprei pacotinhos sortidos em lojas de aviamentos (porém, juro que não sei porque faço isso). O cúmulo foi ter arrancado um botãozão amarelo de um casaco de tricô da minha mãe. Ela não sabe até hoje que fui eu. (Pausa para celebrar a Amélie Poulain que existe em mim). O lugar em que me sinto mais sintonizada é entre as estantes de uma biblioteca – ali, perdida em meio ao caos aos livros, por um momento, é como se eu também fizesse parte dessas estantes, dessas estórias. Falando nisso, amo cheiro de livro novo. E de doces de padaria, de pão quente, de sapato na caixa. Pensando bem, sou muito sensível a cheiros.
Não vivo sem conversas inteligentes – as respiro. Por isso, posso ser considerada também uma sapiossexual (exceto pela parte que tange à indistinção de gêneros, no caso de crushes). A abstinência de rodas de conversa intrigantes me joga à apatia e me obriga, por vezes, a me nivelar (contrariada) ao plano do senso comum, para entabular alguma mínima conversação (ascendente em gêmeos = matraca; falante, escrevente, pensante, andante). Esse excesso de gêmeos e de ar e água no meu mapa, aliás, que me fazem essa estranha idealista e sonhadora, que acredita de verdade nas suas fantasias pueris, ao menos, enquanto as está endossando (risivelmente). Seria bom um pouquinho de terra – o compromisso de capricórnio ou a analítica racional de virgem – que são coisas das quais só me sirvo de maneira muito forçada e pouco madura, quando já me estatelei toda no chão, com pedaços por todos os lados. Nessas horas, viro caranguejo (dura por fora, mole por dentro) e não saio da concha até voltar a confiar de novo. E demora...
Acho que as experiências malfadadas me tornaram um tanto ácida, áspera, amarga demais. Perdi minha fé em um montão de coisas... Não gosto e nem acredito muito em demonstrações públicas de afeto. Não me emociona mais a poesia de um sorriso, dois olhos de rapaz capturando os meus, as promessas tão vazias ao pé do ouvido. Mas admiro ainda os animais e já faz bem dois anos que sigo sendo vegetariana J

Adepta da "bagunça organizada". Indisciplinada, teimosa, dorminhoca (incorrigível). Já aceitei que nessa vida não serei uma pessoa matutina. Meus auges se dão nas madrugadas. Nelas eu crio, leio, viro a noite em conversas virtuais agradáveis... Sou pequena e espaçosa. Pego pedaços de conversas dos transeuntes e dou palpites mentalmente. 8/80 – odeio gente/ situações mornas. Distraída e remendada. Nem tudo isso eu mostro a muitas pessoas...
Gosto de pijamas caprichosos, roupas de cama bem talhadas, botinhas cano curto. Vestidos bem femininos, meia-calça, maquiagem mineral, tons de nude e pastel. Sou ciumenta e possessiva com tudo que é meu; com o que eu acho que é meu; com o que eu penso que deveria ser meu. Mas não tenho ciúme de ex qualquer coisa – as pessoas têm o direito de cometer os mesmos erros que já cometi na vida. Sou rancorosa, tenho dificuldade em perdoar (muitos dizem que as coisas grandes são justificáveis de não serem perdoadas, eu tenho dificuldade até com as pequenas). Tenho um humor agudo e inteligente (exceto de manhã, quase sempre acordo mal-humorada); às vezes, invento palavras; sou fã de café, documentários, cinema alternativo, chocolate amargo 70% (mas não resisto a Ouro e Bis branco).
Sou muito observadora e possuo memória prodigiosa, para rostos, para falas, para detalhes. Lembro das roupas que usava, das palavras ditas, das luzes tênues ou cálidas dos ambientes. Lembro de jeitos, jeitos de falar, de andar, de rir; lembro de jeitos de pessoas que passaram pela minha vida há mais de dez anos atrás.
Como a maioria das mulheres, vejo mais a minha parte ruim do que a, possivelmente, boa. Me é muito fácil me depreciar, me sentir inadequada, sentir que há algo de errado comigo. Sempre a ET que não se enquadra em nada, diferente... Mas tem muitas manhãs em que eu gosto realmente do que eu olho no espelho. Acho perfeitinho o meu nariz, aparento (fisicamente) menos idade do que eu tenho e admiro a cor dos meus olhos graúdos – às vezes, parecem amêndoas maduras. Gosto de segurar as mangas do suéter por cima dos punhos; de deixar a alcinha do soutien aparecendo junto com meu ombro bonito; do meu colo e do meu pescoço, e mordo o lábio inferior quando estou nervosa. Gosto de silêncios que se conversam; de olhar nos olhos sem dizer nada; de ter o rosto coberto de beijos e devolver com um pouquinho de juros. Ah, e eu também gosto de me ver nua no espelho; das minhas costas desnudas, dos meus seios pequenos. Me acho sexy e pudica.   
Por fim, gostaria de fazer uma ode à minha discricionariedade. A inquieta idiossincrática que se sente num planeta estranho. Mas, ainda assim, vem cuidando o que pode para fazer dele um lugar menos assustador. Pelo menos para si mesma. Embora, boa parte disso vá muito além do seu próprio mundinho. n

Entrevista respondida em 17/09/2016.