O Ivan é meu colega de doutorado e, embora tenhamos falado poucas vezes, sempre surpreendeu pelas proposições fortes e bem embasadas, sem pseudointelectualismos ou pedantismos, ao contrário, guardando uma honestidade profunda sobre a maneira com que coloca e encerra seus pensamentos. Nessa entrevista, ele trouxe temas políticos, jurídicos e filosóficos de uma perspectiva clara e íntegra, além de surpreender com um posicionamento muito preocupado e direto sobre os direitos e a posição das mulheres em nossa sociedade. Leia cada linha, você não vai se arrepender.

w Ivan, fale-nos um pouco de você.
Gostaria de limitar-me a destacar dois fatos que me marcam profundamente hoje.
Sou homem, socialmente carregado com crenças e costumes machistas (esse carregamento social começou na infância e jamais foi interrompido), de modo que tenho de esforçar-me incessantemente para criticar-me e desgarrar-me de atitudes e práticas de dominação, exploração, desconsideração e desrespeito das mulheres, as quais estão inculcadas em mim e são por mim reproduzidas.
Sou latino-americano, amarrado a um passado violento, um presente rachado e um futuro estreito: meu passado é colonial, escravocrata e ditatorial; meu presente é feito de conquistas constitucionais e lutas sociais; meu futuro é perenemente ameaçado pelo retrocesso e por novas armadilhas, como se nós estivéssemos continuamente sob o controle do canto de velhas sereias e, ao mesmo tempo, à beira de abismos que ainda não estão mapeados.

w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes (perspectivas, medos, desafios).
Minhas principais inquietações cotidianas hoje são o machismo e as atrocidades sociais que assediam a América Latina: o fracasso da democracia (tanto no estado quanto na sociedade civil), a neutralização dos direitos básicos (principalmente os direitos sociais) e a agenda neoliberal de sacrifícios tecnocráticos das reivindicações populares, agenda baseada em uma ideologia econômica que é, de fato, não só estéril, incapaz de produzir os resultados que promete, mas também falsa e, além disso, autobloqueada contra a crítica racional e a deliberação democrática.

* Enquanto homem
Como homem, inquieta-me hoje, em primeiro lugar, a preocupação de cultivar meu casamento com a Vivi de modo autêntico, respeitoso e igualitário. Gostaria de cultivar junto com a Vivi um amor que se sabe e se quer, que é autoconstrutivo e amadurece, que não suprime o outro, que não rebaixa o outro, que considera e trata o outro como autônomo e, ao mesmo tempo, ansiado e confiável. Em segundo lugar, inquieta-me hoje o silenciamento das mulheres, a subestimação das vozes femininas. Em terceiro lugar, a ausência de mulheres na política brasileira. Além disso, também me inquietam as disciplinas religiosas impostas sobre as mulheres, disciplinas que se pretendem divinamente inspiradas, mas que escondem, na verdade, uma violência, um arbítrio, uma subjugação e uma exploração que os homens criam exclusivamente para seu benefício.

* Enquanto profissional/ futuro doutor
Como pesquisador e educador, o que mais me inquieta é se eu, de fato, poderei, um dia, estar à altura das responsabilidades intelectuais e formacionais que me cabem. Compreendo que, como teórico crítico da sociedade moderna e professor de direito, estou diante de desafios colossais que talvez possam ser resumidos da seguinte forma: Como, enquanto pesquisador e educador, posso provocar processos de aprendizagem coletivos que despertem e fomentem atitudes e práticas de desnaturalização, crítica, contestação e transformação dos padrões de comportamento e das estruturas sociais vigentes que, em vez de realizar a autonomia das pessoas, impõem-lhes injustiças injustificáveis e as despotencializam em seus horizontes, planos, expectativas e objetivos?
O que me inquieta é saber que devo esforçar-me tremendamente e sem cessar para acender, em meus leitores e alunos, centelhas de (para usar palavras de Habermas) uma autoconsciência que se orienta para a autorrealização e a autodeterminação.

* Enquanto cidadão brasileiro
Aqui tenho uma vasta lista de inquietações, mas me limito a ressaltar seis:
(1) o fracasso republicano do legislativo, que chegou ao auge do oportunismo, da manobra e da irresponsabilidade;
(2) o fracasso constitucional do judiciário, que se torna cada vez mais arbitrário, estratégico e corporativista, de modo que os juízes se mostram cada vez mais caprichosos, associados aos bastidores da política real e inclinados a buscar privilégios profissionais;
(3) o fracasso democrático do executivo, que burlou a democracia para implantar um programa de desmantelamento que não foi submetido à análise do povo e estrangula as aspirações genuínas e permanentes da massa pobre, mas é demagogicamente vendido ao povo como sendo do interesse geral;
(4) o descompromisso de vários partidos políticos – especialmente a tríade que derrubou Dilma Rousseff: PMDB, PSDB, DEM, mas também o PT – com práticas políticas que levem a sério a transparência, a constituição e a inclusão deliberativa;
(5) a cruzada religiosa de colonização “santificadora” da política, cruzada que, na verdade, parasita a consciência política dos devotos e apenas visa engrandecer a influência social de lideranças religiosas;
(6) a incapacidade dos grandes canais da mídia nacional de se tornarem veículos democráticos. Parece-me que os grandes canais são veículos que são plurais na superfície, mas que, nas profundidades, são extremamente unilaterais e consorciados com as elites conservadoras. Os grandes canais não são veículos críticos em relação às forças sociais que travam a realização da constituição, o florescimento da democracia, a efetivação dos direitos sociais, a tematização de problemas graves nas estruturas sociais e nos padrões de comportamento, a problematização permanente das injustiças sociais. Em larga medida, eles fazem exatamente o contrário disso.

w Quis repetir uma questão que propus à nossa querida amiga Nayara, pois acredito que você também tenha algo a fornecer sobre ela: você é nordestino e é um rapaz muito inteligente. Muitas pessoas reduzem o povo nordestino a estigmas e estereótipos – por que razões você acredita que isso permaneça e, de que formas um dia isso possa ser superado?
Por um lado, confesso que sempre me espanto com o fato de que alguém adote estigmas e estereótipos a respeito de outra pessoa pelo motivo de ela não “pertencer”, de ela não ter as mesmas filiações, as mesmas referências, as mesmas marcas, as mesmas peles: para mim, isso é inteiramente irracional. Por outro lado, certamente é possível explicar isso: se isso é inteiramente irracional e, entretanto, é produzido e reproduzido na sociedade, é porque há fontes sociais que geram e replicam generalizações infundadas, imagens caricatas, aversões, desrespeitos, tratamentos humilhantes e relações violentas. É necessário, portanto, investigar essas fontes sociais, as quais não excluem, banem os nordestinos, mas, antes, os incluem de modo seletivo e se aproveitam opressivamente deles, de suas realizações, suas contribuições, seus esforços, suas capacidades, seu penar e seus sofrimentos.

w Você é formado na área do Direito, mas optou por fazer um doutorado em Filosofia. O que lhe levou a fazer essa escolha e no que essas duas áreas divergem e complementam-se? O que a filosofia tem acrescentado à sua vida (pessoal e academicamente)?
Por um lado, o direito leva constantemente à filosofia: a questões filosóficas importantíssimas, tais como legitimidade, justiça, dignidade, liberdade, justificação, racionalidade. Por outro lado, o universo acadêmico jurídico é consideravelmente limitado em perseguir e elaborar respostas a essas questões filosóficas. É que há tendências fortes que empurram o universo acadêmico jurídico para lidar exclusivamente com questões técnicas e, no máximo, dogmáticas, de modo que o universo acadêmico jurídico se torna predominantemente atado à descrição analítica do direito positivo, abstendo-se de examinar criticamente o direito positivo e, muito mais, de averiguar meticulosamente as fundações normativas do direito moderno.
O que, em última análise, me trouxe à filosofia (ao doutoramento no PPGFil/UFSC) foi minha inquietação, desde o princípio do bacharelado jurídico, com aquelas questões filosóficas que não podem ser separadas do direito. Além disso, devo minha inclinação à filosofia a minha formação em Letras Vernáculas: minha propensão ao questionamento filosófico foi muito aguçada aí. No direito, essa propensão foi cada vez mais perturbada e jamais pode ser contida. Hoje, a filosofia se tornou, para mim, uma fonte inesgotável de perguntas, perspicácia, crítica, desmascaramento, insônia e labor. A filosofia, confesso, atrapalha muito meu bem-estar: textos e textos devem ser lidos e interpelados, problemas e problemas devem ser examinados e resolvidos, teorias e teorias devem ser esquadrinhadas e discutidas, possibilidades e possibilidades devem ser levadas em consideração. Mas, primeiro, o bem-estar não é tudo; segundo, sem filosofia, não consigo sequer ter a esperança de saber-me e efetivar-me, saber e transformar a sociedade, saber e desacorrentar a liberdade.

w Para fazer o doutorado, você precisou fazer uma mudança grande: de Fortaleza, migrou para Florianópolis. Quais as principais dificuldades que você vem enfrentando com essa mudança, e como se deu a decisão de realizá-la? Em algum momento você chegou a pensar em desistir?
Nunca pensei em desistir nestes primeiros sete meses em Florianópolis. Ao contrário: cada vez mais, alegro-me por estar aqui, estudando no PPGFil/UFSC e podendo experimentar o Sul brasileiro.
A principal dificuldade foi econômica, pois tive de encerrar minhas ocupações profissionais em Fortaleza para mudar-me para cá. Decidi embarcar inteiramente no doutorado, com dedicação total. Entretanto, graças ao fomento público (sou bolsista da CAPES), posso manter-me materialmente aqui.

w Como você convive com suas próprias expectativas e frustrações, além das cobranças da sociedade, na fase atual de sua vida?
Cada vez mais me importo menos com os julgamentos sociais baseados em padrões arbitrários. Os julgamentos sociais que me importam são cada vez mais apenas os baseados em critérios morais (universais). Portanto, não entrego totalmente à sociedade vigente a direção de meus objetivos, meus valores e minha visão de mundo; a única concessão que tenho feito à sociedade é em matérias morais (que devem ser discutidas e não são dogmáticas).
Quanto a minhas expectativas e frustrações, tento sempre manter em mente que minha vida é um projeto que elaboro, reconstruo e tento realizar. Nisso, sofro muitas limitações pessoais, sociais, culturais e sistêmicas, de modo que tenho de contar e lidar com todas elas, sabendo que não sou onipotente e onisciente. Assim, tento compreender as limitações a que estão sujeitas minhas expectativas e o contexto em que surgem minhas frustrações. Tento compreender isso a fim de poder elaborar, reconstruir e tentar realizar o projeto que é minha vida.

w Sua esposa também estuda e atua na área acadêmica. ? Em caso afirmativo, vocês mantêm também uma parceria intelectual, além da parceria conjugal? Em caso negativo, como ela lida com seus estudos: apoia, dá força, “aguenta”, hehehe.
A Vivi também está engajada academicamente: ela é da administração. Acredito que ela tem inclinações profissionais mais fortes que as acadêmicas. Em todo caso, ela é muito habilidosa também nas atividades universitárias (principalmente ensino e extensão). Acredito também que colaboramos muito um com o outro em termos acadêmicos, mas, como nossos nichos são bem diferentes, lidamos com bases conceituais, recursos teóricos e horizontes de compreensão consideravelmente diferentes. Apesar disso, nós dialogamos bastante sobre trabalhos, projetos, planos, aperreios, temores de nossos percursos acadêmicos distintos. Além disso, a Vivi cuida muito de mim, dando-me bastante apoio para que eu me desincumba de minhas tarefas universitárias.

w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha próxima entrevista).
Qual é o problema político que mais lhe preocupa hoje no Brasil?

Rapidinha:
- A vida me ensinou que... devo ser pragmático em muitas ocasiões.
- Sei cozinhar... pouquíssimo.
- Fazer doutorado é... trabalho, trabalho, trabalho e autorrealização.
- Livro que estou lendo (ou último que leu)... “Republicanism: a theory of freedom and government”, de Philip Pettit.
- Sou de uma geração que... tem de lutar muito por democracia substantiva.
- A humanidade precisa falar mais sobre... pobreza e fome.
- Última decisão que tomou... cortar relações pessoais em que há falsidade.
- Um dia feliz... O dia em que recebi o resultado de minha aprovação na seleção do doutorado.

Foi também um dia muito feliz pra mim. Fazer doutorado está me continuando no processo de desconstrução que o mestrado iniciou e, certamente, Ivan, ler pensamentos como os seus, e de outros colegas queridos que conheci por meio dessa aprovação, contribuem nesse processo desconstrutivo. Muito obrigada por dividi-los conosco ;)




Entrevista recebida em 25/09/2016.