Conheci a Natália pelos corredores da Aliança Francesa, onde ríamos da professora que parecia a Anabelle e de "le pescocê". Entre outras coisas. O tempo passou, nos afastamos, cada uma foi para um canto, mas a amizade rendeu bem mais que piadinhas de francês e cupcakes. Hoje ela está no Velho Mundo e concedeu essa entrevista também para falar um pouquinho disso, contando como se deu essa virada em sua vida e sobre tudo o que vem aprendendo com a experiência. Nati, solta o verbo! 

Natália, fale um pouco de você.
Tenho 21 anos, sou pisciana, mas eu não tenho nada a ver com piscianos (eu acho... só algumas coisinhas); meu ascendente é em touro, e acho que sou muito mais taurina. Estou morando agora em Barcelona, saí do Brasil em outubro de 2015, fui para Milão e de lá para Bérgamo, onde morei dois meses com um amigo meu, e depois mais dois meses, completamente sozinha. Viajei por toda a Itália enquanto fazia meu processo de cidadania. Após conseguir a cidadania, tentei achar emprego, mas não consegui na Itália e resolvi vir para Barcelona, onde minha irmã morou por cinco anos. Estou aqui há seis meses e está sendo uma experiência incrível na minha vida. No começo, a gente sempre tem algumas inseguranças, mas acredito que quanto menos a gente pensa nelas, mais fluidez as coisas têm. Eu me descobri aqui. Descobri coisas sobre mim que eu não sabia; descobri a força que eu tenho para enfrentar as coisas, pois sempre fui uma menina muito insegura. E também o quanto a vida pode nos presentear quando vibramos conforme ela nos pede.
 
w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes?
Bom, no momento eu tenho uma filosofia de vida diferente, então eu não penso demais sobre as minhas inquietudes e preocupações, pois isso todos têm e essas preocupações mudam com o passar dos dias e com o passar das situações. No momento estou bem tranquila. Por incrível que pareça, não tenho nenhuma preocupação e gostaria de trocar essa palavra “preocupação” pela palavra “querer”: eu quero conquistar muitas coisas. Acho que assim a gente consegue levar a vida mais leve.

w Você enfrentou uma mudança corajosa: sair do país para fixar residência. Como você tomou essa decisão e quais suas principais ponderações?
Eu saí do país para encontrar uma melhor qualidade de vida. E que isso me proporcionasse poder viver na Europa, pois eu poderia fazer a minha cidadania na Itália e, a partir disso, morar em diversos países sem problemas. A minha decisão foi tomada porque eu cansei de depender dos meus pais, do dinheiro deles, ou das condições que eu tinha no Brasil. Cansei da insegurança do Brasil, cansei... Sei lá. Eu notava que eu não me encaixava naquele lugar, que eu não tinha nada a ver com a maioria das pessoas que moravam na minha cidade. Eu queria algo mais aberto, mais livre, não sei, eu sentia que estava “fora do meu lugar”. Isso tudo me ajudou a sair. Minhas ponderações, então, foram qualidade de vida, em primeiro lugar; o estudo, que aqui eu posso ter sem pagar tanto; a segurança e a mentalidade das pessoas, que aqui é um pouco diferente. Não vou generalizar, não digo que todos pensam igual em Caxias do Sul, que é a minha cidade, mas aqui, como cidade grande e cidade turística, as coisas mudam bastante.
(Questão de cultura, concordo totalmente. Mas a palavra “mentalidade”, como eu te disse uma vez, acho que depende mais de seres que de lugares).

w Quais as maiores dificuldades que você enfrentou e o que gostaria que tivesse sido diferente nesse processo? Culturalmente, qual foi o impacto?
Não consigo olhar pra trás e pensar numa dificuldade maior porque todas elas agora, nesse momento, parecem só situações. Mas eu lembro que eu fiquei muito insegura em relação a fazer meus documentos em Barcelona quando cheguei, mas como minha irmã já tinha morado aqui por cinco anos, ela me ajudou; disse o que eu tinha que fazer e eu fui lá e fiz. E fiz sem saber falar direito o espanhol; eu cheguei aqui e só falava o italiano. Eu não gostaria que nada tivesse sido diferente porque cada etapa difícil que eu passei foi uma coisa muito importante que eu aprendi sobre as coisas, sobre como é morar fora e sobre mim mesma, principalmente. Aprendi muito sobre o quanto eu posso ser forte. E sobre tudo que eu achava que não tinha à minha disposição, mas tenho (Tá difícil me expressar. Acho que é meu Mercúrio retrógrado. Corta essa parte). Culturalmente, o impacto foi bem grande; quando eu cheguei na Itália, em Milão, eu lembro que absolutamente tudo me chamava a atenção – eu nunca tinha saído do Brasil antes. Desde as placas dos carros, até a estrada, até as ruas, até o campo, o mercado, o metrô, o trem. Tudo.

w Que conselho você dá para alguém que, como você, pensa alçar voos mais altos e morar fora do Brasil por conta e risco?
Vai depender... Se você tem família que apoia, pais que possam pagar seu estudo ou possam ajudá-lx com os meios de vir para a Europa: ótimo. Tem tudo nas suas mãos, só precisa trabalhar o emocional caso seja uma pessoa muito apegada – e eu vou dizer que se você nunca saiu do Brasil e aí vai morar fora, acho que o impacto é maior do que se você já conhece alguma coisa, como tudo funciona, e tudo mais. Eu saí do Brasil sozinha, foi minha primeira viagem internacional e fiz tudo sozinha. Acho que meu conselho é: tenha a cabeça bem centrada no que você quer e pense que precisa viver dia após dia, um dia por vez sem atropelar as coisas e fazer um plano do que quer para a sua vida e segui-lo. Tenha em sua mente que cada momento de dificuldade vai servir como oportunidade para se conhecer melhor. Acho que a gente precisa mudar as palavras, pois mudando as palavras conseguimos mudar o sentimento. Por exemplo, ao invés de pensar “eu estou preocupada por isso” ou “estou triste por isso”, pensar que essa é uma oportunidade que a vida está lhe dando de olhar para partes, para emoções e medos que antes você não via. Acho que toda experiência é válida, inclusive os momentos mais difíceis, que nos fazem sentir uma pessoa mais forte depois. Mais tarde você olha pra trás e vê que nem era tãããoo assim, tão difícil... Acho que vale super a pena, se ganha uma experiência de vida enorme... Você começa a se soltar... Eu, por exemplo, cheguei à Itália, não falava nada, comecei a arriscar algumas coisinhas, mas depois que aprendi italiano me senti mais segura. Ao vir para Barcelona, ainda só conseguia pensar em italiano e foi tudo um processo que, aliás, ainda estou passando – faz só dez meses que estou fora do Brasil. Mas foram dez meses muito intensos. É preciso meter a cara e a coragem se é isso mesmo que você quer, tudo vai convergir para que alcance os seus sonhos. (Nossa... eu acho que é o Mercúrio retrógrado de novo...).
(Risos).

w Você tem uma espiritualidade latente e uma sensibilidade muito aguçada. Quais as principais crenças que você carrega em sua vida e como se serve delas para encarar as adversidades?
As minhas principais crenças são: 1) partir do princípio de que ninguém é obrigadx a nada. Ninguém é obrigadx a amá-lx, ninguém é obrigado a aceitá-lx, seus pais não são obrigados a lhe darem uma escola, eles não são obrigados nem a lhe darem amor. Sim, vai parecer muito estranho às pessoas que vão ler isso, mas eu parto desse princípio, porque eu levo a minha vida muito fácil assim. Sentimentalmente. Porque acho que, como a gente não gosta de ser manipulada, ou como não gostamos que alguém insista em algo que não queremos fazer, acho que também não podemos exigir do outro que ele faça algo por nós. Vejo que muitas vezes é fácil ficar com raiva de alguém porque aquela pessoa não cumpriu a ação que a gente determinou pra ela. 2) A questão de não julgar o outro. Porque a gente nunca sabe a batalha que o outro está passando, nunca sabe qual foi a história de vida dele antes de chegar ali, pois a gente cria uma imagem. Nossa mente é pré-disposta a julgamentos, a classificar, a nominar as coisas. Então, se a gente procura manter esse espaço aberto à pessoa se mostrar da maneira que ela é, quando se conhece alguém novo, isso faz levar a vida muito mais leve. Até porque, isso lhe permite deixar as coisas fluírem sem que você “empaque” em algo (algum pré-conceito). 3) Assumir 100% a responsabilidade pela própria vida. Acredito que é a partir disso que as coisas começam a se mover no mundo energeticamente – eu acredito muito na lei da atração. Quando não assumimos o papel de vítima, quando assumimos o papel de “Eu sou dona da minha própria vida”, conseguimos atrair muitas coisas boas. Eu sempre pensei: eu não posso contar com meus pais, nem com a minha irmã, nem com ninguém. Esse foi meu pensamento: eu vou fazer por conta própria. Não é que eu não possa, mas eu não quero. Foi isso o que eu escolhi pra mim: eu não quero depender de ninguém, então eu vou me servir dos meios que estiverem ao meu alcance pra isso e não me pré-ocupar pensando no futuro, tipo “ah, que que vai ser se daqui há um mês eu perder o meu trabalho?”. Não, eu to vivendo agora, eu to trabalhando agora – amanhã, se acontecer isso aí, eu começo a pensar no que eu vou fazer, a solucionar as coisas. E a cortar também o drama. Eu tive momentos difíceis, sim, e eu notei o quanto esses momentos difíceis me fizeram olhar para como eu amadureci. Acho que eles servem também para isso, pra gente olhar e perceber: “Nossa, Nati, se fosse há seis meses atrás, talvez você não reagiria dessa maneira”. Vejo que estou mais centrada no que eu posso fazer pra resolver as coisas do que em criar um drama e me lamentar. Claro que eu tenho meus momentos também, de fraqueza, em que eu choro, que eu fico triste, mas tento sempre ter essa percepção de que... um dia de cada vez.
E, claro, eu penso sobre o meu futuro. Penso sobre as coisas que eu quero fazer: sobre trabalho, sobre estudo. Só não penso demais: eu faço mais. Faço porque eu não quero me arrepender do que eu não fiz. Estou sempre tentando escolher o que é melhor pra mim, e caso eu veja que não é aquilo, que o que eu escolhi não me satisfaz, eu escolho de novo: não acho que seja um problema isso. Não acho que seja um problema a gente errar, pois é uma experiência. E eu tenho 21 anos, acho que agora é a hora de eu me arriscar e procurar fazer todas as coisas que eu quero fazer.
  
w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha próxima entrevista).
Qual a sua opinião sobre a força que têm as pessoas que vão morar fora do país?

Rapidinha:
- A vida me ensinou que... é muito mais fácil quando a gente assume 100% da responsabilidade sobre a nossa vida e não se põe no papel de vítima.
- Sou muito boa em... auxiliar as pessoas a terem uma melhor maneira de pensar (acho).
- Sou uma negação em... ai, eu me amo tanto que eu não sei (risos). Nossa, que difícil isso. Às vezes eu sou muito distraída... Tem coisas que eu me ligo que tenho que fazer e não faço... (nunca mais).
 - Eu tenho vontade de aprender... deixar meu inglês 100%.
- A humanidade precisa falar mais sobre... AUTORRESPONSABILIDADE. Parar de julgar os outros, parar de achar que o outro deveria fazer alguma coisa...

- Eu me arrependi de... não ter estudado a fundo geografia na escola (risos). E história.



Entrevista recebida em 31/08/2016.