"Nesse dia eu gravei o vídeo para a Especialização em Direitos Humanos, Esperança Garcia. Foi bacana. Gravamos no campus da UFSC." 
Encontrar a Nayara foi uma sincronicidade – como diria Carl Gustav Jung, um dos autores favoritos dela (e um pouco meu, também). Pessoa daquelas que rendem excelentes conversas, reflexões e debates, bem como possui uma clareza de espírito e uma sensibilidade incontestáveis, como atesta seu espaço Passarim Azul, e suas falas, sempre lúcidas e ponderadas. A entrevista ficou longa, mas vale cada linha.

Nayara, fale-nos um pouco de você.
Tenho 31 anos, nasci em Teresina, Piauí. Não saí do meu estado até por volta dos 24 anos, mas daí para cá já tive oportunidade de conhecer outras capitais do país. Sou filha de professora de educação infantil e de um rádio técnico, família simples. Estudei em uma boa escola da minha cidade, graças ao sacrifício da minha mãe, que recebia bolsa porque lecionava lá e no restante nós apertávamos no orçamento da família. Quando a escola criou o ranking (que hoje como professora questiono bastante) de bolsas, passei a estudar quase de graça no ensino médio. A escola era de orientação protestante, mas não tenho religião, apesar de hoje cultivar minha espiritualidade, depois de muitas idas e vindas, inclusive no ateísmo. Tenho dois irmãos mais novos, um sobrinho, filho do irmão do meio, e uma sobrinha adotiva. Tenho dois gatos, a Josefina e o Mick Jagger, duas cadelas, a Morgana e a Amy Winehouse, vulgo Pretinha. Como eu disse, sou professora de filosofia, apesar de ter me formado em direito, com carteira da OAB e tudo. Fiz mestrado na filosofia na UFPI e hoje faço doutorado na UFSC, na mesma área, onde conheci a Kelly. Cheguei a trabalhar na assessoria da procuradoria do município de Teresina, antes de entrar no mestrado. Dei aula em faculdade particular, onde tive oportunidade de ser coordenadora de pesquisa e extensão, também. Dei aula de lógica no interior do Maranhão por um mês e meio, uma das minhas maiores aventuras. Depois fui professora substituta da UFPI, no departamento de fundamentos da educação, imediatamente antes de iniciar a pós atual. Amo ler, adoro escrever, admiro a arte, as coisas ignoradas das cidades, as coisas delicadas e também as coisas embrutecidas, o céu, as árvores, os pássaros, as crianças, minhas e meus estudantes (quando os/as tenho), minha família. Gosto de boa companhia, mas quando não tenho, prefiro a mim mesma.

w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes (perspectivas, medos, desafios).
Acho que a conjuntura política do país, com o avanço das pautas conservadoras e o que podemos chamar de fraude do impeachment. Mas também a fala de poder, vazia de empatia que parece ter vencido em tantos lugares, inclusive na academia. Tenho outras inquietudes, mas vou ficar com essas duas aqui.

* Enquanto mulher
Enquanto mulher me preocupa ver como minha voz não tem a mesma importância que a de um homem no mundo. Importância no sentido de que as minhas experiências serão tão relevantes quanto a deles, isso vai se desdobrar em tanta coisa que poderia ser evitada. Não se pode querer um mundo melhor sem todos passarmos por uma revisão desse tipo de hierarquia das vozes.

* Enquanto profissional
Me preocupa o corporativismo da filosofia, a filosofia é mais que isso. Me preocupa que eu tenha que passar por qualquer tipo de censura enquanto professora, como pretendem os defensores de “causas” como a escola sem partido.

* Enquanto cidadã brasileira
Como eu mencionei antes, a fraude do impeachment e um certo ar de fascismo no discurso que surge da polarização que fomos forçadas a entrar. Me preocupa as consequências disso tudo nos direitos sociais, nas políticas públicas de diminuição da desigualdade, de proteção às minorias. Mas também me preocupa a manifestação disso no indivíduo, aquele com o qual teremos que lidar no dia a dia, aquele que acredita no discurso radical de negação do outro.

w Você é nordestina e é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Como você lida com o preconceito e a ignorância de quem acha que o povo nordestino se reduz a pessoas sem instrução e consciência de si, e por que acredita que esse estereótipo seja tão reforçado Brasil afora?
 Essa é a primeira vez que fui morar fora do meu estado, que por acaso é um dos últimos em IDH do país e justamente me mudei para o sul do país, região com a maior concentração de cidades com um bom IDH. Sendo bem sincera, além da questão da afetividade, do clima, da comida e do sotaque, vocês se surpreenderiam com a quantidade de semelhanças que temos. Para o bem e para o mal. Eu achei muita graça quando percebi isso, achei graça justamente porque sabia do estereótipo que fazemos de vocês lá e do que vocês fazem da gente. Eu ainda não tive que lidar com o preconceito por ser nordestina diretamente (não tive o desprazer e espero não ter), mas é claro que há um misto de ar de condescendência, ou de dúvida, ou de piedade. O que eu lamento. Há um imenso desconhecimento do Brasil sobre o Brasil, por isso esse tipo de ignorância grassa. Tem gente competente lá, tanto como aqui e gente ruim, também, lá e aqui. Machismo por exemplo, tem de norte a sul do país - isso eu enfrentei bem claramente no sul, mas talvez porque meu olhar seja de fora. Mas, enfim, questões históricas e políticas explicam a imensa desigualdade (não, não é a seca). E é muito tolo quem necessita se apoiar em preconceitos para precisar afirmar sua identidade. É realmente uma tolice sem tamanho.

w Você já atuou como professora substituta na UFPI. Na sua percepção, qual o principal ganho que a docência traz em comparação à pesquisa – o que a experiência em sala de aula acrescentou à sua vida de uma forma que nenhuma outra experiência fez/ conseguiu?
 Dar aula foi a realização de algo que eu buscava, mas que eu nem tinha muita certeza que encontraria. Parecia tão distante, porque no curso de direito não nos preparam para a sala. Lá somos bacharelas. A primeira vez em sala de aula foi no estágio docência do mestrado, na UFPI. Era aula de Metodologia Científica para um turma de engenharia. O período já havia começado e lá a estagiária pega a disciplina o semestre todo. No primeiro dia de aula não apareceu um único estudante. E até dor de barriga eu tinha dado de ansiedade. Foi bem frustrante. O departamento havia esquecido de avisar a turma da aula. Mas na semana seguinte tudo correu bem. Lembro como se fosse hoje. Foi uma das melhores experiências da minha vida. A sensação que eu buscava em cada um dos estágios do direito e que nunca encontrei, a sala de aula me deu instantaneamente. Minha criatividade ficava à flor da pele e passei a criar uma sintonia fantástica com todas as minhas turmas. Como você lembrou, dei aula por dois anos na Universidade Federal do Piauí, depois que terminei o mestrado. Ali as turmas me proporcionaram momentos de intensa felicidade. Eu estava plena quando estava em sala de aula. Foram dois anos de lua de mel com a Existência. E, olha, já me gabando, a aprovação das turmas na avaliação anônima era bem alta. De 0 a 5, eu nunca recebi menos que 4,4 e teve turma que fechou 5. Sabe aquela coisa: encontrei o que quero fazer da vida? Pois é. Mas lá eu tinha liberdade, explorava o conteúdo de modo crítico e criativo. Foi bem legal. Espero ter outras oportunidades assim ainda, sabemos que não é sempre que isso acontece. Na sala de aula eu procurava me aproximar de cada uma e cada um, mesmo com muitas turmas. Geralmente eu aprendia o nome de todas antes do final do semestre. Além do conteúdo havia muita cumplicidade, então as turmas se sentiam à vontade para discutir temas polêmicos e em geral a aula fluía tranquilamente. Às vezes eu mesma sou muito passional e acho que isso contaminava algumas e alguns nos debates. Tinha isso, eu procurava abrir aos debates sempre que terminava a exposição.
Eu acredito que a sala de aula te dá elementos e sujeitos para dialogar que te abrem o mundo de tantas maneiras, que a riqueza disso pode muito bem dar azo a questões que levarão a algo do seu interesse, da pesquisa. Para as estudantes e os estudantes, eu sempre reservava alguns momentos para conversar sobre a importância da pesquisa e dava algumas dicas, especialmente para quem estava iniciando, independentemente da disciplina. Além disso, tem vezes que surge a oportunidade de você fazer conexões diretas entre o conteúdo da aula e sua pesquisa atual ou passada. Eu só vejo pontos positivos nessa relação.

w Seu tema de doutorado aborda a filósofa contemporânea Nancy Fraser. O que (você e) a Nancy têm a dizer às mulheres?
Temos que ir à luta. Mas isso é algo que se constrói em diálogo com outras mulheres. Qual luta das mulheres? Salários iguais? Direito ao aborto? Direito de ser ouvida? Direito a uma propriedade? Direito de usar a roupa que quiser? Direito a não ser morta por abandonar uma relação abusiva? Dependendo de onde falamos, nossas demandas enquanto mulheres vão se alterar. Fraser tem uma teoria estrutural pensada para permitir que essas demandas surjam, dialoguem e não anulem umas às outras, especialmente em termos de políticas públicas e direitos. Mas como eu disse, o conteúdo e até a estrutura é para ser pensada e realizada dialogicamente.

w Certas idades são consideradas um marco na vida. Como você convive com todas as suas próprias expectativas e frustrações, além das cobranças da sociedade, na fase atual de sua vida?
Eu lido maravilhosamente bem hoje (risos). Sério. Se eu for comparar minhas paranoias quanto à opinião alheia do passado e o meu momento atual eu posso dizer que eu ligo realmente bem pouco e definitivamente eu devo isso à idade. Amo a idade em que estou. Amo a mulher que me tornei hoje. Me acho muito mais corajosa e bonita e segura do que já fui em qualquer idade anterior. E isso é uma conquista, porque não trabalhei a auto estima tão bem no passado. Na verdade eu me maltratava bastante aqui dentro da cabeça. Então hoje eu posso parabenizar a Nayara do presente, mesmo com todos os percalços da vida. Mas ainda penso que a coisa que tira um pouco meu sono a respeito de cobranças é a questão salarial. Por que chega um momento na vida que a gente precisa se sustentar para além de bolsa de estudos, né? (Cada linha dessa fala me encontrou *-*).

w A maioria dos intelectuais tende a se “afastar” das expressões mais simples e básicas da vida à medida que vai se “academicizando”, ou seja, limitar suas crenças e observações somente ao que pode ser testável ou verificável, relegando o que foge a esse campo como misticismo dos “menos inteligentes”. Para você, é possível conciliar as duas coisas: manter-se em busca do esclarecimento, mas sem perder a sensibilidade (ou esse substrato que parece ser maculado)?
Talvez num passado eu tivesse essa tendência ao ceticismo a respeito do que não fosse racional. Hoje eu mal trabalho com a ideia de racionalidade como oposta à emoção ou sensibilidade. Essas dualidades já foram ultrapassadas, mas por motivos que sabemos ainda insistimos tanto.
Trabalho com a ideia de muitos saberes possíveis. O saber acadêmico é só um. É aquele no qual a linguagem científica predomina. Mas existem outras tantas maneiras de viver o mundo. A religião ou a espiritualidade é uma delas.
Particularmente, quanto à religião, eu tenho muita dificuldade. Me sinto em relação a elas como aprisionada em dogmas, mas penso que é muito tranquilo a pessoa ter a sua religião e fazer ciência séria, ou filosofia, é só não trabalhar com sistemas fechados e entender que o ideal é que cada área vai trabalhar os “objetos” de modo diferente e aí também vai implicar o interesse do sujeito com esses saberes. Apesar de ter essa dificuldade quanto a ter uma religião, cultivo hoje uma espiritualidade de matriz eclética, eu diria. Um misto de filosofia, sabedoria oriental, intuição, psicanálise junguiana. Natureza, sonhos, exercícios de respiração, orações. Um “balaio de gaio”, mas que é flexível e que me ajuda a trabalhar a transcendência. Eu penso que a transcendência é uma experiência humana, independentemente de religião. Um artista, por exemplo. Pode ser ateu e é tranquilamente passível de encontrar transcendência em sua própria obra. Porque tudo está dentro. Nada está fora (a transcendência é só processo, não é um lugar fora). Com certeza algum filósofo pré-socrático perdido teria me apoiado nisso.

w  Você é uma defensora ardorosa de Paulo Freire. Quais contribuições do pedagogo você considera mais importantes?
Paulo Freire tem uma biografia incrível. O método de alfabetização dele, que foi voltado para adultos no início e que além de ensinar a escrever estimulava o pensamento crítico dos despossuídos em termos da sua própria condição é algo sem igual. Mesmo depois de ser preso e depois ter que abandonar o país ele continuou fazendo o trabalho dele por todos os países que andou, sendo reconhecido como um dos maiores pedagogos do mundo e um dos mais citados em trabalhos acadêmicos até hoje.
Paulo Freire tem o mérito de ter desmontado a lógica da sala de aula, de vertical para horizontal. Não no sentido de que o professor ou professora tenha o mesmo conhecimento que as estudantes e os estudantes, mas que os saberes de todxs lá são relevantes e que o professor e a professora precisam ter isso como pressuposto. O diálogo é a base da educação e não o monólogo. O contexto das turmas, especialmente se se tratam de comunidades com muitos problemas sociais/estruturais, mas não só. A pedagogia freireana é necessariamente crítica do nosso modelo escolar, que ignora o saber enquanto instrumento de transformação dos sujeitos e do mundo. É um conteúdo morto esse que não dialoga, que não se transforma e que não transforma. Mera verborragia mnemônica.
Infelizmente, apesar do que acusam a ignorância do movimento escola sem partido e os seus simpatizantes, a educação que ele propunha nunca foi oficialmente aplicada em larga escala no país. As pessoas leem Paulo Freire, mas dificilmente formamos equipes para aplicá-lo (funciona em equipe e não com um professor herói sozinho).

w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha próxima entrevista).
Como você se imagina daqui 10 anos?

Rapidinha:
- A vida me ensinou que... A minha sensibilidade é importante.
- Uma comida/ bebida que adoro... Creme de galinha da minha mãe, paçoca (a de verdade, com farofa e carne de sol). Bebida: cajuína.
- Um país que não morro sem conhecer é... Brasil. Os muitos Brasis. Mentira. O Japão.
- Livro que estou lendo... “Para cima e não para o norte”, da Patrícia Portela, que é portuguesa e “Vozes do Bolsa família: autonomia, dinheiro e cidadania”, da Walkiria Leão e do (Alessandro) Pinzani.
- Sou de uma geração que... Sonhou demais e parece que veio se esquecendo dos próprios sonhos com o passar dos anos.
- Última decisão que tomou... Retomar um fichamento (por um motivo do coração).



Entrevista recebida em 26/08/2016.