Todas as cidades são muito parecidas. Se têm excesso de personalidade, sempre há alguma viela, algum beco, alguma rua que as joga no valo comum de todas as outras. São calçadas, esquinas e prédios com história própria. Mas enredos muito parecidos, mudando só as personagens, época e indumentária, e preservando um cenário essencial. É assim que sinto sobre as estradas as quais já pisei, e até as que não pisei ainda. Cheias de pegadas. Aquelas velhas construções, a tinta a descascar, os paralelepípedos soltos, as velhas placas com limo. Podiam ser os mesmos agora ou na década de 1950. Os letreiros das boates, os cartazes do cinema, os históricos monumentos – ideias talvez conservadas da década de 1920. E embora os atuais postes de mercúrio e os muros de grafite, a publicidade marcante e os anúncios de neon, há algo que subsiste, sempre se limitando à orquestrada manifestação de cada rua urbanizada. Aquele lugar que tantos já pisaram e as recordações que a cada um empresta. Histórias vividas – e outras só imaginadas. As vidas ali passadas e as tramas ali morridas. Além das línguas faladas e das dores sentidas...
É improvável não associar um lugar com o momento de vida que ele traz, ou as pessoas que ele reporta. Difícil não rememorar certa noite, certa tristeza, certa lisonja nostálgica. Não parar a reminiscência num instante em um negativo de memória, e congelar para sempre tal infelicidade ou alegria, reencontro ou despedida. E nisso, o mais interessante nas cidades talvez sejam seus cemitérios e rodoviárias, mais que museus e conservatórios. São nos cemitérios e nas rodoviárias que últimos sorrisos, lágrimas e abraços são dados. São eles que preservam o lenitivo de sua própria aflição, por guardarem, de certa forma, suas cenas na memória do tempo. E cada cidade guarda também a beleza de seus dias frios ou cinzentos, bem como seus ares ensolarados; noites cruas ou incensas de povoadas saudades. Coroas de joias ou de flores.

Cidades são muito parecidas. Ou, talvez, seja o nosso olhar. Pois ele apenas deixará retratar histórias as quais possa alcançar. Nada além que uma parte de mapa recortada a fim de uma exploração biográfica – chamada única – mas que sempre remonta a outro lugar. Sempre o mesmo lugar.