De uns tempos pra cá, passei a detestar a humanidade. A me esvair de mim, e deles; a não encarar muito, não me apegar. Mas, é que eu mergulho tão fundo em cada pessoa. Eu vou nas suas histórias, nas suas veias. Eu bebo de suas almas. Eu acho que eu consigo entrar fundo em suas vidas tristes. Na infelicidade que é estar aqui. Aí, de uns tempos pra cá, eu só tenho evitado isso. Anestesiado, adormecido, não sei. Tenho fugido deles, para fugir de mim. Para não mergulhar tão imenso na dor de outra pessoa. Para não misturar minha história com as vidas delas. Porque não posso fazer isso, já é difícil viver minha própria dor. Mas, é mais difícil ainda não viver a dor delas.
Tem um pedaço no filme “Hannah Arendt” que seu amigo pergunta se ela não ama seu povo. A pensadora política diz que não ama nenhum povo, mas ama seus amigos. E eu acho que é assim... Não posso amar uma multidão, mas posso amar um ser singular. Não posso atestar uma alucinação coletiva, mas posso abraçar um corpo e segurar uma mão. Não posso ser mais que eu, nem posso ser eu também.