Ana Cristina Cesar estourou aos 31.

Era como se fervesse em sua pequena panela de pressão ciclotímica. Era como se, à medida que a pressão fosse subindo, ninguém pudesse tirá-lx dali. A água fervia e fervia... A pressão subia e subia... Até que um dia... explodiu. É assim que vivem muitas pessoas com depressão. Num silêncio. Um silêncio constrangedor. Silêncio que não mostra sua face. Um silêncio que não mostra sua dor.
Elas sorriem, elas acenam. Elas olham para os lados... elas têm vidas comuns, até. Às vezes, parecem felizes, diria. Mas, por dentro, elas choram. Elas invocam. Elas não sabem o que fazer com tanto amargor na alma. Isso as destrói pouco a pouco; isso corrói cada pequena conquista, alegria – nada mais faz sentido. Nada vale tanto a pena assim. Até que um dia a notícia surpreende a todos.
-       Mas, como? Fulano? Tão feliz, sempre fazendo piadas.
-       Ah, mas era tão alegre! Era ela quem fazia as risadas do nosso grupo...
-       Ah, não acredito nisso... Uma pessoa tão realizada, com tanto sucesso na vida...
Sucessos momentâneos, ilusórios. Sucessos, em realidade, inexistentes. Porque para essa pessoa a verdadeira felicidade seria apenas se olhar no espelho e se aceitar, e sentir-se parte de algo. Nunca aconteceu... E ela nem mesmo pode explicar porquê, se ela não o sabe...

Penso em todos os suicídios dos quais já ouvi – do silêncio que antecede essa última manifestação desesperada. Parece que os gritos todos já calaram na garganta e não há mais nada a ser dito. Como diria Hamlet, o resto é silêncio... Mas foi um silêncio que falou o tempo todo, convulsionou-se, deu voltas em si mesmo na eminência de que estava sendo claro. Ele apenas foi amordaçado, consentido, na nossa insensibilidade individual cotidiana, a qual aceitamos a resposta do “tudo bem” como se fosse verdade...

Assim, um dia, se explode a panela de pressão ciclotímica. Finalizando seus ciclos de baixas e empolgação e eternizando o “Por que?” de dúvida estampado nos olhos de quem, finalmente, ouviu o silêncio, agora em forma de estouro. O silêncio final. #setembroamarelo