Quem dera não ter medo de viver. E não temos. O medo só é real em duas situações: na hora exata da ameaça ou na antecipação de sua possibilidade. Mas o fantasma do medo está sempre brincando em cada sujeito. Nos gatos, é a imagem do pepino. Nos humanos, varia em gênero, número e grau. Eu também tenho medos. Sou uma das pessoas mais medrosas que conheço. É que tenho medos simples, mas poderosos. E os medos paralisam, gelam. Sofro muito de medos, porém, não os medos comuns de toda gente. Morrer, perder o emprego, ficar na ruína – isso talvez seja leve perto de viver com medo. O medo ansioso, doentio, patológico. O medo que beira a perda da própria qualidade de vida, conforme o dia.
Tenho medo do total escuro. Preciso de um ponto de luz para escape. Pode ser a tela do celular ou um vão da veneziana da janela. O breu total me faz sentir insegura. Danço com as sombras na escuridão. Tenho medo de arrancar os sisos. O raio-x já apontou que os três (sim, só tenho três, evoluí um pouquinho) estão tortos, malformados e obesos dentro da boca, mas falta-me a coragem para dar fim aos seus caprichos malfadados de uma vez por todas. Tenho medo de parir. Aliás, todo o processo de gestação romantizado e encantado por tantas pessoas, me apavora, e fujo disso como o diabo da cruz. E depois, ainda tem o filho em si, que é outro grande fator de medo: colocar um filho nesse mundo. Com todas as mazelas que ele tem. É coisa de muito medo mesmo...
Tenho medo, às vezes, dos processos do meu corpo. Parece que o coração tá batendo rápido demais, ou muito devagar. Parece que a respiração está ofegante, ou muito acelerada. As pernas estão tremendo, ou as mãos. É um medo do que foge ao imaginário controle.
Tenho medo de comprar comidas muito exóticas, e não gostar. Porque terei gasto dinheiro com aquilo. Medo de me expor, medo de errar, medo de tomar banho com o bucho muito cheio (mas pelo menos consigo tomar leite com manga, haha). Tenho medo de cenas fortes. De violências. De mergulhar, de dores estranhas, medo de acidentes. De energias densas. Dos efeitos colaterais dos remédios. Medos de todo tipo, menos do tipo de toda gente.
Tenho medo de me apaixonar. Nunca vale a pena. Medo de me entregar. Nunca mais confiarei de novo. Medo de altura. Dá tontura e vertigem. Medo de ter confiança nas pessoas. Sempre me decepcionam. Medo quando acordo e demoro uns segundos para constatar que estou na minha cama. Recentemente, tenho medo de um estranho sonambulismo que tem se manifestado quando eu estou acompanhada. E medo de olhar para o passado, e para o futuro. De ver todas as minhas dores enfileiradas. E de acabar percebendo que são maiores que eu.
Morro de medo de descobrir alguma coisa num exame de rotina. De me engasgar, do ar faltar, de voltar sozinha pra casa muito tarde da noite. De dirigir sozinha na madrugada. De acreditar em certas coisas. Dar o primeiro passo. De não dar tempo...
O medo é um instinto de preservação da vida. Mesmo nesses medos tão medonhos... isso não deixa de ser verdade. Só que talvez ele mantenha uma vida semivivida. Uma vida acabrunhada. Uma vida pela metade. Quem sabe arriscar mais seja melhor que viver com medo. Talvez fazer com medo... seja melhor que não viver. Vida plena mesmo só é possível sem medo. E medo pleno mesmo impossibilita a vida. Não a preserva, a limita. Quem dera não ter medo de viver. Quisera.