Bertolt Brecht e Walter Benjamin. Quem será que ganhou essa partida?

Ultimamente, nada tem me causado mais repugnância (para não citar outros sentimentos menos nobres ainda) que aqueles que vêm com declarações do tipo
-       ai, eu não gosto de política.
-       eu não tenho tempo pra isso.
-       eu não entendo e nem quero entender.
-       acho todo político corrupto e a política uma merda.
-       eles vão continuar com as treta deles, e tão se lixando pra nós

e por aí afora. Na verdade, eu não sei se tenho mais esse gesto de repúdio interno (porque, definitivamente, eu não consigo respeitar) com que quase violento a mim mesma, pela minha impotência em conscientizar automaticamente a criatura, ou se a ojeriza beira um pouco de piedade mesmo. Piedade, pois a ignorância de uma pessoa que diz não querer saber de política vai além do imaginado – ela não ignora apenas o que está acontecendo no seu contexto geográfico , econômico e geopolítico, mas fatos como:

* A comida que ela escolhe no supermercado ou a fast-food que ela frequenta tem a ver com política. O tênis e a calça jeans que veste se efetivam na política, bem como as marcas que lhe conferem o status. O fato de ter saído turistar ou morar fora do país só é possível graças à política; a moeda que usa ou deixa de usar; seus hábitos de consumo; sua possibilidade (ou não) de escolaridade; o lugar que trabalha e suas dadas condições, os direitos que tem (ou perde), ser homem ou mulher, o filho que ainda vai nascer – Tudo isso é política. Tudo. É tão óbvio e por isso tão lamentável o fato de as pessoas não darem importância a uma das molas propulsoras mais determinantes de sua vida (senão “a”). Porque eu teria muita vergonha de ostentar um diploma superior e não ser politizada. Mas, acho que sentiria ainda mais vergonha de dar alguma dessas declarações colocadas acima, ou piores que já ouvi, e ter estudado graças a políticas que permitiram isso; ter desfrutado da Europa ou Austrália graças a políticas que permitiram isso; comprado carro, apartamento e todos aqueles bens tão essenciais na conjuntura da classe média contemporânea, mas daí a simplesmente se nominar a-político. E não estou falando nem dos "coxinhas", reacionários, que sentem ameaçados os privilégios, ou do pobre de direita que acha que é elite – embora perceba que os primeiros defendem seus interesses, e os segundos acreditam piamente que integram os primeiros. Tá aí uma turma que andou de avião pela primeira vez, foi fazer compras em Miami, desfrutou das praias do Caribe e tem cartão de crédito com cinco vezes a própria renda, mas é incapaz de pensar politicamente. Eu gostaria muito de dar um sacode nessa galera e fazê-los entender que, absolutamente, tudo que nos cerca é político, desde o par de meias que se veste (e que possivelmente foi produzido na China) até o computador pelo qual lê, agora, esse texto (sem mencionar a própria educação, que lhe permitiu o processo alfabetizatório). Mas, como fazer alguém entender que as mídias o conduziram exatamente para onde queriam, a fazendo crer que entende em absoluto de política, quando ela sequer sabe que formar opinião (de preferência, por um gesto autônomo) também é um ato político? E que a opinião pública (midiática) é uma grande desencentivadora dessa autonomia? Como antever um país melhor quando o proletariado não se sente classe operária porque pode presentear o filho com uma moto aos 16 anos (e não sabe que até isso se trata de política)? Como já não é possível separar a verdadeira política (não vou criar nota de rodapé sobre isso, apenas pincelar que essa palavra deriva da pólis grega) da economia (do grego oikos, se quiser saber mais), que ao menos o esclarecimento de um sujeito é capaz de fazê-lo, pouco a pouco, atuar pela democracia? Pois ser cidadão é diferente de exercer cidadania. Mas todos esses conceitos se confundem por desmazelo, má vontade, preguiça. Nem é preciso ir estudar a fundo a História ou a Sociologia (apesar que seria bem recomendável), bastaria ser mais curioso, largar um pouco essa cultura (intencional politicamente) tecnicista onde é preciso ser especialista naquela frase daquele parágrafo daquele autor, e não saber de mais nada. “Isso não é da minha área”. Dói na alma ouvir isso. Dói ver que, de novo, uma pouca minoria que buscou se politizar está acompanhando os movimentos desse imenso tabuleiro de xadrez com atenção – e exatamente assim, com dois lados, peças brancas e pretas. Reis, bispos e cavalos. A única diferença é que nesse jogo, peão só tem de um lado, e eles não parecem muito infelizes em seres devorados.
Por um povo politizado. Esteja dentro ou fora do Brasil, se você nasceu aqui, seu aporte político e histórico é esse. Nos envergonhe menos enquanto povo. Vá tomar consciência política. Please*.


P.S.*: O fato de você procurar saber inglês também é um ato/objeto político.
P.S.**: O atual momento político brasileiro consagra um mar além de "coxinhas" e "petralhas".