Para que tantos brincos, tantas pulseiras? Não é a tua mesma condição de cigana que te impele sempre a deixar tudo para trás? Tantos vestidos de rodado exuberante; tantas pinturas para ocultar o teu verdadeiro rosto, bem mais bonito sem tanta indiscrição... E não é a tua condição de cigana que te faz zarpar pelos mares? Espírito aventureiro de olhar risonho... Para que tantos sapatos se te satisfaz é descalça, em contato com o chão, com a terra e com o sal? Para que tantas contas se o teu terço não tem prece? E, dos homens... ah, os homens! Então não gostas que te encham de bajulações à alma, de oferendas e presentes, jurando-te ser tu, então, vossa única amada? Acaso verteu amor tu, algum dia, a um deles sequer, ou apenas trocou-se em momentos que pra ti não valeram nada, por uma joia ou um regalo? E acaso, lembras, cigana marota, que o único que amou foi por ti mesma desprezado por não saber retribuir tal amor como tu o querias? Brinquedos da tua vaidade...

Vais, cigana, ainda tens muito o que aprender com teu orgulho, com o uso do teu corpo belo, com a indiferença de teu coração pelos que não são tão vistosos e desejados como tu na Terra; com o próprio balanço de teus cabelos. Vais, e aprendes com teus soluços a mirar um ponto firme com teus olhos profundos; vais, cigana, que mais do teu sangue sagrado precisa jorrar até que cesse toda a dor que causastes e tua própria, imensa, ferida.