Essa foto foi tirada quinta-feira passada – 13/10, durante uma roda de conversa sobre cultura do estupro no CED/UFSC, com alunas do curso de pedagogia. 

    w Iris, fale um pouco de você.
Eu nasci em Araranguá, no ano de 1975.
Meu pai foi operário, hoje é aposentado, e minha mãe, dona de casa. Eu e minhas irmãs estudamos sempre em escolas públicas, porém, fizemos faculdades em universidades privadas. Thais é formada em Letras, Cintia em História e eu em Direito e, em breve (#sqn), em Filosofia.
Em 2002, alguns meses depois de formada, decidi morar em Florianópolis, o que eram sonhos antigos: morar sozinha e morar em Florianópolis. Juntei um dinheirinho e paguei adiantado o aluguel de um apartamento por seis meses.  E estabeleci que se as coisas não se arranjassem em 6 meses, voltaria para Araranguá.
No primeiro mês, distribuí 80 currículos em escritórios de advocacia de Florianópolis para trabalhar como estagiária, já que ainda não tinha passado na OAB. Sem sucesso: nunca fui chamada para nenhum deles. Então uma amiga de uma amiga falou sobre uma vaga para trabalho temporário no aeroporto, que foi onde conheci o Erico, meu companheiro.
Em 2006, passei na OAB e comecei a advogar.
Em 2012, comecei a cursar Filosofia na UFSC.
Sempre fui muito crítica – herança dos tempos de adolescência em que participei da Pastoral da Juventude, espaço que foi o responsável por plantar a semente da criticidade em mim, eu acho. Porém, o curso de Filosofia e estudar em uma universidade pública foram responsáveis por uma grande mudança de paradigma na minha vida. Posso dizer que o curso de filosofia foi responsável por uma grande mudança “cultural” na minha cabeça. Muitos conceitos e pré-conceitos caíram por terra, e hoje restam poucas coisas das quais eu posso dizer que acredito. É uma desconstrução e construção diária, num eterno devir, como diria Nietzsche.
(Incrível, Iris, esse processo de desconstrução e construção que você menciona foi identificado por mim também, que fico embasbacada com a quantidade de formas que aprendi a ver, rever e “desver” as coisas. E fiquei muito admirada com a sua história! Dá vontade de saber mais...).

w Atualmente, quais as suas maiores inquietudes (enquanto mulher, profissional e cidadã brasileira)? 
A minha maior inquietação é a apatia das pessoas.
Enquanto mulher e profissional, perceber que a imensa maioria das mulheres não percebe ou não quer perceber as violências nas quais está inserida, e o quanto essas violências as impedem de ter uma vida mais plena e mais digna. Fico bem assustada pois essa apatia parece ser confortável para algumas mulheres, tipo um alento das violências que sofrem.
Enquanto cidadã, me incomoda significativamente as pessoas não perceberem o quanto estão imersas pela mídia, pela publicidade, pela política, pela religião, em mundos artificiais e que não são condizentes com a realidade nua e crua. E quanto dessa imersão e, via de consequência, a apatia resultante dela, atinge a todos, pois não se envolver, não fazer crítica e não participar da sociedade tem reflexos em todos os setores da sociedade e para todos os sujeitos.

w Você participa do Coletivo Feminista Hepátia de Alexandria, do curso de Filosofia da UFSC.  Como você avalia a questão do gênero no espaço filosófico? 
O coletivo surgiu justamente por causa da necessidade de discutir as questões do gênero no espaço filosófico, pois o curso de Filosofia da UFSC, pelo menos desde que estou cursando, não abre essa discussão. Poucos professores abordam, tanto a contribuição de mulheres filósofas para a filosofia, quanto as questões de gênero em si (será que é porque Kant disse que não existe a coisa em si?). Como se o processo de calar as mulheres ao longo da história não tivesse nenhuma importância do ponto de vista filosófico. De forma que os cursos de filosofia precisam urgentemente fazer esse resgate e dar voz às filósofas mulheres que foram invisibilizadas pela academia e pela história.  Passar a discutir o porquê de as questões de gênero terem sido omitidas pela academia durante tanto tempo e discutir filosoficamente o porquê dessa omissão. 
(Eu diria que as mulheres filósofas ainda não são efetivamente visibilizadas na academia e na história; me pergunto quanto tempo levará até que o que for dito por uma mulher terá o mesmo peso que o mais babaca dos homens).

w Seu trabalho na advocacia envolve diretamente o atendimento a mulheres que sofrem/ sofreram as mais variadas formas de abusos. Como você aprendeu a se posicionar e a lidar com isso ao longo do tempo e como conjuga sua própria atuação perante tais problemas?
O trabalho com direito de família traz ao escritório um número muito maior de mulheres do que de homens. E os relatos dessas mulheres raramente não envolvem denúncia de violências, de abusos e de assédios. E, analisando esses relacionamentos, poucos não se classificariam como relacionamentos abusivos. Violências configuradas nas mais diferentes formas, desde violência física, que é a mais evidente, até violências psicológicas e patrimoniais. Nas conversas que venho apresentando por aí, faço a conceituação dessas violências.
No começo, não foi fácil. Eu tinha vontade de abraçá-las e chorar junto. Levar pra minha casa e dizer: tu nunca mais vai precisar olhar na cara desse sujeito. Mas não dava pra fazer isso. Então trabalhei, na minha cabeça, uma forma de manter uma distância que fosse razoável entre não me envolver emocionalmente, mas também não ficar indiferente, porque caso a cliente sinta que você está indiferente às dores que ela está te relatando, isso também é problemático. Ela pode se sentir insegura e o trabalho restar prejudicado. É aquela coisa da justa medida que aprendemos na filosofia: não se envolver e não ficar indiferente. Mas, aqui também tenho uma contribuição do feminismo que é a Sororidade – a solidariedade minha de mulher com essa outra mulher, –  porque ela está em frente a uma advogada e ela tem esperança de que isso faça diferença para o caso dela, do que se ela tivesse “escolhido” um advogado homem.
No entanto, fazer esse trabalho de atendimento na esfera jurídica não estava sendo suficiente, parecia que faltava alguma coisa e que eu podia fazer algo a mais. Então, um fatídico dia, fui atender uma moça, marcamos de nos encontrar no fórum. Quando cheguei e olhei para a mulher, não tive como desviar os olhos da sua orelha cortada. Perguntei o que ela queria e ela disse que queria se separar do marido porque, nessa última briga, ele havia cortado a ponta da orelha dela com um facão. Eu imediatamente pensei: preciso fazer algo a mais. Então, surgiu a ideia elaborar uns trabalhos sobre violência contra as mulheres, relacionamentos abusivos e cultura do estupro, que venho apresentando em alguns espaços onde sou chamada.
Isso tem me ajudado a não me sentir tão impotente por estar tratando do problema só na ponta final, mas ter esperança de que falar sobre violências ajuda as mulheres que me ouvem a identificar qual a violência em que estão inseridas e eliminar esse contexto de suas vidas.

w Com base em sua formação em Direito, o que a levou à filosofia?
No curso de Direito que fiz, tivemos duas disciplinas de Filosofia que, perto das que são ministradas pelo Professor Delamar aqui na UFSC, dá até uma certa vergonha alheia. Eu estava em busca de duas coisas quando ingressei no curso de filosofia: uma, era aprofundar uns conceitos que me eram muito superficiais, como justiça, por exemplo. Outra coisa, era direcionar as leituras: eu andava lendo qualquer coisa e precisava de uma direção na minha leitura, o que foi um grande engano, porque cheguei à conclusão de que vou ter que nascer outras vezes para ler tudo o que o curso de filosofia me apresentou.

w Como você chegou ao feminismo?
Desde que me conheço por gente faço essa pergunta: Por que homem pode e mulher não? Fui criada com muitos primos homens e era sempre aquela coisa: eles podiam fazer – tal coisa - eu não. Por quê? Porque eu era menina, porque era mocinha, porque era mulher. Então, o questionamento por igualdade esteve presente desde muito cedo.
Mas duas coisas foram o estalo que eu precisava para chegar ao feminismo. A primeira foi a leitura do livro “O Mito da Beleza”, da Naomi Wolf. E a segunda foi participar da primeira “Marcha das Vadias”, aqui em Florianópolis. Foi libertador e instigante. Passei a perguntar por que as mulheres estavam afirmando naquelas marchas pelo mundo todo que “o machismo mata” e, somada a minha prática profissional com mulheres e suas violências cotidianas, tudo passou a fazer sentido e o feminismo passou a dar algumas respostas aos questionamentos que eu buscava.

w  Faça-me uma pergunta, sobre qualquer assunto (ela será respondida na minha próxima entrevista).
Gostaria que você perguntasse ao entrevistado qual livro ou autor está lendo e por quê. (Perguntei depois a ela o que lia, e respondeu-me que no momento debruçava-se sobre as obras de Paulo Freire ;D)

 Rapidinha:
- A vida me ensinou que... É preciso ouvir, mas é preciso também falar.
- Com xs amigxs, a conversa gira em torno de... Feminismos, empoderamento de mulheres e aquela clássica consulta (jurídica). Não me furto a responder, mas fico muito chateada quando percebo que pessoas ficam meses e até anos sem lembrar de mim, mas que quando tem um “problema” jurídico lembram imediatamente do meu telefone.  
- Sou muito boa em... Criticar. Tudo.
- Eu tenho vontade de aprender... Ah, essa é cruel, porque tenho duas frustações na minha vida: não ter aprendido a tocar violão e a falar inglês.
- A humanidade precisa falar mais sobre... A regra de ouro. Não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem a si. E fazer aos outros o que gostaria que fizessem a si. Penso que teríamos 70% dos problemas resolvidos.
- Eu gostaria de... Conhecer todo o mundo e todas as pessoas que moram nele. Só isso.