Antes de morar sozinha, eu já tinha esquematizado tudo o que queria para morar bem. Já havia decidido o porcelanato, o gesso, o led do meu apartamento. As pastilhas do banheiro, a cuba da pia – tudo estava orçado nos mínimos detalhes. Eu já sabia que minha cozinha seria de laca, minha geladeira colorida e meu sofá, suede. E, sabe, tem coisas que eu ainda desejo. Mas não com aquela ingenuidade capitalista de antes. Levar uma vida de estudante tem me ensinado algumas lições.
A primeira delas é que eu apostei muito por muito pouco. Quando colocamos no papel todo o tempo e dinheiro que dedicamos de nossas vidas à realização de um único sonho, paralisa observar quanta vida é catalisada em um objetivo solitário. Que talvez nem vá trazer tanta realização assim. E de quantos medos, depois, ficamos reféns? Medo de ser demitido, de não estar sempre a ganhar um bom salário, do imóvel desvalorizar... Medo de ser assaltado, de a segurança da casa não estar à altura, da “inveja” dos parentes. E se pensar no préstimo da manutenção? Quanto custam os produtos de limpeza, um bom jardineiro, os retoques prediais que toda construção exige periodicamente? Eu me percebi muito mais livre quando abri mão do sonho de uma casa (“própria”) e passei a apostar mais no meu potencial de desenvolver um lar onde quer que eu estivesse. Isso me liberou de todo esse ônus do capital e da propriedade privada, além da própria cobrança social, que vem disfarçada de preocupação com o meu sumo bem. Posso estar aqui ou noutro canto do país, quiçá do mundo, quando carrego comigo essa mobilidade de não estar enraizada. Ainda que, para uma canceriana, a ausência de raízes seja um tanto problemática, me desvendar como uma nômade de mim mesma tem me permitido testificar algumas vitórias. São vitórias sobre a minha própria pessoa. Sobre as crenças que carreguei por muitos anos.
Eu constatei que aquela geladeira específica ou aquela máquina de lavar não vão me fazer, necessariamente, feliz. Embora seja gostoso e sempre um mérito desfrutar das nossas conquistas materiais, não é a elas que recorremos quando mais nos apertam os sapatos. Eu percebi que um bom colchão, um chuveiro acolhedor e uma poltrona aconchegante são os maiores prêmios após uma tarde cansativa. E que um tapete pelúcia custa pouco se comparado a todo luxo que buscamos em tanta coisa inútil, que só atende à vaidade.
Uma cozinha linda e modulada é sempre agradável aos olhos, mas o que agrada ao paladar nem sempre é feito em uma Le Creuset. E que abandonar uma louça na pia pode ter um valor que ninguém que tem máquina de lavar louças poderá compreender um dia. Às vezes, o mais estimulante mesmo é ter um espaço pequeno que respalde a sua singularidade, seus mimos e seu si, te convidando a ficar mais cinco minutinhos na cama, mesmo que ao redor dela o mundo pareça estar de ponta cabeça.

Foi um pouco sofrido, mas depois meio óbvio ver que ter o meu apê não era o mais importante da vida. Para isso eu precisei me desapegar dessa ideia que me foi vendida a vida inteira como um ideal de eudaimonia. Pode ser, ainda, que um dia eu volte a querer muito, a querer demais um cantinho só meu, pra fincar raiz e ficar de vez. Mas, enquanto esse dia não chega, uma kitnet em Florianópolis ou um studio em Paris atendem bem a escrita que me exige pelos próximos três anos, a minha tese. Depois disso, a gente vê pra onde vai.