Eu fiquei 4 anos afastada do facebook, e voltei recentemente. Devido ao espaço de tempo – o qual aprendi muito, – estava por fora das últimos aplicativos e atualizações e, confesso, algumas me surpreenderam. Agora, por exemplo, você pode deixar o seu perfil para um herdeiro quando você morrer. A pessoa fica responsável pela sua memória na rede e só saberá que é seu herdeiro quando os algoritmos denotarem que você faleceu. Tem também a opção de excluir automaticamente a conta nas primeiras 24hs assim que o primeiro recado de luto for postado. São novidades chocantes para mim, e acredito que poucos usuários tenham coragem de apertar aquele botão (posso estar enganada). Isso lembra, inclusive, um amigo querido que vive fazendo divagações sobre as pessoas mortas que continuam na rede. Eu e ele já tivemos o cuidado mórbido de procurar a página de alguma pessoa que sabíamos que tinha morrido e ler as mensagens que os vivos deixavam lá. Vi uma notícia, uma vez, de que já estava a ser desenvolvida tecnologia para que a voz, o jeito de falar, a risada da pessoa, fossem apreendidos por um sistema, para que após seu falecimento, em momentos de saudade, os que ficaram pudessem ler algo que ela deixou postado, com a sua própria voz. Eu tenho medo de tudo isso. Mas que as pessoas morrem e deixam seus perfis para a posteridade é uma realidade, e talvez por isso o programa tenha desenvolvido uma ferramenta capaz de apagá-lo quando do acontecimento.
Outro recurso que o facebook tem agora é o de deletar tudo que se refira a seu/ sua ex assim que terminar um relacionamento. Isso eu fiquei sabendo por meio de uma amiga, pela experiência própria dela. Quando foi omitir o status, a rede já lhe enviou uma série de perguntas que tinham referência com o ex-amor: Gostaria de deletar todas as fotos em que ele está marcado? Gostaria de desmarcar todas as suas fotos no perfil dele? Gostaria de parar de segui-lo na sua linha do tempo? Em outras palavras: gostaria de fingir que essa pessoa nunca fez parte da sua vida? Acredito que esse recurso poucos acatem, pois a quantidade de pessoas com coisas antigas de ex nas redes sociais é impressionante. Você nem precisa bisbilhotar nada, a coisa está lá escancarada, esperando pra ser vista. Mas, enfim, esse também não era o tema do texto.
Ficar 4 anos afastada de redes sociais, em geral, me permitiu uma boa análise crítica e autocrítica das mesmas. Ponderei sobre o meu comportamento quando integrava o perfil dessas redes e porque sentia uma necessidade grande de mostrar minhas coisas para “o mundo”. Mundo que estava igualmente preocupado em exibir suas coisas, de modo a pouco ligar (de verdade!) para o que quer que eu compartilhasse. Essa reflexão é muito simples: não é difícil arrancar um like. Constato que a rapidez com que nos deparamos com as mais diversas informações na linha do tempo não nos faz parar e analisar realmente a postagem da outra pessoa. É tudo meio mecânico. “Nossa, fulano casou. Sério? Aquilo vivia encalhado”. Like. “Hum, beltrana vai ter neném, que legal. Tomara que pareça com o pai”. Like. “Cicrana foi pra Orlando? Mas ela tava desempregada.” Like. “Fulaninho já ta com outra periguete, aaf”. No like. Hehehe! E é assim. Imagens, declarações, textões efusivos, notícias com introduções indignadas: tudo circula muito rápido sem que tenhamos tempo verdadeiro (ou vontade... ou interesse...) para digerir. Ou vamos descendo a barra de rolagem, ou dando likes, sem mediar demais o significado daquilo para a outra pessoa, que de outro lado pode estar deslumbrada, “500 likes na minha foto... Como sou amada *-*”, ou decepcionada, “a Kelly não curtiu minha foto, aquela invejosa”, akosksokso.
Mas, ciente de tudo isso, por que, afinal, depois de tanto tempo eu voltei ao facebook? Muita gente me perguntou. E não, eu não tenho nenhuma daquelas desculpas clássicas, tipo “tem gente que eu só tenho contato ali”. Por favor! Gente importante de verdade já descobriu o telefone, a campainha. Gente que te considera pede o seu whatsapp (outra coisa que só vim a conhecer de um ano pra cá, e não sentiria remorsos em abandonar, como o facebook). Voltei para a rede social meio que acidentalmente, pois mantinha um perfil apenas para falar com a minha família, porém adicionei algumas amigas daqui para trocar figurinha e, quando vi, gente demais começou a adicionar o meu “fake”. Era um perfil sem nome, sem foto, sem timeline, cuja única atividade era o chat com uma única pessoa e alguns grupos de utilidades. O bom de tudo isso foi que, mesmo assumindo o perfil, mantive os mesmos hábitos anteriores (ou quase), e para mim é muito difícil postar qualquer coisa sem sentir vontade de apagar imediatamente. Dá uma sensação de exposição quase semelhante à que eu tinha quando precisava falar pra turma toda na terceira série. Já não me sinto à vontade. Me forcei algumas vezes a postar textinhos toscos, como todo mundo, só pra me sentir mais normal. Estar no facebook de novo é meio que uma aberração pra mim. É tipo eu me senti a vida inteira nesse planeta: deslocada. Mas é um bom exercício de observação, sobretudo, porque a gente vê como mesmo não querendo se expor, está a fazer isso integralmente. E talvez esse seja um caminho sem volta, dada a velocidade e quantidade de dados com os quais somos surpreendidos o tempo todo, e a falta de controle sobre eles depois que são divulgados.
Minha primeira providência assim que retomei um perfil foi classificar para “somente eu” as minhas curtidas. Ninguém precisa saber as páginas que eu acompanho, os interesses que tenho. Até porque, pelas curtidas, você descobre o colégio que o filho da pessoa estuda; os barzinhos que ela frequenta; as bandas que ela curte; as tretas que ela faz. Pelas curtidas, faço avaliações morais das pessoas. E eu não ia querer dar isso de bandeja para alguém que me stalkeia, não é mesmo? Em seguida, classifiquei as amizades em grupos, pois mesmo que eu não pretenda publicar nada que me exponha, caso isso venha a acontecer, posso selecionar os grupos que eu não me importo que vejam (e os que me importo). Da mesma maneira, nas publicações que me marcarem (depois que eu aprovar, é claro) – pois tem vezes que você não quer se expor, mas uma criatura conhecida sua vai lá e coloca fotos com você (bem feio) no público. (Eu sinceramente ainda acho que essas pessoas que descarregam na internet quase tudo que fazem ainda precisam de estudo. Mas, né. São universos, e sobre universos, nem a física quântica está muito desenvolvida).
Óbvio que ter a rede social é mais fácil para observar alguns fenômenos de massa, e perceber o quanto eu mesma faço parte deles. Em apenas dois meses, já me deparei com estranhos me adicionando – onde me acharam, por que cismaram, onde vivem? Não sei. Além dos seres estranhos que não sei onde habitam, também me add pessoas que me conheceram na infância, ou que passam cotidianamente por mim e não me cumprimentam nem olham na minha cara. Em apenas dois meses, também, já tive acessos de deletar o perfil, simplesmente porque me incomodava o fato de ele estar lá. Pelo menos eu sei que não terei culpa alguma no dia em que o deletar para sempre. Outra coisa que fiz, foi parar de seguir as publicações daqueles contatos que só postam coisas sobre futebol, religião, piadinhas, ou coisas toscas em geral. Já acho difícil encontrar bons amigos na vida real, sem que precise estar descendo de nível para manter uma conversação minimamente inteligente. Amizade para mim no facebook, então, é só mesmo uma “adição”: a pessoa não vai ficar sabendo da minha vida pela rede e nem eu faço questão de saber da dela. E, finalmente, a desculpa mais usada, “tem pessoas que só mantenho contato por aqui”, quando se trata de colegas de escola, de faculdade, ex-vizinhos, pessoas que troquei um oi 10 anos atrás, ou qualquer coisa do gênero, não me acrescentam. E nem as que troquei um oi semana passada; a todos os pseudo conhecidos que me pedem o face, digo que “não tenho”. Continuo não tendo. Sempre fui seletiva demais na minha vida, com a qualidade das pessoas que deixo entrar nela, por que na internet eu seria diferente? Obviamente que o facebook, mesmo assim, poderá traçar os meus hábitos de consumo, mas isso não preciso mais que o Google para fazer. No dia a dia, em quase tudo que precisa a gente dá um search ali. Inclusive, as minhas saídas de som e de vídeo estão cobertas com fita crepe, muito obrigada.
Por fim, concluo esse texto refletindo sobre o nível de exposição dos indivíduos e o quanto eles se sentem importantes se expondo. O problema aqui não está em, propriamente, se expor, pois tem vezes que a gente tá feliz mesmo e quer dividir isso com as pessoas que gosta e que, de certa forma, fizeram parte da nossa conquista. O problema está na proporção que isso toma. Para quem vamos dirigir nossa mensagem? Devemos colocar num outdoor? É mesmo necessário divulgar que fiz isso? Acredito que poucos se fazem essas perguntas. E o pior é que, às vezes, não é preciso trocar mais do que duas ou três palavras para constatar o quanto algumas pessoas se sentem realmente validadas pelas suas exposições na rede. Perceber que elas estão se importando DE VERDADE se um fulaninho (por ex., um crush) curtiu a foto dela, ou se curtiu a de outra menina. Se desejaram feliz aniversário, ou feliz dia do homem... Outras vezes, a pessoa está super consciente do que está fazendo e posta algo até como uma suposta superioridade (Olha eu aqui, Nova Iorque, chuuupaaaa), mas não percebe o quanto deixa de aproveitar a experiência preocupada que está em sair perfeita na foto para “os outros”; para ser curtida, ou apreciada, ou invejada por pessoas que ela nem gosta, e ou nem gostam dela. É muito assustador tudo isso. A dimensão que a exposição toma para que a criatura se sinta, se convença de que é algo: é uma (necessidade de) autoafirmação permanente.
Olha, eu viajo, eu posso, benhê. Olha meu relacionamento, recebi flores, somos tão felizes. (Se não assumiu no face, não é namoro, hem!). Olha eu descolado estudando na grama, veja como sou cult. Olha o mozão cozinhando pra mim, hoje ele ta fazendo sushi. Olha esse livro que eu to lendo, ignoro totalmente que ele precisa de uma leitura histórica, mas vou postar uma resenha. Assistam no meu canal no youtube. Olha ex, como eu to feliz: ele é mais performático que você e o carro dele é melhor que o seu. Olhem, todos, como eu sou original: bato selfie com DSLR. Olha a amante curtindo a foto do casal e comentando: Lindoos! Etc. Etc. Etc. ... Podia colocar tantos exemplos, mas encerro apenas com uma singela questão: existe vida pós-rede social? O que vão inventar depois que esse formato hedonista já tiver se esgotado (pois, ele já está), para satisfazermos nossas carências e as necessidades que esses mesmos mercados criaram em nós? Com que inflação do ego procuraremos suprir nossos vácuos? Fica a dúvida.

(Se eu descobrir, eu posto).