Eu não sou mãe. E talvez esse seja o maior argumento de qualquer uma delas para desfiar contra mim: você não pode falar sobre isso!!!!! (Acrescente drama a gosto). O fato de eu não ser mãe talvez seja o que me faça ser o mais racional possível sobre o assunto e consiga me distanciar emocionalmente para emitir opiniões coerentes, e sem o peso da empiria. E uma delas vem acerca do movimento childfree. Eu sou a favor dele, e acho que o seria mesmo que tivesse uma criança. Pois, antes de ver como pai e mãe, é importante ver como nossa sociedade se tornou uma sociedade de pais e mães. E tudo nela precisa atender a esse imperativo. Logo, aqueles casais que optaram por não ter filhos, ou não podem tê-los, serão sempre questionados sobre isso, mesmo que não diretamente. E quem é solteiro e gosta de ambientes sossegados, livre da presença de crianças, também não pode ter esse direito atendido – será taxado de “preconceituoso”. Eu não compreendo porque parece tão difícil a alguns pais e mães perceberem que existem ambientes que simplesmente não são adequados às suas crias. E também que os proprietários dos mais diversos estabelecimentos têm o direito de discriminar o seu público-alvo, podendo indesejar menores de idade nesses ambientes.

Soube do caso de alguma indignação gerada por conta de barrarem uma criança em um restaurante qualquer. Todos os comentários contrários mencionavam os “a favor” como odiadores-molestadores de crianças... Pessoas sem coração, que fariam mal à raça, mi mi mi. Gente, eu não odeio crianças, ainda que não suporte alguns comportamentos delas. Mas, tenho noção que até esses comportamentos foram alimentados, em algum momento, pelo consentimento dos pais. Logo, o que me parece irracional é essa argumentação cheia de paixão de que criança pode tudo, em qualquer lugar, sou pai, sou mãe e irei defendê-lo! Apenas observe as últimas duas gerações para ter um vislumbre de onde isso vai nos levar. O movimento childfree não só serve para evitar que os filhos sejam muito mimados, mas também para observar como são mimados os próprios pais. Em sua maioria, tornaram-se incapazes de ver que não se trata de uma questão pessoal contra seu filho ou filha, em particular, e sequer uma medida “anti-crianças”, mas apenas uma tentativa de desnaturalizar a ideia de que uma sociedade de pais e mães (diga-se de passagem, permissivos) é o melhor que temos a oferecer às novas gerações. Sou super a favor do movimento childfree e gostaria muito que ele se estendesse. Adoraria poder ir a um supermercado childfree (embora saiba quão utópico é meu desejo, uma vez que crianças são as responsáveis por boa percentagem do consumo de supermercados e dos hábitos de consumo das famílias, e é uma pena os pais acharem supermercados apropriados aos seus filhos). Ou aquela sessão de cinema, cujo filme é para crianças, mas a mensagem é para adultos (tipo “Divertidamente”). Sessões separadas já seria bem satisfatório. O engraçado é que existem ambientes onde dificilmente se encontra com crianças, como as cafeterias, por exemplo. Ou o público em si não é mesmo pai e ou mãe, ou simplesmente deu-se conta que o ambiente não é para os pimpolhos (será que os pais e mães cults já sabem das coisas?). Enfim. É uma questão para se pensar. Até onde um estabelecimento impedir crianças atrapalhará o desenvolvimento cognitivo e a socialização delas... ou o quanto isso mexerá com o ego dos pais?