Claro que eu gosto quando você troca o caminho e anda um pouco mais, só pra passar mais tempo comigo. E eu nunca te contei, mas a primeira vez que você sorriu ao meu lado, eu te achei tímido e encantador. Eu gosto do teu jeito encabulado, e também curioso, sempre atento ao que está sendo dito. Na verdade, a mim, você parece sempre pensativo. Estala teus olhos muito firmes e castanhos e eu quase me perco na fala. Eu fico imaginando o teu mapa astral, porque você me soa assim, tão misterioso. Eu sei que aquela menina estava com raiva de mim por sua causa, mas que garotinha perdida pode competir com o charme da inteligência? Eu adoro quando você conta tuas coisas confuso, meio chateado consigo mesmo. E eu sei que aquele dia você mudou de lugar pra ficar assim, mais perto de mim. Afinal, eu estava tão bonita!
Me impressiona teu jeito de colocar as ideias e a tua autonomia em confabulá-las. Eu fico pensando nos teus livros espalhados, junto a notas e instrumentos de som, e se a tua bagunça é parecida com a minha. E como gosto de observar-te quando não está olhando! Foram engraçadas as vezes que um e outro se pegou a estudar, em silêncio, aquele que, então, se concentrara. Será por isso que nossos olhares sempre nos causaram desconcerto no tanto em que se encontraram? Um flerte rápido e um baixar dos olhos... Eu sentia que alguma coisa já estava nos acontecendo.
Já sei que dividir o espaço também não é o teu forte e me quedo a refletir como é pra você esse morar consigo. O interesse pelo francês e por assuntos comuns me faz acreditar que você não é, assim, tão homem da massa, como se sujeitou ao exame da minha tese... Mas me fez rir a tua declaração. Acho mesmo que, na sua idade, desfrutar em casa só da própria companhia é enaltecedor.

Eu acho que você tem princípios elevados, mas imaginar isso também me causa inquietação – contraverte tudo que eu mesma enfrentei até hoje. Fiquei sabendo que somos quase vizinhos, mas por cargas d`água, nunca compramos pão na mesma padaria (ou no mesmo horário, já que eu sou uma dorminhoca nata). Será que vamos voltar a ter aula pra você me trazer em casa de novo? Caminhantes na noite, querendo estender a conversa e estugar o passo, pra evitar a despedida. Da próxima vez, me pergunte sobre o que ando lendo. Eu vou responder que é sobre voltar a acreditar em amor.