Então, de repente, você se depara com tudo o que há cerca de um ano atrás era o que você mais desejava e, tinha certeza, iria te fazer imensamente feliz! Desejos que batalhou tanto pra ver prontos, lugares que sonhara tanto conhecer, objetos que lhe tiravam o ar só de pensar – num piscar, tudo se tornou acessível e sua vida “estabilizou”. Ou, ao menos, ganhou aderência, perto das derrapadas que você dava antes, sem nem mesmo sair do lugar. Mas, aí... Já não faz sentido (se é que algum dia fez!). De repente, você ta fazendo o que sempre sonhou, com tempo livre à beça para buscar conhecimento (e autoconhecimento), tem as coisas materiais que buscou (ou viu que muitas delas nem importavam tanto assim), pode programar a viagem dos seus sonhos, cinco homens maravilhosos aos seus pés, e... Pasme! Nada disso importa. Parece que quanto mais a vida ganha sentido, mais sentido ela perde. Paradoxos mundanos. O sentido daquelas coisas cotidianas, que, na real, nunca nos comoveu. Ficamos distantes da dor de outrora, daquele medo ferino e certeiro. Quando a necessidade se escassa, a gente se pergunta o que vale a pena, afinal. Parece que sempre falta alguma coisa. Ou a gente que está sempre de olho na falta. Sonhava tão alto, realizou tão firme – o que me falta sonhar agora? Claro que se está longe de realizar todas as imaginações soluçantes, mas como sofre uma alma não ambiciosa! Se a simplicidade é a minha ambição.

Quanto mais obtenho, mais percebo que difícil mesmo é levar uma vida mordaz. Com desejos frugais, locais, minimalistas. Aquelas coisas quase bregas tipo dormir bastante (mas isso eu faço!) e acordar com o som dos passarinhos. Testemunhar o mato molhado e sentir o cheiro que levanta da terra logo após uma noite de chuvarada. Afastar-se de (quase) tudo que é civilizado e que já somos tão condicionados dependentes! Quem dera não me faltasse nada... Quando estamos com todas as cartas do baralho na mão... Sentimos falta só dos dedos.