Um ano se passou e acho que já me sinto confortável em transpor algumas divagações acerca de estar cursando um doutorado em uma das melhores universidades do país. A bem da verdade, com todas as informações que me chegaram nos últimos tempos, sempre me pego muito surpresa por ter sido admitida – não por constatar incompetência de minha parte; ao contrário, acho que poderia ter passado até melhor colocada. Mas, pelo protecionismo que observo aqui e em outros lugares com os “prata da casa”, e que me faz, ainda, reverberar mil pensamentos. Analisando o último processo seletivo, li na lista uma percentagem alta de gente que já é daqui, já conhece o corpo docente, as regras do programa e, no mínimo, tem acesso a algumas pessoas que já passaram pelo processo e podem tranquilizá-lo (a) acerca do mesmo. Tudo isso é velado a quem é de fora e a gente se sente dando passos no escuro. Não se sabe quais critérios são avaliados em cada etapa, o que vale quanto, por quê alguém que sequer defendeu a dissertação passa melhor que quem já está bem mais adiantado, entretanto, titulou-se em outro lugar. Mas, enfim, não é disso que quero falar.
Viver a academia não é uma tarefa fácil, sobretudo porque ela serve também como uma grande dilapidadora de egos. Como nunca entrei nesses joguinhos, mal presto atenção se existe alguma competição direta comigo, embora observe que exista, em geral, uma vontade muito grande em alguns acadêmicos e em algumas acadêmicas, em serem notados como extraordinários, geniais, grandiosos, afinal, eles não têm nenhuma dúvida acerca disso. Eu tenho, não só sobre eles, mas sobre mim também, e sempre conflagro esses embates como showzinhos não peremptórios. Estão, muitos e muitas, tão cegos sobre suas posições na academia, que não veem o quanto soam ridículos aos poucos desprovidos de tal autossugestão.
Uma coisa que senti com forte baque no programa em que estou agora foi a formatação machista e a ausência de percepção da mesma, desde a graduação. Para quem vem de fora, e é mulher, é muito clara aqui a posição da filosofia como falocêntrica, desde seu discurso até a maneira como as professoras precisam portar-se para ganhar alguma visibilidade no programa. Ainda que a filosofia seja tradicionalmente machista, é quase humilhante pensar que tantas mulheres incríveis no curso precisem se submeter ao aval de um homem, sendo que este, muitas das vezes, tem pensamento medíocre-formatado-padrão, mas mesmo assim é melhor reconhecido que elas. Observei isso muito em sala de aula, especialmente nas (muitas) vezes em que preferi me calar – tinha aulas em que dois egos homens seguiam discutindo enfastiosamente uma questão que, em minha mente, já estava resolvida no segundo round. Quase uma hora depois, os via chegarem à minha mesma conclusão, que eu não havia expressado, mas que dispensava toda aquela eloquência tediosa vertida em espetáculo ao restante da sala. Isso quando não davam o assunto por encerrado, por se esgotarem de argumentos e contra-argumentos e não se ouvirem verdadeiramente, tenazes que estavam em defender sua opinião.
Outra constatação mais pujante que o doutorado me trouxe foi sobre como, na academia, é modinha ser ateu. Torna-se ignominioso citar o divino a não ser para duvidá-lo, ou então, como o caminho de simples e ignorantes. Eu acho um tanto ridículo e um tanto escarnecedor termos a pretensão de nos acharmos as coisinhas mais preciosas e inteligentes desse universo. Mas sempre respeitei qualquer posição ateia, sendo esta minha primeira manifestação em contrário, justamente por ter sentido como o esforço para se encaixar, se dizer cientista e se mostrar acima do bem e do mal produz toda espécie de vitupério. Todavia, não deixam de ser divertidas essas performances de pertencimento ao observador atento.
Algo que me incomodou (e está incomodando), sobremaneira, no meu doutorado, em particular, é a ausência de uma demarcação com os mestrandos, como se tudo fosse uma coisa só. Veja, um aluno de doutorado pode dar aula a um aluno de mestrado, conforme o tempo de cada um. Colocar um aluno do quarto ano do doutorado com um do primeiro ano do mestrado, por exemplo, é um insulto ao primeiro, uma vez que no ano seguinte este pode ser professor daquele. Há uma incipiência muito grande em distribuir as turmas uniformemente, como se todos gozassem da mesma posição intelectual – quem vive da academia sabe que um ou dois anos são cruciais para nosso amadurecimento intelectivo. Partindo disso, observei que se situar como doutoranda tornou-se um terreno a tatear, indo aos poucos, para saber o que significava, exatamente, isso. Deveríamos ter um estágio docência para dar aula ao mestrado; distribuir nos quatro anos que nos são disponíveis as nossas ocupações entre a tese, eventos e nossa preparação (inclusive, psicológica) para o sanduíche, mas acabamos atropelados com a correria dos mestrandos, que possuem apenas dois anos para realizar tudo. E depois, ninguém entende porque se fala tanto em depressão na pós-graduação. Quando, muitas vezes, o aluno é lá “jogado”, sem ter nenhum tipo de assistência emocional.

Apesar das queixas, estou muito realizada com essa fase da minha vida. Quando é possível examinar tudo isso sem se inserir, tal qual espectador, mas sem expressar na pele as tensões nervosas, preconceitos e angústias que envolvem um doutoramento – ou seja, mantendo-se minimamente equilibrado além dos deveres estudantis, – é possível encontrar um grande prazer e fruir cada passo com a maturidade de alguém que sabe que a academia deve ser apenas um meio, e não um fim. Essa fala foi emanada por uma amiga que admiro muito, mas me abriu os olhos sobre como o sonho de ser uma professora universitária estava me ofuscando em todas as outras áreas em que sempre brilhei, como a literatura, o audiovisual e até mesmo minha vontade antiga de ser uma palestrante. A gente percebe que veio nesse mundo para muito mais, mas só caso se permita interagir com essa verdade. Do contrário, é arrastada pela manada desesperada que persegue título atrás de título por falta de coragem ou de opção. Coragem para arriscar mais, viver outras coisas. Opção, porque já faz tempo que ser mestre, doutor, pós-doutor não garante emprego. A academia nos confronta, desafia, esmerilha, burila, bolina, ou seja, ela fode com a gente, mas é muito recompensadora, desde que tenhamos em mente que existe vida além dela, e sempre, e muito além, e a coloquemos no lugar dela em nossa vida: o vislumbre categórico de que ela é só um caminho.