Bukowski
Gosto ainda de telefonemas, essa coisa tão cafona. Mesmo que uma ligação fora de hora, por vezes, me assuste, ela é sempre mais conivente que um grito escancarado elogioso em qualquer rede social. Como é angustiante ter tanta troca virtual com alguém, para ser descartado como se fosse um e-mail. Prefiro o leve roçar das peles. Os olhares esfuziantes na sala de aula. Ou na rua. No outro carro. Do clima que está lá, materializado, e mesmo assim não é visto por mais que os dois. Aquelas etapas do encantamento. O frenesi de pegar na mão. É quase ingênuo gostar de me sentir assim, boba, como se tivesse ainda doze anos. E vivesse em 1967 (foi esse o ano em que o sexo foi inventado, naquele poema?).
Sentimentos descartáveis me incomodam. Sensação de ser só mais uma para alguém. E de isso ser super normal. A total deflagração dos valores – valores invertidos. Porque é careta amar. Querer a entrega, o conhecer e se reconhecer no outro. O máximo que nos é permitido almejar é a monogamia em série. Que não é mais que uma autorização expressa para um tempo de uso, mas um tempo que, inadvertidamente, chegará ao fim.
Tem gente que se acha muito feliz conseguindo umas fodas via tinder. Corpos expostos como carne no açougue, a qual se come, digere e evacua em seguida. Alcunharam de autonomia (principalmente para as mulheres). Pode até ser que o desejo profundo da maioria dessas pessoas não seja se afogar em afagos rasos, mas o de desfrutar de uma relação humana forte, entretanto, a única forma com que conseguem resvalar minimamente nos prazeres desse encontro se dá por meio das ofertas trazidas pela modernidade líquida. Preservar-se para ir contra a onda, embora a favor de si mesmo, seria alvo de ataques vorazes. E costuma ser, àqueles poucos que conseguem.
Vivemos tempos efêmeros. Nada fixo, nada durável. Tudo é mutável. Não se apertam mais os nós. Ainda que, quem sabe, em essência, não sejam tão poucos os que se sintam estrangulados no vazio do superficial que dá campo agora às relações humanas. Vazio que aponta a falta pungente de algo maior. A singela confiança do olho no olho, da segurança no som da voz conhecida, a memória das células atendendo sempre ao mesmo toque: correspondência. O estar dentro e estar ao lado; as celebrações que se repetem com as mesmas pessoas; os dedos que se entrelaçam passando certezas: estímulos.
Expressar essas oralidades é, diria, um manifesto de resistência. Como uma luta em que os soldados são poucos, estão deveras espalhados e, ainda por cima, muito feridos. Mas, eles existem. Nós existimos! Estamos entre livros, cafeterias, ou a escrever esses textos; clandestinos, a observar pássaros dos bancos de praças,  enquanto sonhamos com algo quase impossível. Que alguns chamarão de estar “mal resolvido”, de não saber “se divertir sem neuras”, como se a leviandade precisasse eternamente ser justificada e considerada uma fase necessária da vida que, por vezes, se estende indefinidamente, não importando nisso ferrar com os que encontra pelo caminho e sequer têm a oportunidade de manifestar que sentem, pensam e desejam diferente. Que não nos vemos como corpos em liquidação. Temos mais a oferecer que uma imagem troféu, uma noite ardente e umas histórias pra contar tomando cerveja no bar. Até parece ambição. Mas é só um desejo sutil de humanidade.
Entretanto, no caos do mundo, nós, que não queremos algo menos que apenas físico, mas mais espiritual, humano e resistente, não estamos separados daqueles que fixam-se em prazeres mundanos, à busca de satisfações pessoais e, ainda, se dizem evoluídos. Precisamos nos miscigenar, e estamos todos largados, vivendo amores de futilidade, cujo grosso modo contemporâneo crê contemporizar sobre as necessidades animais e as vontades hedonistas, todas mal e porcamente atendidas.
Como identificar o verdadeiro em um mar de aparências, quando perdeu-se a substância? Como se achar adequado, quando tudo e todos à nossa volta nos condenam duramente? Como falar sobre isso sem o receio do olhar vexatório, como se se segredasse um crime ou um desejo muito feio?

Gosto de ter conversas profundas. Ver. Sentir. Tocar. Das experiências sinestésicas, táteis, da experimentação. Mas não com qualquer um. Não com todo mundo. Talvez com uma pessoa, que ainda não sei se existe. Que vê o mundo da mesma forma que eu. É difícil seguir acreditando em um mundo onde as pessoas não sejam descartáveis. Usáveis, reaproveitáveis, experimentáveis. Fico feliz e grata por não pertencer a essa “modernização das relações”. O preço pode ser alto, mas vale a pena, pois não suportaria viver comigo se eu pensasse assim. E quem sabe, no fundo, seja eu mesmo a “menos evoluída”. Mas prefiro acreditar na riqueza da troca humana, já que somos parte racional, parte moral e parte biológica. Para mim, a evolução precisa seguir pelos três caminhos, do que reduzir a liberdade ao artefato animal, apenas.