Às vezes, me pego pensando como estaria a minha vida se tivesse optado por estudar e morar em Pelotas. A escolha foi menos fácil do que eu previra. Quando fui fazer processo seletivo lá, já tinha lugar garantido em Floripa. Meu coração estava aqui. Até porque, em Pelotas, só vivi episódios tristes. Eu acho que não conseguiria permear aquelas calçadas com a desenvoltura de alguém que nunca teve memórias. Pelotas, por si mesma, já guarda uma aura pesada. Sentia-me sufocada com a energia daquela cidade.
Quando penso no que poderia ter sido, só consigo lembrar do que não me agradava. Os prédios antigos e cheios de história não eram do tipo que se sonha em morar. Os banheiros guardavam aquela louça marrom, usada já tantas vezes, que não se é possível medir por que número de gerações. Lembro especialmente dos arredores do departamento de filosofia. Eu passeando à noite com meu colega que foi fazer prova comigo, e passando mal. De repente, deu uma pressão forte no peito, parecia que ia explodir. Senti todo lado esquerdo formigar. Sabia que alguma coisa estava errada. Quando não aguentava mais, pedi para me levarem a uma emergência. Fomos em duas, onde a mais barata custava 200 reais. Eu tinha o dinheiro, mas não queria gastar. Sabia que não ia morrer. Resolvemos ir a um postão público, talvez o único de lá, não sei. Tinha gente pela calçada, gente pobre, de todo jeito. Me senti constrangida. Quando passei pela triagem, vi logo porque estava tão mal: minha pressão estava 14 por 9. Costuma ser 10 ou 11 por 7. Se chega a 14, estou para explodir mesmo. “Está normal”, disse a enfermeira. Normal para muitos seres humanos, não para mim. Quatorze por nove nos meu um metro e cinquenta e oito é emergência. Fico muito mal mesmo. Lembrei que havia chorado muito de tarde. Ninguém sabia disso. Podia ser emocional. O mal estar foi um dia depois da prova e, aparentemente, eu estava muito bem, para todos os efeitos. Fui a escolhida para sortear o autor que cairia no exame, e sorteei justo um dos que havia estudado mais. O texto estava todo na minha cabeça. Ainda no prédio, conheci pessoas bacanas, as quais teria ficado feliz se fossem minhas colegas. É por isso que eu me pergunto o que teria sido da minha vida caso tivesse escolhido fixar residência naquelas paragens bucólicas. Sem me deter em pensar em toda a vida que eu perderia aqui, Floripa – onde vivi e conheci tanta gente legal nesses 9 meses (uma gestação), questiono o que me teria sido acrescentado, e não subtraído, se por alguma razão meu ponteiro da bússola resolvesse pender para o prado pelotense. Os próprios professores do programa de lá – como foi difícil dizer-lhes que eu não ia. Pensei que seria fácil.
Uma coisa boa que achei em Pelotas foi o mercado público. Doces, especiarias, cafés especiais – todo raio de coisas, assim, a minha cara. Fui e voltei de lá muitas vezes naqueles sete ou oito dias. Eu e o Ítalo, meu colega, passamos tardes inteiras conversando sentados por aqueles bancos. Era quase uma rotina. Saíamos dali e íamos lanchar na Subway. Em uma semana, devo ter conhecido todos aqueles molhos. Às noites, íamos perambular até o centro, contrariando quem nos alertava o quanto seu breu podia ser perigoso. Chegamos ao cúmulo de um dia ir a um centro espírita. Acho que foi um dia depois do meu mal estar – eu sentia que podia ser espiritual. Da parte do Ítalo, ainda sofria ligeiras perturbações pelo desencarne recente e traumático da mãe. Uma menina encantadora, de sete anos, sentou ao meu lado e perguntou se o meu amigo era o meu namorado. E depois disse que me achava muito bonita e queria ser como eu quando crescesse. Seu nome era Letícia. Emprestei meu batom a ela quando fui retocar. E senti que nas voltas que o mundo dá, um dia aquela menina linda e esperta ainda ia ser minha aluna.
O mais surpreendente foi a mensagem que recebi da médium. Enquanto estudava para a prova em Floripa, eu havia anotado uma mensagem que lera em um lugar qualquer, mas que fazia meu peito vibrar de emoção, e por uma sincronicidade, fora anotada ao pé do material da prova, de modo que todo dia, ao finalizar as atividades, a frase que eu lia era a tal mensagem consoladora. Após conversar com a mulher, que me esclareceu que eu não tinha nenhum problema no miocárdio, ela revirou na pasta uns panfletos e me entregou, à guisa de quem encerra um atendimento, dois pequenos excertos de Meimei, que guardei na pequena bolsa de crochê, sem me atentar a lê-los na hora. Antes de adormecer, fui ler os versos e me deparo com a frase:

Ora em silêncio e confia em Deus, esperando pela Divina Providência, porque Deus tem Estradas, onde o mundo não tem caminhos.

A mesma que guiava meus dias intensos de estudo para a prova em Florianópolis. Aquilo me fez brotar um sorriso no peito e um nos lábios. Não podia ser coincidência. De modo que, quando ao tomar um suco com minha quase orientadora de lá, Dra. Sônia Schio, ela me mandou vir para Floripa sem culpa, e esta foi a anuência que eu precisava para ter certeza que estava tomando a decisão mais acertada. Foi um alívio ter o aval dela para a sentença que dentro de mim já se anunciava. Embora ainda faltasse um fator decisivo, que era a bolsa de estudos. Algo que eu julgava menos possível ter lá do que aqui, já que aqui eram mais de quinze bolsas, e lá, apenas duas. Mesmo assim, o improvável me assomou já no dia do resultado da prova: passei em quarto lugar e no fim da mesma tarde, o Dr. Clademir entra em contato, solicitando que eu ajuíze sobre acatar ou rejeitar a bolsa. Passaria a receber já no mês seguinte. Enquanto a UFSC, “le de boa”. Nada concreto. Como é bom hoje em dia lembrar disso e dar risada, rs. Foi um dramalhão o que vivi naqueles dias de dezembro de 2015!    

Mesmo assim, ainda que alguns dias me assole essa dúvida sobre como teria seguido a minha vida caso tivesse ido para Pelotas, não acredito que eu quisesse mesmo saber. É uma cidade histórica, mas mais parece que parou no tempo, tanto nas casas, quanto nas ruas; acho difícil imaginar levar uma vida interessante por lá, que vá além das bibliotecas e um ou outro ambiente mais moderninho. Estar em Pelotas é quase como fazer uma viagem no tempo (o que se atesta em suas feiras de rua, com artigos das décadas passadas), e até parece que algumas facilidades contemporâneas destoam – como se fosse um lugar fora do espaço-tempo. Espero não ofender ninguém que, por ventura, venha parar aqui e seja desta cidade; a bem da verdade, sempre defendo que as impressões falam mais do observador que do observado, embora com Pelotas resista um tanto em admitir isso. Tive pouco tempo para tirar conclusões, mas o suficiente para observar como uma itinerante, sem o embuste passional de quem se apega a nomes e mapas. Por fim, ainda que Pelotas não tenha entrado para a minha vida oficialmente, talvez eu deva ser grata a ela de alguma forma, pois, tal como Dom Pedro, foi em suas ruas que ensaiei os primeiros voos de independência. "Merece".