Existem pessoas que não “nos descem” desde o primeiro olhar. Nunca vou esquecer a impressão forte ao reencontrar uma conhecida depois de muitos e muitos anos: ela me fulminou com os olhos, que até senti um mal-estar. Desde esse encontro, há quase dez anos (período o qual sou obrigada a manter contato por questões de formalidades burocráticas), sempre prevaleceu um antagonismo da parte dela e, ainda que da minha também tenha alimentado no começo, há um bom tempo nossa oposição se manifesta de diferentes formas. Consigo tecer-lhe elogios, admirar com sinceridade suas conquistas, ter felicidade quando com ela, mas meu espírito se ressente da falta de reciprocidade. Quando paro para analisar fotos em que estamos juntas, consigo ver um ar de desdém e desconforto em sua face, contraposto ao meu sorriso sincero. O silêncio pesado que se sobressai quando comento das minhas conquistas (cada vez menos, pois vejo que não lhe faz bem saber), bem como o tom de medo de que eu vá invejar-lhe quando precisa me mostrar as suas – ignorando que o eco desse medo é dela, pois estou muito satisfeita com o meu caminho, e cada vez mais.
O que a experiência tem me mostrado é que quando precisamos nos confrontar com antagonismos – de ideias, de sentimentos, de pontos de vista ou, simplesmente, de comparações familiares – é preciso desenvolver um bom jogo de cintura e maturidade, de maneira a trabalhar os próprios sentimentos não tão nobres e o ego escandaloso em cada nuance.
Creio que o tempo ajuda. Mas não só ele, como o estar 100% presente na própria vida. O que EU sonho, o que EU busco, o MEU tempo, a compreensão de MIM MESMA, a paciência para realizar no MEU tempo, o comparar-me apenas com o MEU melhor... São atitudes simples que tiram o foco (e a lupa) da (suposta) felicidade dos outros. Só quando passamos a nos olhar com nossos próprios olhos – e não com o olhar alheio – podemos nos dar toda a compreensão necessária e traçar o melhor caminho para a nossa linha de chegada – sem pressa nem angústia. Consigo dizer hoje com tanta alegria que não sinto mais inveja de ninguém – e que admiro um tantão muitas pessoas! Quando vejo uma mulher deslumbrante, inteligente, bem notada e só consigo pensar: serei como ela. E luto por isso. Eu simplesmente passei a me nutrir mais de amor e parei de olhar aquelas que estão, às vezes, bem abaixo de mim, se esforçando tanto para chamar a minha atenção ao tentar provar o contrário.
É claro que sempre restam em nós emoções menos dignas, afinal somos humanos. Mas agora consigo passar sem alimentar meus antagonismos com espinafre – coisa que me emulava na juventude. Aquela testosterona da competição destrutiva. Hoje penso que, se quiserem beber do que eu sei com admiração: compartilharei com todo prazer. Se preferem ignorar-me ou tentar me superar: sua competição é com você mesma, eu estou aqui, inteirinha comigo. E se quiserem andar lado a lado comigo, ser minha amiga: bem-vinda também, será um prazer ter a sua amizade. O que não posso admitir é indiretas de competição, suposição de estar no mesmo nível que eu ou comparações comigo, vindas de pessoas com outra escolha de vida, outro histórico de base, outra concepção de MULHER, e incapazes de, se fosse o caso, disputar em pé de igualdade e condições. Eu só estou no meu caminho. E eu estou no meu caminho . E tenho tanto orgulho de mim por isso... Me movendo com graça e desenvoltura. E com cada vez mais leveza, como uma bailarina. Abocanhando os frutos doces do merecimento – linda, assim, comigo. Afinal, mereço tudo e sempre mais.

Esse texto é só pra dizer que, no meu mundo, não guardo lugar para antagonistas.