Se for parar para fazer especulações metafísicas, acho que morrer me causaria ressentimentos (canceriana que sou!). Andei a analisar meu corpo, tão doce, tão tímido; enalteci com carinho meus pés pequenos, o cheiro de xampu nos meus cabelos, meus olhos graúdos – como eu me sentiria se de uma hora pra outra tudo isso me fosse tomado, de inopinado, sem meu desejo e, pior, talvez por irresponsabilidade de uma outra pessoa? Se tal qual flor em botão, fosse colhida cedo demais, sem poder resgatar os resultados de sonhos que já estão maturando; sem poder mais abraçar aqueles que minha ternura solicita, e que me solicitam também? Em cada detalhe do carinho que vergasto por mim: desde o cuidado com que eu tiro a minha cutícula quando tenho paciência até o beijo que eu selo o zelo que tenho por aqueles que encontro; as pernas preguiçosas que eu abandono quando deito na cama pra acessar meu computador ou o recostar suave em uma boa poltrona para ler meus livros favoritos. Se de repente tudo isso me fosse privado, assim, sem nenhuma consulta, no auge da minha jovialidade mista com maturidade, se eu simplesmente precisasse me despir de mim mesma, desaviada... Eu imagino que não lidaria, assim, muito bem com isso. O que é diferente em outros momentos: um corpo já velho, cansado, com as lidas todas feitas; um corpo doente, dorido, já sangrado de tantas judiações no caminho. Mas uma vida que, ainda que não esteja a jungir vitalidade intermitentemente (é 30, não 20), parece levar com a morte certo sentimento de incredulidade. Não é uma declaração de que se sofre menos com quem parece atender ao imperativo de uma morte mais previsível, mas apenas uma desconsolação com um apego declarado ao próprio veículo carnal, que se aprendeu a amar. De qualquer forma, eu acho que morrer deve causar ressentimentos quase sempre... Pois é como ser arrancado de tudo que é conhecido sem nenhuma chance de voltar um segundo no tempo e impedir o acontecido. Se não é um rancorzinho dos que partem, é, pelo menos, dos que ficam. Desde que não sabemos lidar melhor com o acontecimento do túmulo... Transformamos em orações fúnebres toda espécie de jazigo, dos injustos demais... aos necessários.