Desde novinha, tinha um conceito em mente da mulher que queria me tornar: forte, batalhadora, bem apanhada e de oratória impecável. Discreta, fina, acessível e agradável. Sempre admirei aquelas mulheres mais clássicas, tanto nos seus modos quanto na forma de se perceberem – talvez isso explique meu atual gosto por tons nudes, brincos de pérola e maquiagem mineral. Ainda que não seja isso que defina uma mulher bem-sucedida. Pois, justamente, para ser bem-sucedida, a mulher precisa ser autêntica – e quaisquer acessórios também podem soar falsos.
Por outro lado, tem um tipo de mulher que considero distante da minha visão de sucesso: é o que eu chamo de “mulher em anexo”. É a mulher que não brilha. Que ao lado de um homem – essa mulher sempre tem um homem – torna-se um anexo apagado, embora, por vezes, comande o espetáculo do sujeito na surdina. E não é difícil identificar uma mulher em anexo. Aquela que está sempre no carona. Aquela mulher cujo marido está na quarta pós graduação, mas ela mal conseguiu terminar a faculdade (e nem se interessa em avançar). Aquela mulher que nunca foi apresentada ou nunca buscou saber do seu potencial econômico, e que desde sempre foi se enredando em dependências financeiras e afetivas. Aquela mulher que não decide o seu método contraceptivo e vai atendendo à maternidade compulsória. Que aceita um lugar secundário na própria vida. Que está sempre perua e esteticamente perfeita, mas é incapaz de compreender um livro. Que jamais frequentaria o cinema ou um bom restaurante a desfrutar apenas da singela companhia. Resumindo: ela que se enquadra perfeitamente no papel tradicional que a sociedade lhe talhou. E, nesse caso, não adianta usar branco e creme, joias discretas e a maquiagem da Sandy: eu não vou admirar. Não posso. Não consigo admirar mulher com ausência de espírito. Me parece que a capacidade de ser protagonista de si mesma é a principal característica que consigo apontar em uma mulher chamada bem-sucedida.
Porém, há hoje também uma cobrança absurda para as mulheres de que se sobressaiam em todas as áreas prescritas para elas e, ainda, que tenham atingido seu auge antes dos 30 anos – o limite da juventude. É preciso que ela estude, trabalhe, seja linda, tenha um parceiro, seja magra, boa de cama e atenda sempre aos preceitos de namorada atenciosa, esposa dedicada e mãe impecável. Talvez seja esse nível de cobrança que desmantele ao papel de “mulher em anexo”: é muito mais confortável apagar-se atrás de um homem que protagoniza a cena e depois apenas exibir os feitos “do casal” – e como condená-la? Todos e todas buscamos facilidades de vez em quando, e talvez esse caminho de se tornar um anexo seja algo meio que sem volta. Como se impor depois de tanto tempo? Como cobrar um lugar mais atuante junto a alguém que já acostumou a ver-lhe assentindo a tudo?

Para as mulheres, todos os tempos sempre foram difíceis para se auto afirmar. Quem sabe por isso seja tão oneroso traçar uma linha divisória entre mulheres bem-sucedidas e mulheres em anexo: pode ser só uma questão de opinião. (Ou de – falta de – oportunidade).