Pode estender o tapete vermelho, chamar os soldados ingleses. Pode acatar ou rejeitar os mandos e desmandos, as “narebas” e esnobices. Pode acender todas as lâmpadas da penteadeira, pode escrever na porta do closet: “Camarim”. Pode mandar buscar a coroa na Inglaterra, encomendar tecidos de seda e algodão egípcio; pode ter plumas revestindo todo o sofá. Pode chamar o táxi de São Paulo a Nova Iorque; pode entrar no melhor café de Paris num dia de chuva, pode mandar parar de chover – não me deslumbro. Não me surpreendo com caras e bocas; não me impressiono com nomes e sobrenomes; não me desmembro por forjados requintes; não me dobro por status quo. Não me inquieto por aparências fortuitas; não me incomodo em que travesseiro choras; não me desassossego em pensar nos teus manjares. Não me deslumbro, não consigo mais. As imagens do mundo já não me seduzem, as ilusões das pinturas mercantis não me cativam ou assombram, os cartões postais não mais me alucinam – embora eu me pergunte, às vezes, quem está mais alienada. Será possível fugir, então, de tudo? Viver fora do mundo e suas quimeras? Será possível, se venceu o deslumbre do outro, de repente, vencer ao próprio? Já não sei. Se acredito não me deslumbrar, não posso ainda ignorar que estou a refletir. Não me deslumbro, mas... me afeto? Não tenho o deslumbre, tampouco essa resposta. Logo, se não me ofusco, ao menos mergulho em pensamentos sombrios sobre o deslumbre, a impressão, as ilusões, a aparência, o sentido, a fantasia, o próprio mergulho... E suspiro. Não me deslumbro, me convenci.