Gostava de divagar opiniões. Trazia do mundo fatos que eu observava, ou constatava, e tratava-os com a dignidade e seriedade que julgava merecedores. Costumava fazer isso com todo apreço. Atraía comentários contrários, concordantes; delimitava argumentações precisas e, se não profundas, tampouco rasas. Mas, eu fui me cansando. Pelo menos por agora, não penso mais em trabalhar temas polêmicos e colocar minhas visões sobre eles, pois percebi que não importa mais. Não só porque eu sou minoria em uma série de pensamentos que carrego do mundo, mas também, e talvez principalmente, porque algumas coisas devem ser guardadas para as palestras, os artigos acadêmicos e alguma oportunidade que, quem sabe, ainda virá. Além de que, eu mudo muito de opinião. Pratico uma coisa nos últimos anos chamada “mente flexível”. Evito carregar convicções, pois a convicção nos fecha os ouvidos, os olhos, e nos cerra em um mundo onde só a nossa verdade importa. E é assim que são as direitas, as esquerdas (pensaram que iam ficar de fora?), os “progressistas”, os conservadores, os religiosos, e quem apregoa quase qualquer espécie de ideologia. Não são capazes de tatear por um caminho do meio. E é nessa corda bamba que venho buscando me equilibrar.
Não para tudo, é claro. Existem posições na vida que nos constituem e dificilmente nos desarraigamos delas. Mas, eu já consigo manter uma flexibilidade em relação às outras pessoas. Se para mim aquilo é bom ou não é bom, não implica que para todo mundo será assim. As pessoas têm diferentes bagagens, anseios, sonhos e percepções da realidade. Cada uma, no fim das contas, está onde deve estar. E já aceito com naturalidade que o caminho do outro é do outro. E que a crítica dele ao meu modo de ser ou receber o mundo... veja, também é dele. O que um outro ser acha positivo ou negativo em mim diz mais sobre sua própria pessoa do que da minha. E assim, também, os meus julgamentos do próximo. São as nossas mentalidades, construções culturais, gostos adquiridos, opiniões formatadas – tudo aquilo que vestiram na gente desde criancinha – que nos “determinam”. Coloquei assim, entre aspas, porque não acredito em determinação final. Tudo está sempre semi-pronto, semi acabado – tudo está sempre por terminar. Ou, todos, nesse caso. Todos e todas estão “semi” alguma coisa.
A grande vantagem de viver com essa mente flexível (ou “alargada”, diria o Kant, mas eu não queria fazer um tratado filosófico),  - mas sentindo-a de verdade, não só da boca pra fora – é que é o tipo de emprego que impinge muita paz e aceitação, uma vez que se tem a empatia para recepcionar o outro com as ideias, moldes e convicções (sim, convicções!) dele, mas sem que isso me agrida, me afete, me ofenda. Tanto não me sinto deslocada por ser diferente, inadequada por não cumprir aquela expectativa, como tiro, do que o outro me apresenta, conclusões sem juízo, que podem melhorar a minha própria experiência e me conceder um ponto de vista inexplorado sobre uma questão, mudando, inclusive, de opinião também. Ou, se percebo que a minha verdade é superior, ter a compreensão necessária para não confrontá-la, especialmente, de modo a injungi-la, pois aquele outro ser também chegou à verdade que chegou dando o melhor de si, das suas crenças e de seus conhecimentos. É como notar o quão todos nós estamos formatados por todos os lados e que, quando uns escapam da cerca mais do que outros, não é por mais capacidade, mas antes um privilégio de alguma condição que o envergou na hora acertada, quando tudo confluía para que a acolhesse. Somos todos condicionados, apenas, o molde que aprisionou alguns é mais espesso e engessado que o que curvou a outros.
Não escrevo mais sobre assuntos tão sérios por isso. Tem alguns deles que eu já não sei me posicionar, dada as revoluções que me tomaram nos últimos tempos. Mas, tem outros, os quais prefiro simplesmente estar a me omitir. Ficar vomitando minhas verdades na rede social ou, seja no meu próprio blog mesmo, não acrescentará nada à necessidade de tolerância e respeito no planeta. É uma tentativa diária, forte, por dentro, de aceitar as pessoas como elas são (mesmo que minha mente esteja fazendo caretas e volta e meia alguma esgar escape sem meu consentimento consciente), pois aquele sujeito está dando o melhor de si – e se ele é preconceituoso, racista, misógino, machista, tudo o que posso dar a ele é a minha piedade. Ele dificilmente vai mudar. Nascemos em conjunturas, como eu já disse, que nos condicionam, e levam-se algumas gerações até que comece a se instaurar alguma tímida mudança. Assim caminha a humanidade. Passos de formiga e sem vontade. Já é um grande progresso eu mesma estar escrevendo isso se comparar-me comigo cinco anos atrás. Venho de uma criação racista e machista, mas consegui me desapegar da ideia de que houve intenção em qualquer das máculas que me impingiram. Elas aconteceram. Certamente definiram muito do que eu sou, mas isso também é bom. Tem coisas que eu só consigo ver graças a eles. E não sentir mais essa necessidade de expor meus assuntos densos com o peso da responsabilidade do conserto do mundo é uma graça. Hoje me sinto mais livre, mais leve, do que jamais, em outro tempo, estive. E parte disso é justamente a ausência de ter que provar qualquer coisa a alguém. Que eu estou certa e eles, errados. Que trago verdades e vocês vão ter que me engolir. Uma postura tão ébria da contemporaneidade. Todo mundo tem suas verdades próprias, sem meios de refletir sobre a bagagem do outro. Falta empatia. E o que me faz mais satisfeita é que não foi alguém, um outro sujeito, que me deu isso, senão as pistas que sem querer fui cavando, filtrando um pedaço de algo aqui e de outro acolá, sem nunca aceitar nada de pronto, mas também jamais descartá-lo sem reflexão. A maneira como aprendi a fazer filosofia (e não é todos que concordam que isso é filosofia) é um caminho sem volta, de questionar, embater, ajuizar e... manter a mente flexível. Um exercício que consegui comigo mesma, com a inteligência que desenvolvi também pelas adversidades. E que, embora não seja incomum, também não é vulgar – é só olhar todos os posicionamentos políticos, éticos, morais e pessoais de nossos tempos. Todo mundo tem opinião pra tudo – sem autoridade, sem embasamento histórico, sem fonte cultural, sem coerência – mas tem. Por isso venho me abstendo de escrever sobre coisas sérias. Por isso, esse texto não é para ser levado a sério. Do lado de cá, estou free.