I-lu-são.

Volta e meia vem alguém me perguntar sobre a minha vida e os meus desejos amorosos, ignorando totalmente porquê eu perdi a fé no amor. Sério, se essas pessoas tivessem ideia do que eu passei, não me cercariam com perguntas tão constrangedoras. Não é difícil observar gente bem ***pior*** do que eu se mantendo constantemente “na ativa”, então por que é tão complicado entender que minha adorada solidão é escolhida e vai ter que ser um cara muito foda para me permitir, talvez, mudar isso?
Minha concepção de amor era diferente. Eu acreditava nas coisas sinceras, reais e profundas. Via beleza em olhares, sorrisos e palavras. E fiz tentativas, muitas mais do que meu pobre coração poderia suportar. E não, eu não acho que todo homem é filho da puta. Só acho que vivemos em uma cultura que alimenta os piores vícios humanos à guisa de (um discurso de) liberdade. A sociedade é, sim, machista e patriarcal, mas as mulheres vêm errando ao copiar as piores podridões dos homens, contribuindo para uma sociedade mais nojenta e asquerosa do que a que já podíamos suportar. (Antes que me venham acusar eu mesma de machista, digo que um dia escreverei mais sobre isso, e sobre o feminismo, que já conheço. Aqui não se trata de culpabilizar as mulheres, uma vez que aponto um comportamento, não um gênero, e um comportamento, aliás, que também sempre me repugnou nos homens. Nunca gostei de homem rodado e se me interessava por um, perdia logo o interesse e a admiração logo que vislumbrava nele esse histórico. Para quem acha que é mito homem não rodado, saiba que eles existem. E é também uma sociedade machista que os pressiona a não se aceitarem ou verem normalidade em serem como são. Não entendo como criaturas que se comportam mais irracionalmente que minha gata quando está no cio acham que animalizar totalmente as relações humanas seja evolução).
E assim, nossos relacionamentos estão mais pobres e mais frágeis a cada dia. Limitados aos atrativos densos e passageiros da carne, da atração física. Suspensos a uma troca íntima e importante com estranhos, os quais não se pergunta nem o nome. E para quem não gosta de nada disso, como encontrar um bom parceiro amoroso? Sem um passado que me cause asco ou espante toda a admiração que poderia desenvolver? Como me sentir eu mesma aprovada, se tantas vezes fui repudiada por manifestar esses pensamentos? Tudo isso me levou a perder, definitivamente, a fé no amor. O amor como eu o concebia: com confiança, verdade, respeito mútuo. Admiração, aceitação e destinado a durar, superar as adversidades juntos. Eu vejo muitos casais por aí, e até famílias, mas amor é outra coisa. E como nunca vi tal manifestação nem tive provas dela, sigo sem a idealização romântica que já me dourou os dias, cada vez mais racional e consciente de que a dureza desse mundo tem seus motivos bem enraizados, e vão muitos séculos ainda para que pequenas sementes comecem a germinar em flores legítimas de amor.
Me desculpem os casados, mas não acredito em casamentos na nossa atual conjuntura de valores. Estou cansada de ler relatos de traição, de assistir a depoimentos de prostitutas alertando às esposas que usem preservativo com seus maridos, pois elas recebem muitos clientes casados que querem fazer sem camisinha. “Só faço com a minha esposa”. Se um desejo passageiro é mais importante que toda uma vida em comum, para que serve se casar, então? Estou cansada de ver casais que se mantêm por aparências, por filhos, por bens, por tudo o que é compreensivelmente mundano – menos o que, de fato importa. E como eu jamais aceitaria nenhuma dessas circunstâncias, prefiro evitar a fadiga o risco.
Os que namoram que me perdoem também, mas conhecer um namorado pra mim nunca se tratou da mera questão de vestir algo bonito e sair. Não é qualquer pessoa que é namorável. Na verdade, quase ninguém é! Eu sempre me impressiono com o número de casais existentes, porque conhecer alguém que te atraia, e que você atraia também; que tenha interesses em comum e saiba falar com propriedade sobre eles; ter, ao mesmo tempo, desejo sexual pela pessoa; bom papo, sem ser pedante; ideias políticas que não sejam dissonantes; boa bagagem cultural e intelectual, sem vícios (essas três últimas, para mim, são importantes), é um evento tão raro que não deveria acontecer nunca! Além disso, namorar, hoje em dia, se resume a uma troca afetiva por um tempo determinado, sem vistas a uma vida em comum ou algo mais definitivo no futuro, como se fazia antigamente. Pra quê, então, eu vou ficar perdendo 2 ou 3 anos da minha vida (se durar isso!) investindo em uma criatura que depois simplesmente vai embora, como se nada tivesse acontecido? Eu tenho mesmo que acreditar que vou aprender alguma coisa boa com essa situação? Concluo, então, que não fui talhada para esse sistema de trocas o qual vocês fazem parte. Onde um ano e meio é “relacionamento duradouro”, mas que, no entanto, não sobrevive às primeiras mostras de falhas e defeitos, como se estivéssemos lidando com produtos inteiramente passíveis de substituição. Para mim, é tão difícil viver nesse tempo! Não acredito nesses relacionamentos de perfumaria, supostamente tão felizes, mas que não resistem às primeiras provas práticas do dia a dia, ou ao egoísmo de um dos dois, que “precisa do seu espaço”, “redefiniu os objetivos de vida” ou “percebeu que não te ama mais”. Não, eu não nasci para isso. Já me faz mal pertencer a uma sociedade que, com seu deturpado discurso de liberdade, acha tudo isso muito normal; imagine, então, para ser essa matéria efetiva de troca, passando de ilusão a ilusão, decepção a decepção, sem ter sequer poder de escolha e, ainda, precisar seguir fingindo que acredita em amor, em contos de fadas e em relacionamentos felizes.
Os “desapegados”, por sua vez, que me desculpem, mas quando as pessoas vêm com a política de não se apegar, o que elas estão dizendo é: “Seja conivente com a nossa irresponsabilidade. Seja conivente com a nossa forma de amar, que é, não amando ninguém, nem a nós mesmos”. Tudo se restringe a alguns prazeres sensoriais e ignora-se todo o resto. Você quer mesmo me fazer crer que isso é liberdade? Você acredita mesmo que isso é evolução? É como deixar pra trás um cachorro na mudança. Você não tá nem aí para o destino dele.
Me desculpem os pais, mas não acredito na vossa falsa dedicação a vossos filhos, demonstrada através de compras e mais compras, mas ignorando as simples necessidades de afeto de todo miúdo. Não admiro seu sexo irresponsável que gera crianças infelizes, e para justificar seu espírito hedonista, quer legalizar o aborto. Não posso com a paternidade irracional, que é capaz de sumir por 20 anos e, sem mais, menosprezar a existência de um filho, vivendo bem e despretensiosamente assim. Não aprovo as diversas mães desgraçadas que abrem mão de seus sonhos e de sua juventude e, mesmo assim, não conseguem ver que a criança é a menos culpada da história. Não nasci para assentir com isso. Fazer ar de mofa e fingir que não sou desse mundo (ainda que me sinta assim constantemente): Não, essa não sou eu.
Em mim não resta muita coisa do romantismo que um dia já tive. Talvez alguns escombros e muita poeira do que já julguei felicidade a dois, possibilidade de amor e troca verdadeira – tudo tão distante de casamentos espetaculares e luas-de-mel de vinte mil dólares. O Amado Batista que me desculpe também, mas nunca “tive um amor daqueles que marcam... com sabor de saudade...”. Meus ex-pseudo-amores me marcaram apenas com o gosto amargo do arrependimento. Da tristeza em ter confiado em alguém que não me merecia, da ingenuidade de dedicar tempo e bons sentimentos a quem não me tinha em tão alta conta. O que aprendi com cada um deles foi a me desprender dessas ilusões tolas que amealham nas mentes das meninas desde tenra idade, e talvez eu seja ainda mais privilegiada do que aquelas que obtém algum tipo de troca afetiva, afinal, consegui perceber a falsidade disso antes de arrependimentos mais profundos, e o quanto isso raramente é sincero.
Por fim, os “rolinhos” que tive em 2016 serviram para me confirmar algo que eu já desconfiava há algum tempo: Não acredito MESMO em amor. Ver rapazes (até interessantinhos) se desdobrando em cuidados e atenções por mim me soa tão, tão falso...! E não é sentimento de não merecer ou de eles não estarem fazendo o melhor que podem. Eles igualmente me desculpem, porque não é, categoricamente, culpa deles. É que não resta nada em mim desse tal romantismo, dessa fé cega em relacionamentos. Não suporto ver nas caras deles o contentamento de ter encontrado “uma boa garota”, “uma boa mãe aos meus filhos”, “uma gostosinha pudica” e ou “ela é linda, inteligente e legal, não posso deixar passar”; desprezando todo o meu potencial como ser humano que vai além do que a sociedade patriarcal espera de mim. Acredito mesmo que nossa sociedade está vivendo um divisor de águas: ou abre mão de vez do que é tradicional e permite-se apenas os novos formatos de “amor-livre”, ou vice-versa. Não há espaço para os dois, com toda gente misturada. (Não há espaço para os dois dentro de mim!!).
E eu não pretendo voltar a acreditar em amor romântico – não nesses moldes. Muitas pessoas podem pensar que uma vida sem ele é pobre (não percebendo que sustenta uma ilusão), mas muito mais miserável é viver chafurdado em mentiras, fingindo a si mesma que amor romântico existe. Que não está insegura com a possibilidade de ser abandonada a qualquer momento. Porque, meu bem, os homens eu não sei, mas quase toda mulher está. E prefere isso a viver em paz consigo mesma. Se tem uma coisa que a gente aprende é que as paixões vão embora, todos nós as superamos um dia; todavia, se amar verdadeiramente, muitas vezes, implica abrir mão daquilo que vem disfarçado de coisa boa, mas, no fundo, só nos faz mal. Olha quanta mulher suportando relacionamentos abusivos? Olha quanta gente perdoando traição, maus tratos, tudo por medo de ficar só?
Essa gente não se autoconhece e não sabe que ficar sozinho tem seus prazeres. Deus me livre de gente que não suporta a própria companhia! Ficar só é uma vida de menos adrenalina, é verdade, mas nem por isso previsível. E é somente por meio desse tempo consigo que é possível conhecer-se, minimamente, e que o maior amor que nos resta viver se manifesta, que é e sempre será o amor próprio. Não é preciso romantismo para enxergar a pessoa maravilhosa que somos, e a pessoa ainda melhor que poderemos vir a ser. Basta se perdoar por tantos enganos, enterrar os trastes que te machucaram e fincar os pés bem firmes na realidade... Afinal, ser feliz não depende de estar com alguém além da gente mesma: é apenas uma opção.


*Quem concorda com esse texto, pode assistir ao filme "Homens, Mulheres e Filhos" (Jason Reitman, 2014), que é um retrato do modo abstrato das relações contemporâneas, ainda que focado na influência da internet sobre elas.