Eu tenho um defeito que é difícil contornar: não possuo muita paciência com gente burra. Gosto de amizades que me acrescentem, que tragam temas novos e intrigantes, que proponham exercícios que fascinem o espírito, que sejam, enfim, pessoas interessantes de todo. Não dou muita trela àquelas que não somam e, como sou muito comunicativa, até chegam a mim algumas em “outra vibe”, ainda meio perdidas na vida; mas faço questão de, logo, ir alimentando cada vez menos essas relações, até que elas morram, de uma vez, de fome.
Uma amiga (da turma das interessantes de todo) me chamou atenção recentemente para o meu egoísmo. Disse-me ela:
- Eu e você temos que ver que as pessoas não se aproximam de nós só para que possamos aprender, mas também para que a gente possa ensinar. Sobretudo, porque temos muito a oferecer.
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Eita...! Ela me fez confrontar com minha característica mais marcante em se tratando de relações humanas, que eu costumo chamar de “seletividade”... De fato, o que a gente ganha se só tem relacionamentos que “somam”? Posso falar um pouco sobre, afinal sou craque em abortar os que subtraem.
- Há uma gama de diálogos ricos e embasados, de trocas íntimas ou formais, mas sempre moldadas pela admiração e respeito recíprocos.
- Você olha para o seu círculo de amizades e contatos e pensa: “Uau! Como gosto da inteligência sensível da fulana; da clareza na fala de beltrana e da formação interdisciplinar de cicrano. Que pessoa incrível é aquela criatura...! Nossa, nunca tinha pensado nisso antes... Beltrano, com sua visão formatada no Direito Positivista me descortinou mais um horizonte... Como gosto que esse pessoal também ama a cultura francesa, vinis, coisas vintage... não me sinto tão só nesse universo...”.
Agora, com amizades sem essa seletividade, a troca é outra: para começar, de minha parte, não se encerra a admiração – algo que eu acho essencial em qualquer relacionamento. A partir disso, parece que toda experiência daquele ente tem sua carga de efeito sobre mim minimizada. A pessoa me conta felicíssima da balada de ontem à noite e encontra uma Kelly séria (que, no íntimo, gostaria de não estar em presença dela, e fazendo outra coisa). Diz que beijou dois anônimos igualmente bêbados e eu fico com nojo, pois come sobremesa com a minha colher (TOC, planetas em virgem e outras coisas explicam). Eu faço a ouvinte e tento tecer comentários de maior contemporização possível, mas, sinceramente, não sei se posso realmente ensinar algo para uma criatura dessas! Tenho uma espécie de falta de fé com quem é velho e não tem juízo. Isso vai nos acometendo à medida que vamos amadurecendo (ou, deveria). Vejo conhecidos da minha idade fazendo coisas (in)dignas de adolescentes e vou perdendo as esperanças no mundo. Mulheres vividas de 28 anos se comportando como colegiais; homenzarrões de mais de 32 a culpar os pais pelos fracassos na vida, e fico meio envergonhada da geração em que nasci. Isso só é minimizado um pouco quando olho para as atitudes dos que vieram depois (trágico...!).  
E são esses comportamentos, entre outros, que não me fazem sentir remorsos ao “deletar”. Quando a amizade não me acrescenta, já vou podando, pois não consigo desenvolver a tal paciência para “ensinar” algo. Terei mesmo esse poder ou virtude? Acho que até me esforço. Doo energia, me deixo ser sugada, tenho momentos com a pessoa contra a minha vontade – faço uma força incrível para manter a tal relação, e só vou me convencendo mais e mais que talvez ainda não seja essa a hora ou eu não estou sabendo fazer direito. Quem sabe eu não tenha o suposto potencial para promover um ensino? Não sei. A real é que não vejo em mim bastante boa vontade para isso e, tampouco, essa falta de vontade como uma fraqueza de caráter. Cada um faz o que pode, não é? E, olha, que já mantive por longos períodos dessas amizades que não me acrescentavam, virando os olhos cada vez que a pessoa me procurava, mas firme e forte na minha tortura particular. Talvez elas tenham me ensinado a ser, de algum modo, mais flexível, respeitar todo tipo de opinião e de experiência (sem, necessariamente, concordar com elas), mas não sei se tais pessoas levaram para suas vidas alguma flexibilidade ou lição sobre o meu jeito de ser, também. Alguma coisa verdadeiramente formidável a elas. Pois, para mim, manter essas amizades sempre me pareceu tentar encaixar uma peça redonda numa peça quadrada: não dava, eram esforços inúteis e tinha data de validade. Por determinação da vida, ou minha, já que, por mim mesma, na segunda conversa, já abortaria.
É também a partir dessas reflexões que sempre me intrigam essas frases feitas de que “toda pessoa passa na vida da gente por alguma razão, mi mi mi”. Não concordo, é conformista demais. Será que é preciso acolher à nossa intimidade cada estropiado que aparece, mesmo que só traga alguns de nossos piores defeitos espelhados? (Afinal, se dizem que o outro é sempre o nosso reflexo...). Ou, nem isso. Jeitos totalmente antagônicos, modos de ser opostos, momentos que não nos trazem verdadeiro prazer, tudo porque a criatura simpatizou conosco? É possível construir relações profundas com quem não damos crédito, não apostamos, não nos interessamos verdadeiramente pela vida? Talvez sejam boas questões sobre aprender e ensinar. Eu só tenho certeza que ainda tenho que aprender muita coisa...! (Esse texto é a prova disso. E, se essas pessoas que não abrigo me ensinam mais que as outras, talvez seja pretensão demais eu querer ensinar-lhes algo... Com elas, também aprendo sobre mim mesma).