Andei refletindo como tem amizades que são que nem chocolate: derretem se forem expostas ao calor. Mas não era essa a reflexão-mor desse texto. A verdade é que ando balançando os amigos novos e os antigos para decidir quem vai e quem fica na minha vida (isso os que eu mesma tenho que decidir – alguns já se afastaram naturalmente). Percebi como reduziram as minhas amizades de conselhos (aquelas em que umx só procura x outrx na dor). Acho isso quase bom. Porque o afastamento que vem faz as energias se dissiparem sem tristeza ou saudade. É como se nunca tivessem passado na vida da gente. (Fria? Imagina. Só dessensibilizei fatos inevitáveis).
Tem também aquelas amizades meio mornas, tipo chocolate que esmagou no fundo da bolsa. São de uma cumplicidade parcial, com confiança e carinho, todavia em que muitos assuntos não são tratados, como se não existissem, porque elas foram moldadas em outras bases e o tempo não lhes consagrou a intimidade. Portanto, amizades não necessariamente profundas, apesar de profícuas. Você vai morder o chocolate e não é, assim, tão gostoso. Aliás, sempre acreditei que intimidade está mais ligada à energia, à troca, do que propriamente ao tempo. Tem gente que conhecemos ontem e já vamos abrindo a vida...
Ademais, mentalmente, eu classifico, sim, os meus amigos e amigas. E os classifico com nomes de chocolate (mais por isso o título desse ensaio). Tenho amizades Suflair, que são aquelas do tipo aeradas, que pouco nos vemos e já não compartilhamos fortes segredos. Até são gostosas, mas têm muitos espaços no meio. Cada um segue com sua vida e os encontros se fazem raros, embora, muitas vezes, intensos – nesse grupo estão muitos daqueles chamados “amigos de anos”. Tenho amizades Charge: muitas camadas de doçura, compostas por cartas, e-mails, papos madrugadores no whatsapp e alguns encontros esporádicos, além, ainda, de algumas confissões. As mordidas sempre surpreendem algo crocante e que “pega” no dente. Tenho amizades bis, que a gente quer toda hora, mas tem que dar uma segurada; se não segura, devora a caixa inteira; amizades ouro branco, que são redondas, branquelas e açucaradas, ah, é ouro branco, eu não resisti me dividem chocolate, ah, e minhas preferidas! Trazem o frescor da novidade e o compartilhar de novos pontos de vista sobre todas aquelas velhas questões.
Toda e cada uma dessas amizades, elas podem ir embora – ou aprofundar o laço – e agora eu já convivo muito bem com qualquer uma dessas alternativas. Elas podem ficar, ou elas podem partir – e o significado que construírem pra mim vai permanecer inalterado, independente disso. (Isso não tem nada a ver com não guardar rancor da pessoa – eu guardo – mas a separo das suas ações, por exemplo, consigo reter o aprendizado de alguma lição que chegou e se foi com ela).
Hoje em dia prefiro viver sempre com a leveza dessas amizades sem pensar muito no que vem depois do que estugar o passo em cada atitude por puro medo de perder. Vejo cada vez mais que, independente do que a gente faça ou como as coisas sejam conduzidas, esse dia, fatalmente, sempre chega, seja pelo desgaste natural do tempo, seja pelas vicissitudes que a própria direção da vida fará questão de empregar. Isso não importa o quanto você se doe, se dedique, dê o melhor de si. Muitas vezes, é maior que vocês dois.
Sempre tive muito mais amigos homens que mulheres, mas de um ano pra cá esse placar se inverteu e fiz mais amizades femininas do que tinha feito a minha vida toda, além de aprofundar algumas antigas. Penso que isso é muito positivo, pois veio logo em um momento que estou me reafirmando enquanto mulher, mais autônoma e vendo coisas que não via antes, principalmente, no que tange a compreender e respeitar diferenças. Ter amigas que pensam e agem de forma diversa da minha muito me agrega para aceitá-las e, igualmente, me sentir aceita. Trabalhar a alteridade, enfim.

Para finalizar, não podia deixar de mencionar que os melhores papos são sempre entre amigos. Velhos ou novos, é com os amigos que a gente escreve histórias, lembranças; constrói viagens, sonhos; registra palavras, momentos... São os amigos que fazem a gente ouvir uma música e lembrar de uma vivência, uma piada; lembrar de um rosto quando reencontra um livro; rememorar uma saudade quando encontra uma fotografia. Talvez no fim da vida, quando passa o tal do filme lá, sejam os amigos os grandes protagonistas, afinal.