Aquele mergulho na alma que fala tanto da gente, mas também dos outros. Como consertar o mundo? Quando se vê tanta coisa errada... E você tenta conversar com as pessoas, tenta acordá-las ou espera que elas já sejam, para si, despertas... Mas, não. Estão vivendo seus próprios dramas, reproduzindo velhos conceitos, aceitando e passando adiante padrões antigos. Estão besuntadas de mentiras, maquiadas de ironia, obliteradas à desconstrução, ainda mais inclinadas à inutilidade ao orbe terrestre. Você já parou pra pensar que uns 80% das pessoas do mundo, excluindo o afeto natural humano (acho que isso existe) que nutrimos por elas, não passam de peso útil para a economia? Apenas. Que elas não acrescentam? Não agem? Não pensam? Só massa.
E é tão triste cansar pelos outros. A tamanha dor de achar que tudo de ruim no mundo é parte sua. Que você tem que fazer alguma coisa, algo prático e concreto, e não apenas observar, sentir e escrever sobre isso... Mas, não dá... Não é possível ser Cristo... Nem ele conseguiu muita coisa... E só resta mesmo aquela questão: por que escolhemos uma época tão atrasada para encarnar... Ou, por que se não nos deram escolha? Quem sente a dor do mundo pode não ser um espírito de luz, mas com certeza, está também bem distante da banalidade do mal. Então, a gente não entende. Sofre, chora e é como se vivesse na pele a dor do outro. (Das próprias, elas sangram. Mas nem sempre são tão fundas como a do outro. Que pegamos para nós com a maior facilidade).
Quando eu assisti “O último tango em Paris”, vi a cena do estupro desavisada, mas comecei a chorar no mesmo momento, junto com a Maria. Depois eu confirmei que aquilo foi real – era obviamente real. Mas cenas de filmes fictícios também me emocionam, pois em algum lugar do mundo, alguém vive aquilo. As verdades dos fatos do mundo me doem. As constatações dolorosas. Ver uma grávida entrando na loja mais cara do shopping e lá fora outra, com a mão estendida na calçada. Não saber como agir quando vejo alguém pedindo. Ou muito sujo, ou com muita fome, ou batendo na janela do meu carro. Quando assisto documentários sobre meninos que se suicidam porque suas famílias não aceitam que sejam homossexuais, ou meninas que bebem e são estupradas, mas o xerife está preocupado que ela estragou a vida dos rapazes que fizeram isso com ela. E ela não aguenta a pressão e se mata...
Dói-me essa sensibilidade, esse 38% do mapa astral em água, esse Netuno na Casa 7 que acha que o mundo e as pessoas poderiam ser ideais e perfeitos. Dói a ignorância das pessoas, que apenas reproduzem sem questionar, conhecem mas não pensam, como diria Hannah Arendt. Dói que daqui 30, 50 anos, ainda nada terá mudado, e quiçá, tenha piorado. Dói perceber que sou só mais uma pecinha na engrenagem e que toda essa reflexão parece fazer apenas mais mal a mim mesma, uma vez que as pessoas das mesas ao lado (estou na biblioteca), muito provavelmente, estão pouco ligando. Mas, como me limpar disso? (Me vem à mente o Rodrigo Santoro naquele filme, acho que é Carandiru “To limpa!”).


- É assim que as coisas são, a gente não pode fazer nada – ouvi muitas vezes, – muitas mais vezes de homens que de mulheres. Pode ser impressão, mas muitos parecem levar a vida “mais relaxados” mesmo, sem se importar tanto em olhar pro lado ou, ao menos, pra si, a sua parte. (Mas, definitivamente, isso não é uma questão de gênero, ninguém tome minha fala por isso).