Os reencontros familiares de final e começo de ano são, talvez, inevitáveis. E é intrigante observar nos pré-adolescentes aquele mesmo tédio que um dia nos assomou e nunca mais partiu. Pelo menos, a mim. Aquele eterno sentir-se deslocada e desconfortável em reuniões familiares. Me fica sempre uma sensação de que não pertenço àquela ramificação genealógica com bases machistas, racistas, homofóbicas sendo reproduzidas incessantemente. Ilusões e autoenganos sobre dinheiro; indiscrição das tias varizentas; controle sobre os filhos de 20 e poucos anos, a coisa toda. Devo ser crua para falar. Até hoje não conheci uma única família “normal”, tipo as mostradas nos filmes, em que cada um tem a sua fala no roteiro e até as broncas são charmosas, com a pessoa saindo de cena com classe, batendo a porta com barulho certo, etc. Como canceriana, precisei aprender muito cedo a desromantizar essa ideia de família como um conjunto de pessoas que, ainda que se dê a certos estereótipos, de fato valoriza Natal, os parcos encontros comemorativos do ano, as pessoas em detrimento das coisas, etc.
Ultimamente, o sentimento que me acomete é um misto de ternura e piedade. Tem coisas entre os parentes que não vão mudar nunca, nem na minha família nem na sua – uma constatação tardia. Há visões de mundo que eles têm que serão perpétuas, e eu simplesmente não posso fazer nada a respeito. Aceitar essa ideia me traz muita paz. Pois para algumas pessoas é muito difícil se reinventar. E essa reinvenção vai desde um corte de cabelo e um regime – imagine no que tange a padrões de pensamento e estilo de vida!
Aprendi a aceitar que algumas pessoas colocam estigmas nas outras, e na cabeça delas as coisas vão sempre funcionar daquele jeito: é preciso saber que está dentro da caixa para mover a tampa (ao mais leve toque). Assim, se aquele seu parente acredita que é “bem de vida”, e os demais, fracassados, não importa o que aconteça, o bem-sucedido será sempre ele. Da mesma maneira, a mulher separada vai ser sempre “a separada”.
Aprendi a olhar com carinho para as mulheres da família que lavam, limpam, asseiam as crianças, se perfumam e ainda preparam o prato favorito do marido, como se tudo fosse natural. Elas não podem ver o que agora eu posso e qualquer palavra que eu lhes diga soaria inútil – como já tentei. Infelizmente, alguns paradigmas da sociedade parecem estar restritos à academia e algumas camadas privilegiadas, e as lutas feministas estão mais presentes nas discussões das intelectuais do que na maioria dos lares.
Aprendi a presentear as crianças com livros, mesmo sabendo que a disputa com os videogames delas é árdua. Às vezes, também, me pego sem saber o que presentear a alguém que, materialmente, tem de tudo, mas intelectual e moralmente, muito falta (e não lê). Nenhum presente conserta vidas vazias.
Estive pensando que cada ser humano tem um limite e, quem sabe, um dia, aquilo que nos parece tão fácil de ajeitar na vida do outro, também possa ser visto por ele.
Aprendi que ambição e ganância têm diferentes facetas. Algumas delas caminham de braço dado com a ilusão.
Que as promessas de ser melhor com alguém independente do quão insuportável essa pessoa seja, depende mais da gente que dessa insuportabilidade... E que quando o outro não pode ser melhor... é nossa obrigação tentar.
Observei que muitos adultos são crianças grandes. E precisamos aceitar se nossos pais e parentes estiverem nesse rol. A infantilidade dos outros também nos amadurece. Aprendemos o que não fazer, como não fazer os outros se sentirem, como agir ao invés de reagir, entre outros assuntos sérios.
Aprendi a aceitar que tem pessoas que param no tempo... E isso se mostra pela apresentação das suas casas, mas principalmente, das suas mentalidades... Que um (a) acumulador (a), por exemplo, deve ter guardada muita coisa dentro dele ou dela da qual não sabe se livrar... Ideias confusas, sentimentos ruins, que reverberam no local onde moram.

Aprendi a aceitar também que a maior parte da sua família não será composta por pessoas brilhantes, ou que minimamente fujam do senso comum. Não é possível ter conversas inteligentes e, mesmo sair do padrão de vida adotado há gerações pode parecer muito ousado.

(interrompida).