Olhar para algumas coisas na vida é como olhar as fotos de uma antiga viagem. Você pode voltar lá, o local continua o mesmo, mas não seria a mesma viagem. É como aquela história de Heráclito de que não é possível passar duas vezes no mesmo rio. Você pode até se afogar de novo, mas não é sua culpa ou do rio – já não dizia o Heidegger que só temos instantes? Desejar certas coisas na vida também parece compreender esse mesmo processo. Você pode lembrar com carinho do atendente da cafeteria e isso ser associado positivamente à sua lembrança, mas quando voltar na mesma cidade, no mesmo café, na mesma mesa, você não vê o atendente e acaba descobrindo que ele morreu. Tem várias coisas na vida que se comparam a observar fotos de uma velha viagem. A fulana era mais magra, a outra era mais gorda; aqueles dois casaram, aqueles ali romperam. Estamos todos mais velhos e mais sábios; ou estamos mais velhos e cansados; estamos agora com os sorrisos amarelos, estamos agora evitando as primeiras rugas.
Se um dia fosse possível entrar na fotografia e pegar a gente mesma pela mão e dizer: “Ei! Pare com isso. Você é linda”. E autorizar o nosso corte de cabelo, e aceitar as gordurinhas no culote, e ver a inocência do sorriso, e pensar que na verdade nem havia sofrido de verdade ainda... Ah, algumas coisas na vida nunca serão mais do que o estarrecido e passivo gesto de olhar as fotos de uma antiga viagem. Ninguém mais está lá, ninguém mais é a mesma pessoa, mas nossa ilusão insiste em recriar tudo nos mínimos detalhes, desde o luar até a música na viola, e achar que o tempo parou naquela noite. Uma noite singela de uns bons anos atrás.