Basta olhar ao redor a qualquer hora para perceber o quanto é preciso “descoisar”. Tanta roupa no armário, será que vou usar todas? “Ah, mas essa eu posso usar se fizer menos 27 graus, e aquele vestido ali basta comprar o casaquinho amarelo pra combinar; e essas 89 bolsas sempre pode haver uma ocasião, e apesar que faz 6 meses que esse treco tá na embalagem, pode ser que eu ainda use, né”. Bem, eu não tenho 89 bolsas, mas é bem verdade que em outros aspectos, tenho muita, muita coisa. Até livros. Será que vale a pena guardar tantos, pra sempre? Livro daquele professor que pagou a publicação e te deu (porque não vendeu). Livro que aquele ex-namorado deu de presente, e não significa nada (para cancerianos nada dado por ex significa algo); livro sobre receitas com carne, e agora você é vegetariano. Etc. Quando minha casa tá bagunçada assim é que fico pensando no tanto de coisa que eu tenho, guardo, não sei como me desfazer ou falta coragem pra jogar fora. “Poxa, esse vestido é de tafetá, paguei uma nota, não vou doar ele”. Ta, mas ta ali parado! Há meses. E é tão pequenino que quase nenhuma amiga caberia dentro (pigarro). E por que o armário ta tão abarrotado de alimentos? Por que minha área de trabalho ta tão cheia de imagens e pdfs da internet? Tanto ímã nessa geladeira! Tanta peça nos cabides. Tanto esmalte na gaveta. Quanto calçado pra pouco pé! (e ainda quer mais... pra combinar...).
Parece tão fácil encher sacolas, desfazer-se de velhas tralhas (emocionais, inclusive), ser menos “colecionista”, “consumista” ou, ao menos, mais “minimalista”, mas uma vida regada a consumos é, ao mesmo tempo, tão aconchegante. Ontem revendo o filme “Os delírios de consumo de Becky Bloom” não pude deixar de me ver nela em algumas cenas, e entre risadas, constatar que erros financeiros crassos que cometi no passado é que me impediram de realizar alguns outros sonhos; e agora, numa situação monetária menos desconfortável, ainda permanecem como velhos padrões e hábitos difíceis de quebrar. Afinal, qual o problema se chegou um novo cartão de crédito? Internacional, ainda, oba! É hilário como na quarta-feira palestrei a uma turma de filosofia como as pessoas viajam e querem conhecer os shoppings das cidades ao invés, por exemplo, dos museus; mas à tarde lá estava eu, visitando galerias de malhas no centro de Brusque. (ok, ok, mas eu também fui em locais mais históricos e não foi para bater foto e postar no facebook!).
Por outro lado, tem aspectos da vida em que descoisificar é simples. Mandar à merda aquelxs amigxs que só procuram ou mantém você perto por interesse. Aprender a dizer Não pra quem quer usar e abusar de você. Ser prático nas relações e na vida, como deveríamos ser no nosso guarda-roupas e caixa de maquiagens. Eu nunca tive problema em me afastar de pessoas com as quais não sentia afinidade. Volta e meia uma delas vinha me pedir por que eu tinha bloqueado no whats ou não respondido as 1739 mensagens, mas embora delicada, sempre fui muito lacônica. Na verdade, eu acho que consigo me descoisificar de contatos ( amigos) de maneira muito sutil e natural. Quando vi, já tava descoisada e pronto. Muito diferente de me descoisar (leia-se, desapegar) de pessoas que me marcaram de alguma forma, e pelas quais, ainda resiste um carinho (talvez eu escreva sobre esse outro tipo de descoisificação em outro post). A questão principal aqui é iniciar um novo ciclo sem levar tanta bagagem, tanto peso. Logo que eu me mudei pra Florianópolis, amava meu cantinho, pois a maior parte das minhas coisas havia ficado em Caxias, na casa da minha mãe. Foi de tal forma que acostumei apenas com os objetos e utensílios que tinha, e uma única panelinha servia para ferver água, fazer café e comida. Agora eu tenho jogo de panelas, 2 frigideiras, panela de pressão, bule, leiteira, etc., e minha casa e minha vida vivem sempre tão entulhados! Agora eu tenho, sei lá, uns 17 pares de meia, e acho que nem devia ter tirado alguns da embalagem, porque uso sempre os mesmos. Podia ter deixado para dar de presente. É muito engraçado isso, mas somente numa situação de abundância a gente percebe como essa coisa toda não traz nenhuma felicidade, mesmo assim vai às boutiques e fica apaixonada pelas brusinha. É lindo ter uma porção de looks como opção, mas será que se eu tivesse apenas duas ou três mudas mais confortáveis não seria levada muito mais a sério? (têm noção do quanto a competência de uma mulher é questionada quando ela é bonita? Ah, mas ela não pode andar mal vestida também)
Ah, é a cestinha estourando de prendedores para pendurar no varal tantas roupas com aquela nova fragrância de amaciante; é o Garfield do meu lado sujo de chocolate (ele gosta de comer na cama); é a mesa cheia de quinquilharias domésticas me tirando totalmente o prazer de estudar (tem algo na minha mente que separa drasticamente as mesas de trabalho das mesas de refeição, e mal consigo montar meu computador sobre a mesa, que é só uma). De qualquer forma, fica a vontade e o presságio de voltar a escrever no blog textos bem coisados descoisificar um pouco a vida e gastar mais dinheiro com momentos, com experiências, do que com um monte de coisas... Elas podem até ser lindas e fofas, mas será que podem proporcionar o mesmo prazer que só certas coisas na vida proporcionam? Não estou falando daquele brinquedinho rosa pink, mirian Quando você lembra daquele dia, aquele momento, aquela coisa tão bacana que você viveu, descrever o vestido roxo dela ou a blusa azul marinho dele é essencial... ou é só um detalhe? (Também não estou falando das coisas em que roupas não importam).
Sendo assim, o essencial nunca se trata de coisas. Elas são utilitárias, mas não nos compõem. Até nos artificializam, às vezes... E o rumo certo a tomar a partir de agora é esse: Go, Descoisifique!