Mudei meu número de celular. Excluí velhos contatos. Me afastei de muita gente. E é só o começo.
Separei roupas para doar. Bijuterias antigas que já não brilham comigo. Cores de esmaltes que já não me acompanham; peças que, embora vivas, já desbotaram da minha própria morada. Eu mudei e vou continuar mudando.
Nos próximos dias, eu já decidi que vou mudar o cabelo. Comecei a dançar, talvez eu volte a andar de patins também. Vou fazer esportes, conhecer gente nova, voltar para os cafés e barzinhos, me regrar com os estudos, trocar hábitos alimentares. Eu estou em um profundo processo de mudança... E como não posso mudar o cenário, tenho optado por começar essa tal mudança em mim mesma. Aliás, há algum lugar fora para mudar? Vai respingar no meu corpo, na minha imagem no espelho, na forma como eu vejo o mundo e no horário que eu acordo de manhã. Já respingou no meu café (que agora é descafeinado); na frequência com que procuro e ligo para as pessoas que gosto (estou dissolvendo ansiedades); na escolha das minhas leituras (já não me sinto obrigada a terminar um livro se não gosto tanto dele); nas pessoas que converso e as que prefiro não mais conversar. E há um aspecto introspectivo, sim, que está trazendo tudo isso pra fora; há algo que precisa girar e triturar lá dentro para eu ver o mundo com novas lentes, mas não é isso que é o determinante. Passamos a vida com tanto medo das mudanças, mas essa constante e grossa troca de cascas é, na verdade, o que nos faz manter vivos! Se não fosse o verão com suas cores quentes morrer para deixar nascer o outono com seus tons castanhos e laranjas, o que seria do prazer de pisar folhas secas? Não é preciso pensar que nunca mais irá pisar descalça na areia, mas que se trata apenas de uma troca de estação. Eu estou numa troca de estações da alma. Estou saindo do que é conhecido e velho e habitual e confortável para novas formas, cores e jeitos, que podem ser maravilhosos ou fazer eu me estatelar no chão. Quem disse que eu sempre estive certa? Por que manter um velho jeito de olhar, pra sempre, a vida toda? Tanta cidade para conhecer... Tanto mapa para explorar... Tanta personalidade adorável procurando a minha... Por que me reter num único modelinho engessado...?

Eu estou mudando e o que me acompanhar virá comigo; o que preferir a estagnação, eu estarei deixando para trás, sem culpa ou deferência. Estou cansada de marcar passo nos mesmos caminhos; cansada de seguir sempre as mesmas setas indicativas; estou cansada de ter medo do novo e me deixar perder sem ter vivido. Porque há uma frase muito real a qual muito me dediquei e, por isso, não vivi e aproveitei tanta coisa, que é: “e quanta coisa a gente perde por medo de perder?” E, afinal, you can’t lose what never had. Estou repaginando os assuntos; revendo meus interesses; vendo filmes e séries que antes tinha preconceito; dinamizando meu ser. Eu estou mudando e, por isso, estou dando um tempo. Um tempo de tudo, de todos, de mim mesma, mas ao contrário dos sumiços de antigamente, agora estarei muito mais presente. Presente aqui, presente no que me traz vida, presente em outras atividades. Quero parir uma Kelly nova. Leve, com graça, desapegada, como uma dança. E é por isso que estarei pre-sença em tudo o que estiver fazendo, sempre e cada vez mais: aqui escrevendo, ou estudando, ou dançando, ou atuando em conversas políticas, e brilhando, pois minha mudança fará parte justamente de integrar mais o mundo, o meu e o dos outros, e não de ficar me escondendo e me vitimizando dele. Quem quiser vir comigo que venha, quem não quiser, tchau e “bença”; é agora que começa e, dá licença, to mudando e não consigo mais ficar parada.