Coração de luto. Porque, perder arquivos digitais pode ser tão doloroso quanto alguém abrir a sua caixinha de lembranças, que você guarda há anos, e dar um fim em tudo. São pedaços de outros tempos, de outras pessoas, que mesmo que voltassem, já não seriam as mesmas. São pequenos resgates de momentos únicos. Agora, tudo vive apenas em minha memória. Com a afetividade que eu dirigi, sem ser, necessariamente, fiel. Palavras bem ou mal escritas. Reconciliações ou brigas, fotos e vídeos, músicas e poemas. Tudo o que um dia, talvez só por um dia, eu fui. Como canceriana, não poderia deixar de lamentar a perda acidental de alguns e-mails antigos. Mensagens trocadas com o frescor da ingenuidade, com a inviolabilidade da inocência. Como cartas que um carteiro extravia e jamais chegarão ao seu destinatário. Mas, deve existir um cemitério de dados. Onde as almas das mensagens falecidas vaguem ainda um tempo, até terem seu espaço tomado para nunca mais, em definitivo. Será que no futuro não haverá uma profissão cuja função será recuperar essas mensagens ultrapassadas, do nosso tempo caquético, para buscar os arroubos, deslizes e crimes de pessoas que já serão só memória?
Nunca mais. Nunca mais poderei reler nada (embora já não tivesse coragem de fazê-lo... Mas, eu acreditava piamente que um dia ficaria madura o bastante para isso. Mesmo que fosse um dia muito distante). Que tecnologia falha essa que se nos oferecem. Armazenamentos tão frágeis, uma facilidade tão grande em perder tudo... Em lançar tanta vida e alegria a leões... Que espicaçam e devoram, sem deixar nenhuma gota... Tecnologia líquida...
Coração partido. Talvez seja um excesso tipicamente sentimental querer ter tais mensagens para simplesmente saber que elas estariam lá. Foi como perder algumas pessoas de novo. Foi como nunca mais ter acesso a anseios, sentimentos e sensações que só duraram um instante. Como me impedir de reconstruir alguma coisa importante aqui dentro. Não sei. Dói perder essa série de algoritmos, informações, códigos entrelaçados, que pareciam, pra mim, ter algum significado. Como perder um objeto de estima ou ter a bolsa roubada com seu chaveiro preferido dentro.

Talvez um dia eu acorde e simplesmente conclua: eu teria apagado mesmo.